quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Cerimônia De Desfecho

Abro meus olhos, num tempo expresso
Ouço o trem ao longe, vago num deserto
São as luzes que me cegam o pensamento
Caminho no tapete, em passos lentos

Eles escutam a música ao longe
Enquanto patinam no gelo
Gestos infantis sendo apreciados
Mãe ao lado do filho no berço

Sinto uma pitada de dor nos olhos dela
Meu assombro quanto ao céu
Me atinge a súbita impressão da espera
Pois que sem ela, virei novela

Finalizo meu contra-ponto
Entoando canções de outrora
Atinjo o ápice do show
Depois, entro no carro e vou-me embora

(Edu Neves)



Por Causa De Você

Por você, investi na dor
Quando deveria investir na Bolsa
Liquidei os anjos que me traziam paz
Por você, lavei a quebradiça louça

Ajustei os fios do sistema
Queimei meus olhos na maré alta
Fitei um pássaro no edifício
Com uma asa quebrada

Salvei-lhe dos holofotes
Velei teu sono até que a morte nos separou
Não sei se há morte ou má sorte
Enganei quem nos enganou

Quando lhe vi pela última vez, estava devastada
Como selva, como roça queimada
Como lâmina cega
Como a angústia da espera

(Edu Neves)



sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Em Chamas



Toco o meu coração rasgado e fatigado
Com a mão esquerda
Na mão direita, uma rosa
Folhas em branco e uma caneta

As sementes oriundas do vento do norte
Começaram a brotar sentimentos do sul
Alguém nos edifícios luminosos
Grita um cântico, um Blues

Meu bem me espera em algum lugar do leste
Embora eu ainda não a conheça
Acordo com o Feeling na mão
E seu rosto pálido na cabeça

Última estrofe de um verso simples
Último suspiro de uma vida pela frente
Primeiro passo para o resto dela
Primeira chama cálida na mente

(Edu Neves)



Balada Do Céu Negro

Aqui estamos à sós
Eu e a vastidão infinita do céu sobre mim
Minha alma acalentada
Depois de um gole de gim

Somos eu e o céu
Tendo as estrelas como companhia
Os grilos cantam a sua melodia
Em uma algere melancolia

Volto meu olhar para o solo
Solo iluminado pela mãe lua
Afaga meus ferimentos de guerra
Ou da luta que se anuncia bruta

Até que a morte nos separe
Serei casado com a terra
Terra fria onde piso os pés
Terra fria como a serra

(Edu Neves)



sábado, 20 de janeiro de 2018

As Estrelas

Como brilham as lágrimas de diamantes
Ofuscando minha visão embaçada
Como reluzem no sertão do meu pensamento
Os olhos de uma alma enfeitiçada

Elas me olham direto nos olhos vivos
Me derretem com seu fogo alto
Com seus satélites naturais
E seus planetas virginais

Aliás, contudo, me prendem no meu edifício
Seguro de si
Em cada sacrifício
O poema é seu ofício

Da janela, vejo-as cortando o universo
E elas no entanto, brilham
Queimam
E me remetem ao varejo dos meus sonhos cintilantes

(Edu Neves)



quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Cheguei Atrasado Aos Anos 50


De forma lúdica, com meu carro sem asas
Pulei da plataforma do meu íntimo
Dei de cara com a cara amarrada
Do precipício infinito

Marylin não cantou no meu aniversário
Marlon Bando embarcou no bonde do desejo
Elvis copiou os sapatos azuis do caipira
Ninguém mais sentiu o pleno medo

Não me deixaram terminar o cigarro
Joguei ao vento formas de algodão
Nuvens passageiras de um trem cargueiro
Me negaram o sim, dando-me o não

Agora volto ao ano 2000
Nada tenho no bolso, nada tenho na cabeça
Mas tenho a alma sólida
Que talvez o apeteça

(Edu Neves)



domingo, 15 de janeiro de 2017

Romaria Dos Mutilados

Saudade de roça e sertão
Fazem-me seguir para onde haja verde
Para onde haja céu
Lonje do breu sem luar

Sonho amarelo, branco e azul
Sonho despido de medo
Sonho nu
Sonho com o arvoredo

Fazem as pazes os galhos da última árvore
Fazem soar os sinos, os pássaros
Juriti alada com seu bico de agulha
Faz amanhecer a névoa púrpura

Continuamos na estrada
Na boléia de caminhão
Contudo, sem nada na bagagem
A não ser, o coração


(Edu Neves)