quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Cheguei Atrasado Aos Anos 50


De forma lúdica, com meu carro sem asas
Pulei da plataforma do meu íntimo
Dei de cara com a cara amarrada
Do precipício infinito

Marylin não cantou no meu aniversário
Marlon Bando embarcou no bonde do desejo
Elvis copiou os sapatos azuis do caipira
Ninguém mais sentiu o pleno medo

Não me deixaram terminar o cigarro
Joguei ao vento formas de algodão
Nuvens passageiras de um trem cargueiro
Me negaram o sim, dando-me o não

Agora volto ao ano 2000
Nada tenho no bolso, nada tenho na cabeça
Mas tenho a alma sólida
Que talvez o apeteça

(Edu Neves)



domingo, 15 de janeiro de 2017

Romaria Dos Mutilados

Saudade de roça e sertão
Fazem-me seguir para onde haja verde
Para onde haja céu
Lonje do breu sem luar

Sonho amarelo, branco e azul
Sonho despido de medo
Sonho nu
Sonho com o arvoredo

Fazem as pazes os galhos da última árvore
Fazem soar os sinos, os pássaros
Juriti alada com seu bico de agulha
Faz amanhecer a névoa púrpura

Continuamos na estrada
Na boléia de caminhão
Contudo, sem nada na bagagem
A não ser, o coração


(Edu Neves)




segunda-feira, 24 de outubro de 2016

O Verbo Sentir

Sinto a falta de sentir
Falta que não me faz rir
Sinto o pulsar da Terra no espaço
Sinto frio sem casaco

Ontem senti o perfume da primavera
Senti o que não era
Senti o início de uma nova era
Era que engole a atmosfera

Sinto na boca, o paladar amargo da sua alma
Um cristal quebrado
Um azul quadrado em retalhos
Sinto a sua carga leve e pesada

Deito-me na relva com os pássaros acima
Sem, versos, sonetos ou rimas
Pressinto a volta do cometa
E escrevo no papel, sem caneta

(Edu Neves)



Poema Do Recomeço

Olho pela janela e vejo flores mortas
Olho em sua direção e o caminho é longo
Edifícios grandes e casas tortas
O céu azul e imenso na volta do mundo

Olho pelo olho mágico da porta
Noites longas sem sonhos
Sonhos lúcidos de um moribundo
Migalhas poucas de um vagabundo

Estrelas ao redor da última galáxia
Corações aflitos em extinção
Animais vagando no deserto
Sem ar, sem fôlego, sem chão

Recomeço a escrever os versos simples
De um garoto com cem anos de solidão
Aparecem sombras em conflito
Com o sim, o talvez e o não

(Edu Neves)



terça-feira, 4 de outubro de 2016

Colibri

Voa ao longe, colibri
Com suas asas tecnicolor de um sonho distante
Com o cheiro do perfume da amante
Agarrando sua chance

Colibri, voe sob a era glacial de meu coração
Encontre as notas certas da última canção
Sua sombra refletida em meus olhos
Me cegam e calam a entonação

Toque as cordas desafinadas do velho violão
Toque a palma de minha mão
Toque na ferida
Pouse na hemorragia do chão

Alcance a violeta velha do chão de giz
Alcance-a e seja feliz
Feliz como nunca e sempre
Sorrindo, mostrando os dentes

(Edu Neves)




O Carteiro

Mensagens de amor
Cartas mal escritas de parentes distantes
Cartões postais de Londres
Bilhete azul do monge

Fotografias 3x4 distorcidas
Retratos em preto e branco
Uma luz no fundo pálido
Com olhos vermelhos de vinho tinto

Tinta para o meu rosto desbotado
Paredes brancas me dão dor de cabeça
Nem a carta de Melissa cura a dor
Talvez cause mais horror

Horror ao ler a carta de despedida
Despedida da centelha vermelha
Despedida da janela embaçada
Como despedida, uma carta

(Edu Neves)



quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Curva do Rio

Barquinho leva o nosso amor acima
Vai seguindo o destino riscado no rio
Leva na bagagem o perfume de uma flor
E as asas do Criador

E depois não se tem notícia de boiada
Nem rancho, nem mato, nem nada
O tempo que a tropa viajou
Caiu o mesmo tempo e trovejou

Casas assombradas no velho monte
Com as vacas pastando em Belo Horizonte
Sem o barulho dos carros
Sem passos, sem rastros

Dias e meses seguindo com o destino fluindo
E as mãos escrevendo histórias
E as cabeças voando pelos ares
Espantando todos os males

(Edu Neves)