quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

A Vida Caótica de Guido

Ele chegou no set de filmagem e não havia ninguém.
Sentou-se na cadeira, acendeu um cigarro e abaixou a cabeça.
O terreno sombrio lhe cobria de poeira e lembranças.
Tentou pensar em algo.
Sua mente viajava à 200 Km/h.
Tinha um roteiro a ser finalizado e na verdade, nem o havia começado.
Nem uma única página.
De início, viu Cláudia vindo em sua direção.
Vestido justo com um decote nas costas, ela vinha sorrateira e com um sorriso malévolo em sua direção.
Guido a olhou dos pés a cabeça. Ela parecia mais alta que de costume.
O peso de sua cabeça o paralisava e não lhe deixava pensar direito.
Cláudia não estava lá. Mas estava para Guido.
Sua musa. Musa de Roma. Musa do estilo de vida italiano.
E nem uma linha ainda havia sido escrita.
Agora Guido está pronto para a coletiva.
Os jornalistas usam as metralhadoras para bombardeá-lo com questões sobre o filme e sua vida pessoal.
Guido hesita por um instante, mas acaba por responder todas as perguntas. Até as sérias.
Ele tinha que responder. A Europa inteira estava naquela pequena sala, afinal.
Então Guido ouve alguém chamar seu nome. Era sua esposa. Mas ela também não estava lá.
E na maioria das vezes ele não estava lá também.
Sua casa havia se transformado em uma colônia de férias para idosos.
Seu parque de diversões era a sua amante espanhola. Mulher que fazia de tudo por ele. Realmente o amava.
As indecisões de Guido, no entanto, foram varridas por um tornado de emoções quando se daparou com Cláudia.
E dessa vez ela estava lá.
Entraram no Cadillac azul e saíram em direção a noite fria de Roma. Cidade incauta.
Cláudia lhe disse que era o fim. Não havia sido fabricada para servir os seus caprichos suprimidos pela igreja católica.
Guido então, foi ao encontro da amante.
Procuravam fugir da publicidade e se hospedaram em um hotel barato.
Guido a fantasiava de bruxa para que sua imaginação talvez retornasse à sua mente brilhante.
E ela gostava dos jogos de Guido. Pintou os olhos de negro e se deitou com ele.
Guido se levanta de madrugada à procura de cigarros.
Se depara com uma das belas jornalistas que o tinham entrevistado na coletiva, algumas horas mais cedo.
A garota elogiava seus filmes enquanto cruzava as pernas e se insinuava para Guido.
Ele ficou tentado, mas parou no corredor e voltou ao quarto da espanhola.
Foi ao banheiro se olhou no espelho. Ouviu o choro da espanhola.
Ela disse que chorava por ele e pelo seu marido. Guido sorriu e deitou-se.
Jantar de negócios. Os produtores estavam a sua volta. Sua mulher chegou e sentou-se ao seu lado.
Foi uma surpresa para Guido a vinda dela.
Mas Guido teria outra surpresa naquela noite. E nada agradável.
A amante espanhola entrou no restaurante e sentou-se afastada da mesa de Guido. A princípio, Guido não notou que era seu parque de diversões maquiado.
Ela sorriu e acenou para ele. E isso bastou.
Guido chamou um táxi, mas ela preferiu ir a pé para o hotel.
Quando Guido voltou para comer alguma coisa, sua mulher já havia ido embora.
Guido perdera a musa, a amante e a mulher. Só lhe restava a mãe.
Ergueu as mãos aos céus e suplicou a ajuda da mãe. E ela apareceu.
Depois dos conselhos maternos da mãe, já morta, Guido levantou-se da cadeira e disse a verdade e o que sentia pela primeira vez na vida. Ao menos para a imprensa aniquiladora.
Não havia filme algum.
Não havia roteiro. Não haviam atores.
Dessa vez a mente brilhante da alma de Roma fracassou. E eles teriam que entender que isso não era nenhum crime.
Guido criou asas nos pés, pegou sua valise e se foi.

(Edu Neves)


domingo, 25 de dezembro de 2011

O Crime da Mulher Infiel

Abriu as portas velhas do bar e sentou-se ao balcão.
Pediu uma bebida ao dono do estabelecimento e ficou olhando para as fotos em preto e branco.
De posse da bebida, virou-se e foi procurar uma mesa vaga. Sentou e tirou da bolsa um livro.
Olhava de vez em quando para o relógio na parede do Bar.
Notou que a sua companhia estava atrasada e pediu alguns canapés.
Enquanto aguardava ansiosamente, mal conseguia ler as páginas do livro desgastado.
Os músicos faziam ressurgir John Coltrane aos ouvidos dela.
Olhou para o visor do celular. Nada. Nenhuma mensagem ou ligação.
Guardara o livro e se levantou.
Foi quando Bill entrou no recinto aparentemente embriagado.
Bill. Um homem elegante com seu paletó e sua gravata sulista, trazia consigo uma maleta de prata.
Bill encaminhou-se para a mesa onde ela estava.
- Pode ficar com a mesa. Já estou de saída. Ela lhe disse.
- Não tão cedo. Sente-se aí. O tom de Bill era autoritário e a fez corar um pouco.
- Perdão, mas o senhor...
- Sente-se. Disse Bill.
- O que é isso, afinal?
- Temos um assunto a tratar.
- Nunca o vi em toda minha vida. Disse ela surpresa.
- Estou certo disso. Mas vim até aqui para lhe contar sobre Jack.
- Jack?! O que sabe sobre Jack? Quem é o senhor?
- Sou o sujeito que vai salvar a sua vida. Ao menos essa noite.
Ela olhava por todos os lados procurando um vestígio de algo que fosse familiar.
Bill a encarava com os olhos um tanto quanto pendentes. Olhou a aliança da mulher.
- O que o senhor quer?
- Temos que sair daqui. Sua vida corre perigo.
- Não está ajudando muito. Agora ela estava agitada.
- Não há tempo. Precisamos sair.
A tomou pela mão e saiu sem pagar a conta. O dono nada fez para detê-los.
Foram em direção ao Hotel que ficava do outro lado da avenida.
Sala de estar simples. Escura com algumas luzes criando sombras nas paredes.
As sombras desfiguravam a tela com o rosto de Brigitte Bardot.
- O que estamos fazendo aqui? Perguntou assustada para o homem que a conduzira de forma bruta pela avenida.
- Você vai passar essa noite aqui. Seu marido quer matá-la e fui contratado para impedir o crime.
- Me matar?! Como conhece meu marido? Seu rosto estava lívido.
- Isso não importa, senhora. O que é relevante de fato, é que seu marido descobriu a traição da senhora. O homem que a senhora esperava no bar. Seu marido de alguma forma descobriu.
- Não sei o que dizer. Ela escondia o rosto entre o véu que lhe caía do chapéu.
- Não há necessidade de palavras, senhora. É por isso que trabalhos como o meu existem.
- Não creio que seja amigo do meu marido.
- Na verdade, fui contratado por Terrence. O homem pelo qual a senhora esperava no Bar. De alguma forma, ele desconfiou de que Jack faria alguma coisa e me mandou segui-la.
- Então eu fico aqui? Ela estava realmente confusa.
- Por essa noite sim. Disse Bill antes de sair do quarto e trancar a porta atrás de si.
Ela não se lembrava de ter deixado nada para trás. Sempre agiu com muita cautela em relação a Jack.
Na verdade, não o amava mais. Jack era um figurão que gostava de esbanjar os carros e a traía descaradamente com as meretizes e com suas amigas da Aristocracia.
Sentia um certo ódio por Jack e em tempos recentes resolvera ter um caso amoroso com um velho amigo da época da inocência.
Deitou-se na cama e ficou pensando em Jack. O homem por quem tinha se apaixonado na juventude e era até alguns anos atrás o que se poderia chamar de marido.
A relação de Jack com o poder foi lhe subindo à cabeça junto com o casamento falido e as traições.
Ela, que também era da classe alta, não via mais motivos para usar a máscara de uma instituição falida.
E então, resolvera sair algumas vezes com Terrence. Um homem que sempre foi apaixonado por ela e que a sabia fazer sorrir.
Depois de alguns minutos, pediu uma bebida ao serviço de quarto.
Bebia mais à medida que as horas iam passando e Bill não retornava.
Ouviu um barulho na porta e foi averiguar o que era.
Ficou surpresa e chocada com o que viu.
Era Jack, seu marido. Segurando as credenciais de Bill e Terrence, enquanto louco de cólera, recitava algo de Sheakspeare lentamente.
Com o assassino no quarto, ela não teria nenhuma chance. A questão era realmente complexa. Pois Jack achou que fora a mulher quem planejou a tentativa de se safar.
Tirou de dentro do sobretudo um Colt 45 luminoso e o apontou para o ventre dela.
Atirou e a mulher caiu se debatendo na cama. Sua hemorragia intensa a matou em uma questão de minutos.
Jack afagou o revólver e o colocou de volta no bolso interno do sobretudo.
Se aproximou do corpo estendido na cama e fechou os olhos da mulher.
Sorriu forçadamente para o espelho que o fitava sem paúra e se retirou do quarto.
Semana seguinte Jack foi encontrado morto em sua bela mansão. Não havia indícios de invasão ou de luta.
Nada justificava a morte de Jack, que no âmbito social era muito bem quisto por todos a sua volta.
Por fim, os peritos encontraram os frascos de remédios vazios, acharam o Colt 45 nos guardados de Jack, se lembraram da bala cravada na mulher infiel e ligaram os pontos.
Um crime passional. Mas perfeito.
Assassino nunca pego. Testemunhas mortas.
Hoje em dia a ex-camareira do Hotel reside na bela casa que era de Jack, mas os policiais não acham muito ético prender alguém sem evidências.

(Edu Neves)







sábado, 24 de dezembro de 2011

O Outro Lado (Rompendo Através)

Véspera de Natal.
Época maldita. Dreams to remember.
Meus olhos se abrem lentamente com o peso dos sonhos lúcidos da noite passada. Me levanto semi-desperto e desço as escadas. Ninguém em casa. Volto ao quarto e dobro os lençóis decorados com motivos orientais. Abro as cortinas e olho para as nuvens carregadas de hipocrisia. Ainda assim, os pássaros cantam. Um canto triste. Um canto Blue.
Volto para o meu canto e trago o ópio da discórdia, enquanto ouço o som malevolente do órgão negro da igreja.
Bebo o café escaldante, me sento na poltrona e abro o jornal. Pelo menos terei um crime para comentar de noite, quando estiver bêbado o suficiente para dizer algo.
O café esfria e as lembranças entram pela porta dos fundos sem pedir licença. Penso que ainda é cedo e seco uma lágrima que cai dos meus olhos vermelhos.
Há algum tempo eu poderia olhar e sorrir para o velho que jogava sal grosso nas vísceras do animal morto. Hoje não há mãos trêmulas, nem dedos amputados e nem os cabelos de prata.
Corpo na Terra.
Alma vagando no outro lado.
E tudo que vejo são seus olhos claros.
E tudo que ouço são seus abôios de vaqueiro.
Comunicação (consciente?) entre corpo e espírito. Agora são as minhas mãos que tremem freneticamente.
Coração na mão.
Você pode me ouvir daí?
Diabos.
Dazed and Confused.
Dedilho no violão as dores da Espanha e espanto os demônios da sala.
Hell hound's on my trail. É assim toda noite.
Não sonho mais. Sou o sonho em carne viva.
Espero que a Fiesta seja boa e que todos aproveitem a véspera do amor assassinado.

Espero que chova bastante, pois Deus também chora.

(Edu Neves)



sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Ilusões Perdidas

O sol despencava em nossas costas. As pessoas se mostravam felizes naquela tarde. Tal alegria pré concebida foi injetada em minhas veias e por um instante quase me enganou.
Não podia deixar isso acontecer. A paisagem era absurdamente bela para que eu me deixasse enganar por uma sensação.
Cristo estava lá. Com os braços abertos e os olhos fixos no horizonte. Ao menos naquela tarde, nada poderia nos deter ou nos assombrar.
Hoje, penso eu, que na verdade já tínhamos sido detidos muito antes de colocar os pés na areia.
As ondas estavam altas e arrebentavam por entre as pedras do Arpoador, dilascerando as ilusões de Ipanema. A tarde caiu devagar e em apenas meio compasso fez-se noite. Céu de estrelas, azul-negro de trevas salpicadas.
Voltamos pra casa e enquanto tirava o sal do corpo, pensei no mar agitado e sua cólera. Fiquei pensando nisso por alguns minutos. Onde começava o mar desbravado? Onde se findavam os feitos da Caravana? Por que tudo se acabou? Quando?
Durante o breve caminho rochoso, acenei para um nativo que bebia calmamente seu malte, enquanto ria da própria desgraça. Homem iluminado, aquele nativo.
Entrei no quarto e ela estava nua. Deitada com os cabelos lhe cobrindo os seios. Fizemos amor protegidos pelas trevas. Os gemidos foram abafados pelas notas agonizantes de Jimmy Page. Nossos corpos choraram. Depois do concerto veio a seca e não os aplausos.
Ela me olhou e sorriu. Suas mãos tremiam e sua face corou. Me susurrou algo inteligível e virou-se. Dormiu em questão de segundos e sonhou seu sonho dourado.
Naquela noite não dormi. Só conseguia fixar meu pensamento nas pedras. Como algo tão bonito podia ser tão perigoso? Corpo nu coberto de espinhos. Era assim. Beleza fatal.
Sonho lúcido?!
Acordei desiludido, bebi um café amargo e voltei pra casa.
Tempo de recomeçar.
Pisar na Terra. Minha Terra.

(Edu Neves)


quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

No Limite

Ruas escuras
A Cidade-Veneno que te mata lentamente
A mulher branca se esquiva da sombra dos becos
Solavanco do salto que se quebra entre os tijolos

Carros passam por mim sem se importar se estão vivos
Os carros do trilho do Trem-fantasma
Demônios familiares, lindos e claros
Viver custa caro

Uivo do lobo inerte
Cacos de gelo na calçada suja
Travesseiro de lâminas que cortam as boas intenções
Desprendem os tendões

Onde está o anjo?
Onde está a Terra que nos foi prometida?
A paz da vida garrida?
O seio da virgem despida?

Meu nome é o raio que o parta
Parta para bem longe
Longe de tudo que é meu, que é seu
Longe do amor que me prometeu

(Edu Neves)






segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O Oitavo Pecado

As mãos negras do garoto passeavam displicentemente pelos sapatos do senhor Watson. Ele sabia que aquele jovem precisava limpar as mãos com as notas verdes. O garoto o fitava sempre que uma BMW rasgava a quinta avenida. Aquele olhar puro e obscuro lhe remetia a infância. A época da inocência perdida.
Repentina pergunta.
Subitamente o garoto perguntou: - Senhor Watson, por que os carros correm tanto por aqui?
- Não sei, garoto. Talvez os homens estejam com pressa.
- Para que tanta pressa?
- Para chegarem cedo em algum lugar, garoto.
- Não entendo. Já é tempo de ter calma. Disse o garoto limpando as mãos em um pano branco.
- A sociedade sempre tem pressa, garoto. Sempre teve. Desde os meus tempos crédulos, era assim.
- Os seus sapatos estão quase prontos!
- Não tenha pressa, garoto. Eu agora só espero a minha hora.
- O senhor é paciente. Coisa rara nas ruas.
- Garoto, eu já tive pressa. E sofri feito um cão. A pressa não resultou em nada de bom para mim. Hoje estou velho e aguardo apenas a minha hora.
- Mas o senhor tem amigos, não tem? E com o dinheiro do senhor, eu também não teria pressa.
O velho Watson olhou para o menino à sua frente e ficou o fitando por alguns instantes. Seu trabalho era único. Os sapatos ficavam realmente bem engraxados e o garoto não tinha pressa. Era primordial que ficassem bonitos e lustrosos. O resto não importava.
- Hey, garoto. Você está com fome?
- Sim. Há muito tempo tenho fome.
- Vamos fazer um lanche. Será por minha conta. Disse o velho.
- Não quero comer.
Seus olhos agora estavam tristes. Olhou para o lado e pegou a sua caixa de chicletes quase vazia.
- Não entendo. Você disse que estava com fome.
- Tenho fome de esperança, senhor Watson. Fome de amor. De vida.
O velho franziu a testa e ficou pensando por alguns segundos.
- O que tem feito quanto a isso, garoto?
- Na verdade, eu tenho andado em direção ao caminho contrário. Tentei fazer com que as pessoas se amassem, mas não deu muito certo. Tentei ser gentil, mas só recebi ingratidão como retorno. Desde cedo, ando por essas bandas. Minha mãe morreu e meu pai nos deixou. Hoje somos apenas eu e meu irmão. Ainda assim eu não estou bravo com Deus. Não me revolto. Só gostaria de entender Seus desígnos. Sinto que as pessoas a minha volta também tem fome e sede. Mas o medo as impede de realizar grandes feitos.
- Garoto, que idade tens?
- Minha certidão diz que tenho 12 anos, senhor. Mas me sinto como se tivesse 80. É uma sensação muito estranha. Um peso que me corrói por dentro. Realmente não sei explicar.
- É difícil, filho. Você com 12 anos deveria estar na escola ou jogando futebol com os amigos.
- Meu único amigo é meu irmão. Sou responsável por ele. Só temos um ao outro. Disse o garoto.
- Filho, há algo que posso fazer?
- Seus sapatos estão prontos, senhor!
O garoto recebeu o dinheiro, se despediu e foi embora. O senhor Watson ficou observando o jovem caminhar em direção a ponte que cobria o rio amarelo. Pensou que pudesse fazer alguma coisa pelo garoto. Mas ele havia ignorado a sua pergunta. Nunca mais o viu. Mas sempre pensava no garoto. O garoto sem pressa.
Oito anos se passaram e o senhor Watson ficou muito doente. Uma espécie de câncer que se espalhou rapidamente por todo o seu corpo frágil. Agora o senhor Watson tinha pressa. Pressa de morrer. Não queria sobreviver e ficar totalmente dependente dos outros. Sua família o havia deixado em um bom hospital e raramente o visitavam. Quando o faziam, levavam uns papéis que o velho já não podia distinguir do que se tratavam, por causa da cegueira. Imaginava que poderia ser o testamento.
Dois anos se passaram e a doença só progredia. As noites eram intermináveis e os dias inválidos. Então o senhor Watson recebeu uma visita. Já não podia mais enxergar absolutamente nada. No entanto, sua audição ficou aguçada.
- Garoto, é você?
- Como me reconheceu, senhor?
- Eu me lembro de você, rapaz.
- O senhor sente dores? Perguntou o garoto.
- Garoto, quero que me faça um favor. Mais um. Desligue esses malditos aparelhos.
- Deus! O senhor quer que eu acabe preso?
O velho se contorcia de dor. Seus olhos lacrimejantes e brancos imploravam por um breve adeus. O garoto olhou pelo corredor. Não havia ninguém por ali. Levou a sua mão aos botões e remexeu a parafernalha que mantinha o velho sobrevivendo. Por fim, conseguiu desligar e foi embora um pouco assustado.
O senhor Watson faleceu alguns minutos depois do ato corajoso do garoto. Seus bens acabaram sendo confiscados pelo governo e a família não recebeu nenhuma quantia. Quando souberam disso, amaldiçoaram o senhor Watson com todas as forças. O garoto se tornou homem e hoje em dia trabalha em uma loja de discos.
A história do senhor Watson não é nada fantástica, mas há algo nela que de certa forma toca as pessoas. A pressa é um paradoxo.
A agonia clama por pressa.

(Edu Neves)



sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Pedras na mão e um corpo na Piscina

A marinha inglesa se junta com o trabalho independente e geram uma criança chamada Brian.
O garoto cresce e tem a educação das ruas e universidades.
Músico de origem clássica, Brian já era capaz de ler partitura desde muito cedo. Aprendera piano com a mãe que ministrava aulas em uma igreja. Já rapaz, com suas roupas extravagantes, viveria sem restrições a tríade sexo, drogas e rock and roll. Decisão que havia tomado por influência do movimento libertário. Vieram a fama e fortuna. Os rapazes realmente eram bons. Sonoridade suja do Rock puritano misturada com elementos do Blues, fez com que a banda se tornasse conhecida.

Porém, Brian acabou por ceder ao uso certas substâncias que mais tarde lhe custariam o inevitável desprendimento do grupo que ele mesmo havia formado.
O ano era 1962. Se não me engano era a época das flores.
Três rapazes tragavam alguma coisa e ouviam as Águas de Lama contando a história das pedras que rolam.
O Marquee Club de Londres iria conhecer a história em breve.
Instrumentista sem fronteiras.
O garoto tocava guitarra, gaita, piano, banjo, sax, oboé, bateria e xilofone. Não tinha a mesma facilidade para compor dos outros dois rapazes, mas era a alma melódica do grupo.
A jovem Anita, sua garota e aspirante a atriz, havia atuado em um filme de quinta categoria chamado A Degree Of Murder. Obteve um sucesso razoável, em parte pela trilha composta por Brian.

Várias teorias no entanto, fazem alusão à um pedreiro chamado Frank.
Frank trabalhava calmamente na casa de Brian e nunca houve nada de assombroso em sua pessoa. Porém, reza a vigésima sétima lenda que esse homem teria matado o garoto Brian, afogando-o em sua piscina.
Frank, segundo dizem, confessou o homicídio a sua filha, quando estava no leito de morte. Mas os piratas sempre duvidaram disso.

Uma pedra rolante morto por um pedreiro.
Faz sentido, mas não deixa de ser lastimável.

(Edu Neves)



terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Era uma vez na Irlanda

Lá vai Johnny com suas botas sujas do asfalto
Seus cabelos reluzentes
Lenço amarrado no pescoço
Vite e cinco dólares no bolso

Lá vai Johnny com seu violão
Almas acústicas ao seu lado
Sentado em frente ao portão
Sem chaves e cadeados

Lá vai Johnny com a sua voz e seu Soul
Pelas Ruas de New York
Seu bolso cheio de gueto
Com toque de Rock and Roll

Lá vem Johnny voltando para o campo
Roça mata adentro
Trejeitos, mungangos
Através de seu último canto

Lá vem Johnny com sua roupa preferida
Jaqueta de couro negro
Gato soturno do dia
Tatuagem marítima

Lá vem Johnny voando nos céus
Voltando pra casa mais uma vez
Com marcas da rua
Com lembranças de um bordéu

(Edu Neves)

*Dedicado a Van Morrison






segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Paraná Beat

Descendende de poloneses e negros, Paulo Leminski Filho
nasceu em Curitiba, Paraná, no dia 24 de agosto de 1945.
Ex-professor de história e de redação em cursos pré-vestibulares, sua atividade
profissional concentra-se na criação e redação publicitárias, em sua cidade natal.
Seus primeiros poemas foram publicados na revista ''Intenção'', em 1964, então
porta-voz da poesia concreta paulista. Depois disso, muitos volumes de sua autoria vieram à luz,
entre os quais se destacam os romances ''Catatau'' (1975) e ''Guerra dentro da gente'' (1987).
Os ensaios intitulados ''Anseios Crípticos'' (1986) e os livros de poesia: ''Quarenta clics'' (1976),
''Não fosse isso e era menos/Não fosse tanto e era quase'' (1980), ''Polonaises'' (1980),
''Caprichos e relaxos'' (1983), ''Haitropikai'' (1985) e ''Distraídos venceremos'' (1987).
Destaca-se também como compositor, tendo criado várias letras e músicas, sozinho ou em parceria com
Moraes Moreira, Gilherme Arantes, Ivo Júnior e Itamar Assumpção.
Caetano Veloso, um dos intérpretes das canções de Leminski, assim se expressou sobre
''Caprichos e relaxos'': ''Esse livro de poemas de Leminski é uma maravilha, por que os poemas são muito sinéticos,
muito concisos, muito rápidos, muito inspirados.
Ele é um sujeito gozado. É um personagem muito único, no panorama da curtição de Literatura no Brasil.
Eu acho um barato. Leminski tem um clima de mistura de Concretismo com a Beat Generation, que é muito legal''.

O Paulo Leminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau a pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filha da puta
de fazer chover
em nosso piquenique

Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de tramsformar em raiva
Ou em rima.

Que tal se
fosse real
esse realce
que Gil se
viu viajou
se via Gil?

Pelo branco Magnólia
O azul manhã vermelho olha.

Nem toda hora
é obra
nem toda obra
é prima
algumas são mães
outras irmãs
algumas
clima

Você me amava
disse
A Margarida
A Margarida
é doce
amarga a vida

Tudo que li
me irrita
quando ouço
Rita Lee

Aqui, poemas para lerem, em silêncio,
o olho, o coração e a inteligência.
Poemas para dizer, em voz alta.
E poemas, letras, lyrics, para cantar.
Quais, quais, é com você, parceiro.

(Paulo Leminski)


domingo, 11 de dezembro de 2011

A Liga da Injustiça

Os assuntos quentes e candentes de Brasília nunca foram resolvidos nos gabinetes ou nos plenários, mas em restaurantes, quartos de hotel e festas particulares.
Há algumas semanas atrás o STJ, a ''grande corte'' do país, simplesmente transformou em pó a mais extensa investigação já feita a família do senhor Sarney.
A investigação foi realizade entre 2007 e 2010, mapeando o rastro do clã maranhense nas tetas atômicas do Poder Público.


Remessas milionárias para o exterior.
Dinheiro de empregadas domésticas e lavradores sendo controlado pelo filhinho do papai Sarney.


Agora que já apresentei a ponto do Iceb... Digo, do cigarrinho do demônio, aqui vai um refresco para a nossa memória curta.



José Sarney

Caso - A Polícia Federal descobriu o envolvimento da família do Senador no desvio de verbas públicas e no envio ilegal de dinheiro ao exterior.

(In)justiça - O STJ acaba de anular uma investigação que durou três anos.

Hoje - Esse senhor amável é Presidente do Congresso.



Luiz Estevão

Caso - O Ex-senador foi acusado de desviar 169 milhões da obra do TRT de São Paulo.

(In)justiça - Cassado, foi condenado a 31 anos de prisão. Onze anos depois, aguarda em liberdade o julgamento de recursos no STJ.

Hoje - Esse senhor dedica-se a vida empresarial.



Daniel Dantas

Caso - O banqueiro foi denunciado por crimes contra o Sistema financeiro e chegou a ser condenado a dez anos de prisão por corrupção ativa.

(In)justiça - O STJ anulou o processo por irregularidades flagrantes praticadas pelo delegado que cuidou do caso.

Hoje - A tendência é que o Banqueiro de múltiplas faces continue impune.



Fernando Collor de Mello

Caso - Depois de sofrer Impeachment em 1992, o ex-presidente respondeu a processo no Supremo Tribunal Federal por corrupção passiva.

(In)justiça - Em 1994, o STF absolveu esse senhor por falta de provas.

Hoje - Eleito Senador em 2006, esse senhor é Presidente da Comissão de Relações exteriores da Casa.



Paulo Maluf

Caso - O ex-prefeito é acusado de desviar verbas públicas e de tranferi-las para contas pessoais no exterior.

(In)justiça - O processo rola há cinco anos. Esse senhor já foi condenado até nos EUA, mas por aqui ainda não há previsão de julgamento.

Hoje - Esse senhor foi eleito Deputado Federal no ano passado.



Jader Barbalho

Caso - O ex-presidente do Senado Federal é acusado de formação de quadrilha pelo desvio de 1,7 bilhão de reais da extinta Sudam, em 2001.

(In)justiça - O processo continua à espera de julgamento.

Hoje - No ano passado, esse senhor elegeu-se novamente e aguarda a decisão da Justiça para tomar posse.



Romero Jucá

Caso - O senador já foi acusado de crimes eleitorais, desvio de verbas públicas e fraude financeira.

(In)justiça - 90% das acusações ainda aguardam julgamento. Alguns crimes, no entanto, já prescreveram.

Hoje - Esse senhor é líder do Governo no Senado e o principal interlocutor do Parlamento junto ao governo.

PS.: A Liga cresce à cada dia. Precisaremos de uma mãozinha do Chuck Norris amanhã ou depois?

(Edu Neves)

sábado, 10 de dezembro de 2011

Dezembro em Los Angeles

Essa é a noite iluminada
Noite das sombras amarelas
Noite no campo, vento na relva
Flores que brotam do asfalto
Sob meus pés, a dor que o dia levou
Sonho comigo mesmo
Meu sonho é uma rua sem saída
Com entrada para a quinta avenida
Minha cama é um tapete voador
Sobrevoando o céu da Califórnia
Encontrando as nuvens
Acendo as estrelas apagadas
Iluminando o seu quarto
Não sou de ninguém
Ninguém me convém, amor além
A ferrovia entre o mal e o bem
Terra encoberta
Poeira vermelha do Oeste selvagem
Poeira cósmica
Pó de giz em nossas mãos

(Edu Neves)



Receita Multicultural

"Como?! Vocês vão montar uma banda de Heavy Metal?''
Diverte-se  Dave Stewart, ao relatar o espanto de algumas pessoas diante da notícia de que ele e Mick Jagger estavam unindo forças para formar um novo grupo pop, batizado de SuperHeavy. Finalmente na última terça-feira, depois de dezoito meses de espera, o álbum da banda teve seu lançamento mundial.
E o resultado está bem longe de qualquer coisa que tenha a ver com Metal pesado. Além de Dave e Mick, fazem parte do bando a britânica Joss Stone, o jamaicano Damian Marley e o compositor indiano A. R. Rahman, que ficou mais conhecido pela trilha sonora de Quem quer ser um Milionário?

Classificação :  Rock-Soul-Reggae-Bollywood

"Quando eu era jovem e conheci a lenda do Blues John Lee Hooker, ele já era bem mais velho que nós. Mas ninguém ligava a mínima para a sua idade. Queríamos ouvir o que ele tinha a dizer.'' Ressalta Jagger.

Já Joss Stone, tem 24 anos mas canta desde sempre.

A banda com várias facetas e vertentes talvez inclua algum brasileiro no próximo disco.
Sugestões?

Eu é que não me arrisco. Tenho medo do Mick Jagger.

(Edu Neves)

SuperHeavy - Energy


sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Oeste Adormecido

Deixa que o vento do Oeste
Adormeça sobre o lago
Fala em silêncio com teus luminosos olhos
Banha de prata o crepúsculo
E de repente
Te retiras enquanto enfurece o Lobo
E o Leão
O escuro bosque espreita

(William Blake)


Milágrimas

(Itamar Assumpção / Alice Ruiz)

Em caso de dor, ponha gelo
Mude o corte do cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema, dê um sorriso
Ainda que amarelo
Esqueça seu cotovelo
Se amargo for já ter sido
Troque já esse vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério, deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada milágrimas sai um milagre
Em caso tristeza, vire a mesa
Coma só a sobremesa
Coma somente a cereja
Jogue pra cima, faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra apenas, viva apenas
Sendo só fissura, ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena, reze um terço
Caia fora do contexto
Invente seu endereço
A cada milágrimas sai um milagre
Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas, três, dez, cem, mil lágrimas
Sinta o milagre
A cada milágrimas sai um milagre






* Canção do disco de Zélia Duncan - Pré Pós Tudo Bossa Band



A Fúria da Tempestade

Vento instigante
Toca a pele que arrepia
Açoita o nervo que se contrai
Vento
Moinho
Força do beija-flor
Rompe através da cortina de fumaça
Serpente que dança no fio da navalha
Não há estrelas no céu do subúrbio
Mas o vento continua cantando
Voz fria
Voz que cria
Cria pingos
Cria rimas
De repente, é um repente.
Sem futuro nem presente no passado da gente.

(Edu Neves)


Glória

Andando em círculos
Caminhando ao redor da Cova
Vendo a Luz sem clarão
Como tempos de Glória

Glória bem vinda
Resta um beijo ainda
Atriz do meu Clipe
De carona para a Bad Trip

Porta-retrato na estante
Chuck Berry no alto-falante
Silêncio vibrante
Ecoa adiante

Tempo de doze compassos
Fuga, colares e óculos
Lápis, caneta e compasso
Fuga, a surpresa do óbvio

(Edu Neves)




quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Dois Filhos de Minneapolis

Coen


Não faltam personagens espirituosos na filmografia desses dois lunáticos do Mundo Noir.
Desde a xerife grávida em Fargo (1996) até o advogado especialista em divórcios de O Amor Custa Caro (2003). O curioso é que esses tipos, famosos por sua linguagem perspicaz, são o oposto da dupla de cineastas na vida real. Na maioria das vezes os irmãos Coen falam pouco. E quando precisam. Se precisar.
Simplesmente dizem: É a história que queríamos contar.
Diretor de duas cabeças. Aura Cult.

''O que costumamos fazer é: Quem está mais perto de quem pergunta, responde. E funciona.''

1996 - Fargo

Frances McDormand conquista o Oscar pelo papel da xerife que desvenda o caso da esposa sequestrada a mando do próprio marido.

1998 - O Grande Lebowski

Um dos filmes mais cult da dupla, narra as desventuras de um desocupado e fã de Boliche.

2007 - Onde os Fracos não tem Vez

Para mim, o ponto alto da dupla. Vencedor de quatro Oscar: Melhor filme, direção, roteiro adaptado e ator.
Javier Bardem está fantástico na pele do Serial Killer.

2008 - Um Homem Sério

Indicado a dois Oscar, é uma comédia dramática protagonizada por um professor de Física e pai de família que vê a sua vida desmoronar.

PS.: Agora preciso criar vergonha na cara e assistir Bravura Indômita.


Obrigado pela dose de loucura. Vida longa a Joel e Ethan.

(Edu Neves)



PS.(2): Queime depois de ler.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

A Pedra no Sapato

A procura incessante pelos diamantes torna cego o homem que não possui olhos de ver.
As pedras mais desejadas no Mundo.
Porém o que muitos ignoram, é que toda a beleza bruta e cristalina pode acarretar um preço alto demais à se pagar. E isso não diz respeito apenas a questão econômica.
Grande parte dos diamantes extraídos de zonas de conflito são garimpados ilegalmente e vendidos tendo como objetivo arrecadar fundos para financiar o Terrosismo com seus militares rebeldes. Tais grupos, após a posse do dinheiro, compram armas (também ilegalmente), e forçam homens, mulheres e crianças a garimpar os diamantes, ameaçando-os de morte ou de ter um membro amputado, em caso de protesto ou relutância.

Grande parte dos diamantes são provenientes de regiões de conflito.
Tais como Angola, República Democrática do Congo, Costa do Marfim, Libéria e Serra Leoa.
Diamantes derivados de regiões em conflito são introduzidos por contrabando no fluxo de comércio legítimo.
Alguns mineradores usam o trabalho infantil para garimpar espaços subterrâneos, onde adultos não teriam acesso. Na Índia, as crianças cuidam das pedras menores, por conta da visão mais aguçada e dedos menores. Tal tarefa gera um desgaste da retina, lesões e infecções pulmonares causadas pela inalação do latifúndio sangrento.

O Processo de Kimberly é uma iniciativa de vários países envolvendo governos e a Indústria do Diamante, criada para impedir a comercialização de pedras advindas de regiões de conflito.

No mais, na minha opinião (e minha apenas), isso não passa de demagogia norte-americana para qual o conformismo nos leva a pensar em conspiração. Ou talvez, eu esteja ficando louco, realmente.

A questão é que eu creio que as pessoas não comprariam um Diamante belamente lapidado, se soubessem que tal pedrinha custou o braço de alguém. Ou a vida...

(Edu Neves)




Desejo que o Papa tenha uma ótima noite de sono.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Todo Coração é Louco

Corações moldados em aço
Passeiam em suas naves espaciais
Coração puro; lindo e obscuro.
Coração pulsante; lunático e ofegante.
Coração atômico
Coração de vidro
Coração radiofônico
Toque para mim, Coração. Toque a música das cidades.
Toque o meu corpo e beije a minha mão.

(Edu Neves)


Mr. Scarecrow

Sozinho nesse quarto
meu pensamento vagueia sem rumo pelo Oceano da Incerteza.
Enquanto me sinto vazio, escuto o barulho de bombas.
Então percebo que não há bomba alguma e que essa guerra não é mais minha.
É apenas Jimi tocando fogo na Casa Vermelha entre um compasso e outro.
Meu coração louco grita e parece querer pular para fora do peito.
O pouco tempo que tive na Vila Espacial não foi o suficiente para que eu brilhasse.
Há tempos atrás, tive meus dias de glória em uma cidade de sombras e máscaras, onde todos viviam com suas fantasias reluzentes.
Eu era um membro da trindade. Hoje me cubro com lama e mostro a minha verdadeira face.
A face oculta do lado negro.
O Eclipse que assombra o Deserto. Meu velho Curandeiro se foi. Está em outra nebulosa. Se tornou livre em um dia nublado e com chuva.
Jamais será escravo dessa terra alcoviteira novamente. Estive com ele até o último instante. Hoje, se pudesse escolher, teria ido no lugar dele.
Minha estrela Cadente já não está mais por perto. Sinto frio agora e nada posso fazer.
Os piratas já não me querem no barco.
Ironia dos Infernos...
Ajudei a construir o maldito barco.
Sem barco, sem o velho curandeiro, sem a estrela cadente...
Meu bolso está vazio. Já não guardo poemas dentro dele.
Quarto vazio, céu vazio.
Fim da Linha.
Dessa vez, o Espantalho venceu.

(Edu Neves)

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Espelhos Quebrados

Ultimamente tenho me questionado bastante à respeito da Humanidade.
Hoje em dia, as pessoas inventam mil e uma maneiras de comunicação e no fim acabam não dizendo nada umas às outras.
O indivíduo fez questão, ao longo dos anos, de inverter seus valores, aniquilando a ética, dando vazão ao que lhe convém. Acaba por se corromper. Pratica a Política sem se dar conta. O Sistema é uma espécie de tática mal planejada e sem sentido. Mas com um objetivo.
Manipulação.
Os senhores feudais não querem ver o seu sorriso. É bom ter isso em mente. De certa forma você já sabe o que esperar.
Eles precisam que você seja submisso, que respeite as regras, que siga as normas. Enfim, que seja fraco.
Precisam te ver abalado, confuso e atormentado.
Uma mente atormentada é manipulada facilmente com maestria. Nesse caso, acredito que o Capitalismo aliado ao Consumismo desenfreado contribui em grande parte para com a Máquina. Para que a inversão seja possível. E nisso, os norte-americanos tem uma boa parcela de culpa. Mas eles jamais iriam reconhecer isso.
Pessoas de natureza morta se matam por uma questão de Status, sabendo que a infelicidade será a companheira nas horas de insônia. No entardecer da alegria que antecede o retorno do marasmo habitual, a sofrida história do azar se desenrola em capítulos infindáveis.
Espelhos quebrados.
O homem teme o caminho do coração. Prefere trabalhar na Ford. Assim a sociedade lhe concebe um Oscar. A vida é uma só até que provem o contrário. E acredito que a idéia seja procurar um caminho que te deixe feliz. É preciso ignorar o que irão dizer sobre nós. Se o homem escolhe a sua estrada por ele mesmo, o Sistema diz: ''Puxa! Aquele cara é realmente pirado. Oh! Cadê ele? Ele já se foi!''.
São as mesmas pessoas que te coíbem desde cedo. Não lhe deixam seguir adiante. Punem e zombam da sua estrada. Ignoram o seu olhar infantil. Isso é uma forma de assassinato.
E cometem o assassinato com um sorriso no rosto.
E pior...
No final, a culpa vai ser da Igreja Católica!

Que o Mundo acabe logo, Senhor.
Amém.

(Edu Neves)


terça-feira, 29 de novembro de 2011

Quando você cai

Hoje em dia a palavra maléfica da moda é Intolerância.
Intolerância nos jornais, na TV, nas escolas e onde quer que seja.
Intolerância que gera atitudes brutais contra qualquer um que seja considerado diferente de alguma forma.
Grupos de extermínio de animais.
Grupos que acreditam que as pessoas gordas devam morrer.
Grupos que querem aniquilar os homossexuais.
Grupos que criam suas próprias regras, baseadas talvez, em suas próprias frustrações.
Eu pensava em criar um grupo contra os grupos. Mas aí percebi, que estaria jogando com as regras deles.
O catolicismo por exemplo, nos impõe uma série de culpas infundadas desde os primórdios.
Culpa que nem sabemos a razão.
Sentimento destrutivo imposto por uma instituição ''dourada''.
Eu acho que um país que se considera democrático não se pode dar ao luxo de ser intolerante com as diferenças internas.
Outra coisa que acho bastante irritante é a rivalidade incabível entre os estados nacionais.
Mas falaremos disso uma outra hora.
Voltando a questão da intolerância, a sociedade hipócrita sempre exigiu respeito, compromisso e consideração.
Porém quando alguém tropeça, o circo de julgamentos está formado.
Vergonha alheia.
É o que sinto.
Não sou o Apóstolo Paulo, mas me orgulho em dizer que nunca foi necessário para mim, o uso de máscaras. De armaduras talvez...
Creio que já é tempo de ser intolerante com a intolerância.

(Edu Neves)


segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Dá licença que eu vou beijar o Céu

James Marshall Hendrix.
De fato não foi uma pessoa comum.
Tímido, exibido, alegre e melancólico.
Só parecia se sentir à vontade no mundo mágico da música.
Era através de sua música que Hendrix conseguia atingir as pessoas e tocá-las de alguma forma.
Sem a música, a vida se mostrava sombria e ameaçadora.
As drogas se apresentavam como uma solução aparentemente mais fácil. Desde os cristais de metedrina, ainda cedo, até a suposta dose fatal de barbitúricos em 18 de Setembro de 1970.
Hendrix acreditava que o uso de tais substâncias ajudavam-lhe a vencer o retraimento natural e modificavam-lhe a consciência. A guitarra manualmente adaptada foi a sua mais intensa paixão. Com ela fazia amor até em público. Era a companheira que jamais lhe traía e da qual sabia todos os segredos.
Por sua guitarra, levou surras na adolescência e no quartel.
Contrário à violência, Hendrix preferia apanhar, contanto que não tocassem nela. Sua Betty Jean.
Defendia-a até a morte, se fosse preciso. Por sua causa, era rotulado como louco.
A revolução que Hendrix provocou no universo da música, não encontra paralelos até hoje. O rock, o blues e até mesmo o jazz não foram mais os mesmos depois de sua passagem iluminada por aqui.
Fusion / Jazz-Rock

Creio que Miles Davis certamente bebeu nessa fonte. Clapton, Townshend, Beck e Winwood prestaram-lhe homenagem desde sua chegada a Londres.
Hendrix era o profeta reconhecido longe de sua Seattle natal. Todos os grandes logo notaram que Hendrix era o maior entre eles.

Se você ainda tem dúvida quanto a genialidade de Hendrix, pergunte ao Eixo. Ele sabe de tudo.

A História da Vida é mais rápida do que um piscar de olhos.
A História do Amor é alô e adeus, até que nos encontremos de novo. (Jimi Hendrix - 18/09/1970)


Jimi Hendrix é um anjo torto, muito louco, que baixou nas trevas do nosso mundo, e com a sua guitarra iluminou a nossa vida.

(Edu Neves)

domingo, 27 de novembro de 2011

Um Bonde Chamado Desejo

E assim aconteceu de eu entrar nesse Mundo estragado
Para encontrar a companhia quimérica do Amor
Sua voz por um instante no vento (E não sei para onde arremessada),
Mas para abraçar por pouco tempo
Cada escolha desesperada.

- Estrofe do poema The Broken Tower ( Hart Crane - 1899 / 1932 )


A crítica literária acadêmica coloca Tennessee Williams entre os grandes nomes da Dramaturgia
Norte-americana do século XX.
Homem nascido e criado no Sul dos EUA, tinha em sua família de origem, inspiração para os personagens
sobre os quais ele escreveria durante toda a sua carreira de ficcionista.


Broadway, 1947

Temos na personagem Blanche Dubois, uma herdeira do refinamento e da fragilidade de uma aristocracia decadente. Um modo elegante de viver de lembranças.
Os problemas ganham vida quando Blanche bate de frente com o marido de sua irmã.
Stanley Kowalski, um trabalhador braçal que Blanche descreve como um animal.
Vale ressaltar a importância de Kowalski (Marlon Brando), como tendo personificado um objeto de desejo sexual que inaugurou na história americana, o reconhecimento da luxúria feminina.
Tabu quebrado.


Arthur Miller teria dito que a peça é um grito de dor. Provavelmente devido as particularidades de Tennessee. Segundo a lenda, o autor teria uma espécie de amor imorredouro por sua irmã Rose.
Alma perdida nos anos 40.
O Bonde ainda percorre os trilhos.
Desejo híbrido.

(Edu Neves)


Introdução ao Modernismo

As duas primeiras décadas do século XX marcaram-se
pela crise do Capitalismo e o renascimento da Democracia de Massas.
A Burguesia teria tomado consciência do perigo que representava, para ela, a revolução socialista.
Crença no Progresso.
A máquina se torna participante ativa em todos os setores da vida.
O período de euforia, no entanto, durou pouco.
Com a Primeira Guerra Mundial, o conflito envolveu a desconfiança nos setores políticos, sociais e filosóficos vigentes.
O homem que viveu a Guerra, começou a questionar os valores de seu tempo.
Com a crise de 1929, a Segunda Guerra era só uma questão de tempo.
O curto período entre as duas guerras, conhecido como ''anos loucos'', foi uma fase
marcada pela ânsia de viver freneticamente.
Aproveitar o hoje, o agora. Era uma necessidade, já que a Fumaça Negra que pairava no ar, tinha lançado
no espírito humano a incerteza sobre a permanência da paz.
Belle Époque.
Surgiram então, na Europa, vários movimentos artísticos conhecidos em seu conjunto como Vanguarda.
Tendências que refletem a inquietação, o dinamismo e as contradições do período.
O intuito era chocar a opinião pública.

Cronologia: Futurismo / Expressionismo / Cubismo / Dadaísmo / Surrealismo


Desorganização proposital da cultura e arte produzida até então.
Penso que o movimento vanguardista também está associado diretamente a natureza humana desde os primórdios.
No entanto, chega um momento em que gritar já não adianta.
O que faremos então?

(Edu Neves)

O Bolero de Jeff Beck

Geofrey Arnold Beck, nascido em 24 de junho de 1944.
Guitarrista britânico.
Sonoridade influente dos anos 60.
Assim como a maioria dos músicos de sua época, Beck
começou como guitarrista de estúdio.
Em 1965, entrou para o Yardbirds, depois que Eric Clapton
deixou o grupo.
Mal sabia ele que, dezoito meses depois teria que sair também
devido principalmente aos problemas de saúde derivados do álcool.
Os anos passaram e Jeff tentou obter algum sucesso com sua banda.
Porém seu som não era considerado muito comercial, embora os álbuns vendessem bem.
O reconhecimento de fato, só iria surgir em 1975 com o álbum Blow by Blow.
Músico virtuoso, ele sempre fez questão de usar a fusão Jazz / Rock and Roll em seus discos, dando um toque pessoal.
Uma curiosidade que pouca gente sabe, é que Beck teria sido cogitado a participar da banda Pink Floyd.
Mas acabou não sendo chamado. Roger Waters mais tarde, disse que seria muita pretensão convidá-lo. E eu tenho que concordar.
Nada contra o Pink Floyd, que fique bem claro.
Beck atualmente continua a gravar e lançar seus discos esporadicamente.
Beck, um sujeito pretencioso, mas sem a pretensão britânica que assombra o mercado.
Mecânico e restaurador nas horas vagas, tem um pequeno hobby.
Colecionar carros antigos.
Barganhou o álcool pelos carros.
Foi uma boa troca?!
Foi. Pelo menos até ele começar a flertar com a música eletrônica...
No entanto, continuo fã.
Long Life, Jeff!

(Edu Neves)




A Última Valsa Suburbana

Sábado.
Devia ser umas 20:30...
Não me lembro. Só me lembro ao certo do que houve alguns instantes depois.
A sofisticação na verdade é simples. Já diria o genial Stan Getz.
O que ocorreu foi o seguinte: Estava eu na cozinha fazendo um café amargo, quando ouço a voz de um fantasma, que chegava a ser filha da puta, de tão familiar. Os passos se aproximaram e ficou claro que não era um fantasma. Era o nosso amigo Will. Jesus Cristo! Will é o tipo de sujeito que faz você se sentir em casa de verdade. Trouxera consigo, algumas cervejas e duas garrafas de vinho que fiz questão de beber imediatamente. O mestre B.B. King estava fazendo a cama para nós. Três desajustados noturnos aproveitando a vida como se estivéssemos em Las Vegas. Palavras jogadas ao vento e aos itinerários madrugada adentro. O sabor do Nordeste invadiu a nossa sala com as peripécias de Lisbela e o Prisioneiro. Bebidas ao meu encargo, devidamente guardadas e apreciadas, gelavam ao som da voz do fantasma camarada. Quando a gargalhada de Saturno enfim cessou, o fantasminha me solta a seguinte pérola: ''- Sabe, houve um tempo em que o Seu Lisinho chegava ao Bar da Dona Sônia e pedia dez doses de cachaça. Depois de servido ele dava a volta no quarteirão em um minuto e voltava ao Bar. Pedia mais oito. Bebia e saia. Contornava o quarteirão novamente, dessa vez em dez minutos e voltava. Pedia seis doses dessa vez. Bebia e saia. Contornava o quarteirão e dentro de meia hora voltava. Pedia mais quatro doses. Bebia e voltava. Pedia duas doses. Bebia e voltava. Cada vez demorando mais tempo para retornar ao Bar. Finalmente, ele chega ao Bar altamente embriagado e pede meia dose para a Dona Sônia. Depois de servido, ele finalmente se vira para os amigos e diz: Por Deus!!!!!!! Quanto menos eu bebo, pior eu fico!''

Foi realmente uma pérola.
E o pior é que essas coisas acontecem de fato.
Obrigado pela noite, Will.


*Tome cuidado com as mulheres idosas. Elas chegam de lado. E se prostam na sua sombra. Como se fossem sirís dançando a marchinha de Carnaval.
Olha a cabeleira do Zezé!

(Edu Neves)



sábado, 26 de novembro de 2011

Déjà Vu

Madrugada.
Estava sem dormir há dois dias.
A falta de apetite era só mais um agravante.
O espelho do banheiro me trazia de novo a sensação de repulsa.
Ainda assim, evitava encará-lo. Encarava o espelho.
Não. Não era o espelho. Era a luz refletida no espelho.
O que o espelho me devolvia, era um rosto magro, fundo e encovado, deixando transparecer as olheiras fúnebres. Sinais vitais de insônia.
Volto para o meu chão. Um vento gélido faz com que a cortina azul se transforme em esculturas móveis. Estátuas distorçidas pelo capricho da natureza.
Outra coisa que o vento sempre traz consigo, é a noção de tempo. Levaria alguns anos para perceber isso.
Então me lembrei do rosto. O rosto apático que me havia ter tido ânsia de vômito. O meu rosto.
Finalmente consegui fechar os olhos e permanecer imóvel por alguns minutos.
Sonhei com um índio. Um velho curandeiro.
Talvez não tenha sido um sonho. Gosto de acreditar que foi um último adeus.
Uma despedida com sabor amargo e uma fragrância doce.
Me levantei de repente, sentindo o hálito do velho. Um odor terrível que a inércia da doença causa.
Um bônus da fatalidade.
Então, liguei a TV. Um idiota qualquer descrevia minuciosamente como seria o rosto de Cristo nos dias atuais.
Aquilo me fez pensar na incapacidade misericordiosa do tempo. No outro canal clandestino, passava um filme do qual não me lembro o nome. Diabos! Deixei naquele maldito canal e abaixei todo o volume. Ativei a legenda automática e me sentei na poltrona para assistir aquilo que me parecia ser a coisa mais sem sentido que poderia haver, Aos poucos, fui reparando o modo como a trama se desenvolvia. Uma história em tempo real. Os artifícios do anti-herói eram bastante peculiares. As atitudes do personagem me era familiares. O simbolismo usado no filme, certamente teria me agradado, se não fosse tão carregado com apelos comerciais.
Olhei de relance para o lado e vi que Melinda dormia. Sua pele era macia, bronzeada e cheirava à vinho tinto. Seus poros exalavam o pecado. Fui vê-la de perto e com mais atenção. Queria congelar aquele corpo.
Investigar e descobrir o que daria prazer ao corpo de malte. Ela dormia profundamente, mas um sorriso aflorava de seus lábios. Talvez estivesse sonhando. Era bastante fraca para bebida. Estaria sonhando comigo? Não creio. Era um sorriso malévolo. Era um sorriso com o qual eu jamais iria me acostumar.
Tínhamos ido a uma festa. Um ambiente provinciano em que a maioria das almas pálidas se davam ao luxo de representar. Geralmente a ala masculina conversava a respeito de mulheres, enquanto a ala feminina era tomada pelo tédio. Bebemos além da conta, quando não podíamos.
Melinda continuava linda, dormindo com o mesmo sorriso infernal que eu odiava. Respiração precisa.
Seu ventre descoberto era convidativo, mas então algo me ocorreu. Senti novamente o hálito do velho. Procurei em vão um número de telefone. Evitei acender a luz para não acordar Melinda. Encontrei o número e fui para o banheiro. Dessa vez, não encarei o espelho. Havia uma mensagem no celular. Uma mensagem que iria me atingir como um Trem. Demorei a compreender o significado daquele jogo de palavras. Uma hora se passou, sem que me desse conta de um fato irreversível. Não foi um sonho. O velho havia falecido. O velho deixou de lado a ferrugem da armadura para ser livre em outra dimensão.

Amanheceu
Os demônios ainda estão escondidos no quarto
As pedras do Arpoador estão dentro do meu sapato.

(Edu Neves)



sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O Rugido dos Anos 60

Poeta
Dramaturgo
Ensaísta
Leão da Contracultura
Performances poderosas e poemas que dão destaque a Natureza e novas formas
de Percepção. Liberdade sexual. Expansão da consciência.
Catalizador das emoções enclausuradas.
Ativista.
Perseguidor distinto da farsa do Sonho Americano.
Tradicionalista libertário da poesia.


Michael
               Mc
                        Clure


Estreiou como poeta na primeira vez que os Beats se reuniram
em San Francisco para uma leitura na Six Gallery, em 1955
Allen Ginsberg estava lá com os olhos abertos e os punhos fechados.
Palavra associada a um interesse pela natureza de forma romântica. BEAT.
O Jazz, o Blues e o Bebop foram gêneros que deram a certeza lívida
de que a poesia tinha que se manifestar através da música também.
Assim, houve um aguçamento da importância da cultura negra.
A consciência poética era física. Quando ela se movia, dançava.
Poesia gestual. Mesmo impulso visto em Kerouac.
Construção da autobiografia do espírito.

(Edu Neves)


quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O Clichê de Monteiro Lobato

Eu jamais creditei a Santo Agostinho, um dos sábios da Igreja Católica, a descoberta
do fato de ler sem enunciar as palavras. Porém, tomei conhecimento desse feito
através de uma mídia impressa. A vida é demasiadamente irônica ao nos esfregar na cara,
verdades encobertas por nossa própria ignorância e falta de estímulo.
Houve um tempo, em que os textos eram murmurados, assim como fazem as crianças recém-alfabetizadas. O Homem Santo
decidiu escutar a sua voz interior e então, leu as Cartas de São Paulo que constam no Novo Testamento.
Com o passar de milhões de anos, as pessoas continuam tendo na leitura, uma fonte de prazer intelectual e estética, além
de um caminho mais seguro para o progresso pessoal. Portanto, eu afirmo, que mesmo vivenciando um pleno arrebatamento da era digital, ler
continua sendo essencial.
Com o surgimento de parafernalhas digitais, as projeções pessimistas sobre o fim da figura do leitor, foram inúmeras. E ainda resistem. Pairam no ar. Acredito
que o incentivo na maioria dos casos, deveria partir dos pais. No entanto, não é uma regra. Ainda me recordo quando fui diretamente apresentado a Literatura.
Minha mãe sugeriu que eu lesse O Pequeno Príncipe. Lugar comum, eu sei. A princípio, olhei o livrinho com rabo de olho. O peguei, mas larguei quase que imediatamente no sofá.
No fim, decidi dar um crédito ao livrinho tosco e pálido. Li as primeiras cinco páginas e achei entediante. Insisti ainda assim. Cheguei a vigésima página com um entusiasmo
jamais obtido com o desenho animado de mesmo nome, que eu assistia religiosamente, por sinal.
Tendo chegado ao fim, uma sensação de leveza. Leveza e culpa.
O livrinho inútil de antes, havia agora se tornado filosofia de vida.
E então, eu criaria o meu próprio planeta B-612.
Juntaria um qualquer para comprar um cometa...


(Um País se faz com homens e livros - Monteiro Lobato)

(Edu Neves)



quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Where my baby stays

Maybe now you can't hear them,
but you will when you be stoned.
Will i be truthfull...
You burn me up.
Then come across to me.
Give me your magic rings.,
And let's get out from here.
That world is measly.
You know you are a little lovemaker.
You got to be all mine.
Are you willing?
You Know what i'm trying to say.
To caress a kiss
To caress a kiss
Oh damned! I wish i could.

(Edu Neves)


Um Sonho Azul

Venha e me diga que a Lua ficou mais bonita.
Pois essa noite eu sonhei com os meus tempos de menino.
Eu vi a garota bonita de cabelos amarelos me olhando naquela tarde sem nuvens.
As ciências não são exatas ao nosso Coração.
Não me importam os cérebros imaculados de Eistein.
Quando eu fico com a minha garota de cordas de aço, seu gemido distorçido me leva
até o alto para dançar com as estrelas.
E então os ventos do Norte me sopram as lembranças de um futuro distante
no qual estarei de braços abertos esperando por uma sombra do teu sorriso.
Venha, mas venha antes que eu acorde.

(Edu Neves)

Poema de uma Rosa Branca

Os meus passos no deserto se perderam
no labirinto dos seus olhos.
A brisa sobre o meu corpo é um vestígio que você
deixou entre tantos outros sorrisos.
A luz que irradia dos seios nús me devolvem
a esperança da paz que nunca vivi.
Se eu pudesse, me afogaria nesse oceano.
Seria o meu passa-porte para o oásis em que
vive a minha Rosa Branca.
Pois entre os leões ela dança sensual e livremente.
Sem medos...
Dance comigo brisa suave do inverno.

(Edu Neves)


Poema de Esquerda

Jamais pensei que seria assim tão de repente
A vida coloca as cartas na mesa, e você tem achar que e um presente.
Meu time sou eu. Acredito que eu possa virar o jogo erguendo minha fé.
Depois disso não resta nada.
Mas ainda falta alguma coisa.
Falta uma letra a ser escrita.
Falta uma música a ser feita.
Falta acabar com a direita.
Viver do outro lado é não existir. É só concordar. Custe o que custar.
Custe a minha vida, a sua, a do seu irmão, a da criança que acaba de nascer.
Quanto mais olho para o outro lado, mais sinto que o outro lado é a guerra.
Mais o sonho ainda existe. Ainda existe o brilho de uma nação já sem esperanças.
O coração ainda bate diante dos primeiros versos.
Ainda resta o fôlego.
Ainda respiramos.
Estamos vivos.

(Edu Neves)


O penúltimo Trem

Esperando por uma vaga no Trem de carga desumana,
sonho com o Match Point.
Não sei quem conduz a máquina.
Acho que é o dono da Rua 66.
As pegadas por aqui não levam ao caminho
da maçã mordida.
Por favor, tragam as roupas a prova de fogo,
ou tragam icebergs internos.
O maquinista está sob o efeito do frio
da ''neve'', dançando e se movendo
feito um tigre branco.
Nos trilhos negros e mortos, nascem rosas
púrpuras que iluminam o céu cinzento.
Um velho lê um livro secreto no último vagão.
Ele possui a chave que abre o Portal azul.
Braços se abrem, olhares se cruzam...
Formalidades...
Fim da viagem.
Não há mais neve.
Agora tudo está sereno sob o sol
de um Deserto fantasma.

(Edu Neves)

Júlia

Júlia, a doença que não tem cura.
Ela te mata de prazer e luxúria.
Ela bem sabe o que quer. Não é apenas uma mulher.
Também é uma criança, que te seduz com uma dança.
Teu veneno não mata, mas deixa inconsciente.
Ela é uma mosca a te olhar pela fechadura.
Todos os pecados, todas as loucuras.
Ela seduziu o diabo e depois o esnobou.
Pois o achou muito careta.
Ela te faz beijar a lona, quando você está por cima.
Antes de pensar no verso, ela já sabe a rima.
Cuidado amigo, não morda a maçã!
Ela te deixa viver hoje...
Mas talvez queira te matar amanhã.

*Dedicado a Júlia. Uma garota que considero a verdadeira Foxey Lady.

(Edu Neves)

Amsterdark

I hope you brought your magic rings
The Midnight Express is coming
The red women are nacked
And you can't to blame yourself if by the way you
fall in love.
There Should be white roses over there.
There should be wild riders over there.
While right here, there is a lot of
cannibals waiting for some dessert.
Girls full of daring
Well, they are talking about a secret capsule.
Yeah, you know were i was yesterday.
In a damned room with a black butterfly.
I got to cut off her wings.

(Edu Neves)

A Morte encontra o Soldado

Oh Senhor, meus irmãos me desconhecem.
Sinto frio Senhor...
O interior da armadura é tão gelado.
Gostaria de estar nos braços da cigana de cabelos prateados.
Leões cruéis estão a espreita.
Rondando dia e noite o meu quintal.
Eles querem levar um dos meus dois corações.
Senhor, eles podem levar meus corações, contanto que deixem a minha alma em Paz.
Bombas nucleares de empatia aos corações nazistas.
Levantem da cama e digam bom dia aos bebês solitários.
Ou então durmam bem...
Pois algo os espera no Subsolo.

(Edu Neves)

Quatro Lados

Cosmos ousados reposam nos anéis de Saturno com volúpia e dividem a Via Láctea em quatro lados. Tudo tem quatro lados. Seus seios, seus lábios entorpecentes. Minha solitária garrafa de vinho me esperando no fundo do porão escuro. Seu coração intragável borbulhando absinto, já não há mais oxigênio nas suas teorias. Mas ainda há tempo para ser salva. Não há lugar para perder a cabeça.

(Edu Neves)

LSD (Love, Sex & Drugs)

Vem para o meu mundo, Doce Jasmim louco de ácido. Quero te vestir com o meu amor e te despir com minhas mãos. Seria eu digno de lhe beijar sem mordê-la? Seria o inferno nosso Éden? Quero o seu ventre macio e seco por debaixo do meu peito nublado. As suas pernas se entrelaçando junto à serpente fortuita em meio ao desconhecido. Você está convencida de que sou imortal, querida? Jamais te venderam porções de dignidade em uma caixa de plástico? Eu nâo tenho dignidade. Tenho apenas o amor contagiante e poderoso de minhas fantasias submersas.

(Edu Neves)


Apache

Os pés descalços caminham em minha direção; O mestre de cerimônia toca a sua flauta doce e invoca a entidade do Leste. Meu punho serra e meus olhos já cerrados contempla a exuberância da serpente do deserto. O velho índio amargo bebe seu peyote e me dá a chave para o décimo nono portal. Me embriago com as índias virgens e beijo o seio nu da meretriz de prata com cabelos vermelhos. Amanhã estarei limpo. Sem vestígios imaculados.

(Edu Neves)


Ode aos Vampiros

Ópio em meus pulmões dilacerados. Teu corpo tem memória infinita? Suas roupas de baixo ainda estariam no meu armário? Quero ser o beija-flor noturno que te morde toda noite. Você traria o seu amor e me daria de olhos bem fechados? Eu já suguei todo o néctar da sua laranja. O seu espírito é meu agora, já que seu corpo sempre tive. Os cavalos alados estão no porão bebendo vinho e jogando Black Jack. Só volto aqui com uma condição: Deixe-me em paz e respeite o branco que transparece em minha fronte.

(Edu Neves)

Hurricane's Wind

Calças de couro de cobra. Cabelos iluminados pela neve branca e vermelha. Cinto semi-aberto. Os passos caminham lentamente à sua volta. Minhas pegadas de lagarto secam as suas lágrimas. Sou latino-americano e não acredito nos seus demônios. Só acredito nos que jogam os dados. Meu alvo é a sua má sorte no amor. Lhe direi que tão somente em mim adentras sempre ao me fitar com esses olhos demoníacos. Qualquer dia desses ainda te corto em pedacinhos.

(Edu Neves)

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Danger

Os leões te esperam e aguardam o alvorecer. As suas presas estão ávidas por sangue. A doce vingança é um copo de vinho pela metade. Mas seu gozo eterno e juvenil ainda está impregnado em meu corpo. Suas vísceras ainda me consomem na meia noite clara. Noite de sol nascente. Quero te ter agora, Sol, somente.

(Edu Neves)