sábado, 26 de novembro de 2011

Déjà Vu

Madrugada.
Estava sem dormir há dois dias.
A falta de apetite era só mais um agravante.
O espelho do banheiro me trazia de novo a sensação de repulsa.
Ainda assim, evitava encará-lo. Encarava o espelho.
Não. Não era o espelho. Era a luz refletida no espelho.
O que o espelho me devolvia, era um rosto magro, fundo e encovado, deixando transparecer as olheiras fúnebres. Sinais vitais de insônia.
Volto para o meu chão. Um vento gélido faz com que a cortina azul se transforme em esculturas móveis. Estátuas distorçidas pelo capricho da natureza.
Outra coisa que o vento sempre traz consigo, é a noção de tempo. Levaria alguns anos para perceber isso.
Então me lembrei do rosto. O rosto apático que me havia ter tido ânsia de vômito. O meu rosto.
Finalmente consegui fechar os olhos e permanecer imóvel por alguns minutos.
Sonhei com um índio. Um velho curandeiro.
Talvez não tenha sido um sonho. Gosto de acreditar que foi um último adeus.
Uma despedida com sabor amargo e uma fragrância doce.
Me levantei de repente, sentindo o hálito do velho. Um odor terrível que a inércia da doença causa.
Um bônus da fatalidade.
Então, liguei a TV. Um idiota qualquer descrevia minuciosamente como seria o rosto de Cristo nos dias atuais.
Aquilo me fez pensar na incapacidade misericordiosa do tempo. No outro canal clandestino, passava um filme do qual não me lembro o nome. Diabos! Deixei naquele maldito canal e abaixei todo o volume. Ativei a legenda automática e me sentei na poltrona para assistir aquilo que me parecia ser a coisa mais sem sentido que poderia haver, Aos poucos, fui reparando o modo como a trama se desenvolvia. Uma história em tempo real. Os artifícios do anti-herói eram bastante peculiares. As atitudes do personagem me era familiares. O simbolismo usado no filme, certamente teria me agradado, se não fosse tão carregado com apelos comerciais.
Olhei de relance para o lado e vi que Melinda dormia. Sua pele era macia, bronzeada e cheirava à vinho tinto. Seus poros exalavam o pecado. Fui vê-la de perto e com mais atenção. Queria congelar aquele corpo.
Investigar e descobrir o que daria prazer ao corpo de malte. Ela dormia profundamente, mas um sorriso aflorava de seus lábios. Talvez estivesse sonhando. Era bastante fraca para bebida. Estaria sonhando comigo? Não creio. Era um sorriso malévolo. Era um sorriso com o qual eu jamais iria me acostumar.
Tínhamos ido a uma festa. Um ambiente provinciano em que a maioria das almas pálidas se davam ao luxo de representar. Geralmente a ala masculina conversava a respeito de mulheres, enquanto a ala feminina era tomada pelo tédio. Bebemos além da conta, quando não podíamos.
Melinda continuava linda, dormindo com o mesmo sorriso infernal que eu odiava. Respiração precisa.
Seu ventre descoberto era convidativo, mas então algo me ocorreu. Senti novamente o hálito do velho. Procurei em vão um número de telefone. Evitei acender a luz para não acordar Melinda. Encontrei o número e fui para o banheiro. Dessa vez, não encarei o espelho. Havia uma mensagem no celular. Uma mensagem que iria me atingir como um Trem. Demorei a compreender o significado daquele jogo de palavras. Uma hora se passou, sem que me desse conta de um fato irreversível. Não foi um sonho. O velho havia falecido. O velho deixou de lado a ferrugem da armadura para ser livre em outra dimensão.

Amanheceu
Os demônios ainda estão escondidos no quarto
As pedras do Arpoador estão dentro do meu sapato.

(Edu Neves)



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