quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

A Vida Caótica de Guido

Ele chegou no set de filmagem e não havia ninguém.
Sentou-se na cadeira, acendeu um cigarro e abaixou a cabeça.
O terreno sombrio lhe cobria de poeira e lembranças.
Tentou pensar em algo.
Sua mente viajava à 200 Km/h.
Tinha um roteiro a ser finalizado e na verdade, nem o havia começado.
Nem uma única página.
De início, viu Cláudia vindo em sua direção.
Vestido justo com um decote nas costas, ela vinha sorrateira e com um sorriso malévolo em sua direção.
Guido a olhou dos pés a cabeça. Ela parecia mais alta que de costume.
O peso de sua cabeça o paralisava e não lhe deixava pensar direito.
Cláudia não estava lá. Mas estava para Guido.
Sua musa. Musa de Roma. Musa do estilo de vida italiano.
E nem uma linha ainda havia sido escrita.
Agora Guido está pronto para a coletiva.
Os jornalistas usam as metralhadoras para bombardeá-lo com questões sobre o filme e sua vida pessoal.
Guido hesita por um instante, mas acaba por responder todas as perguntas. Até as sérias.
Ele tinha que responder. A Europa inteira estava naquela pequena sala, afinal.
Então Guido ouve alguém chamar seu nome. Era sua esposa. Mas ela também não estava lá.
E na maioria das vezes ele não estava lá também.
Sua casa havia se transformado em uma colônia de férias para idosos.
Seu parque de diversões era a sua amante espanhola. Mulher que fazia de tudo por ele. Realmente o amava.
As indecisões de Guido, no entanto, foram varridas por um tornado de emoções quando se daparou com Cláudia.
E dessa vez ela estava lá.
Entraram no Cadillac azul e saíram em direção a noite fria de Roma. Cidade incauta.
Cláudia lhe disse que era o fim. Não havia sido fabricada para servir os seus caprichos suprimidos pela igreja católica.
Guido então, foi ao encontro da amante.
Procuravam fugir da publicidade e se hospedaram em um hotel barato.
Guido a fantasiava de bruxa para que sua imaginação talvez retornasse à sua mente brilhante.
E ela gostava dos jogos de Guido. Pintou os olhos de negro e se deitou com ele.
Guido se levanta de madrugada à procura de cigarros.
Se depara com uma das belas jornalistas que o tinham entrevistado na coletiva, algumas horas mais cedo.
A garota elogiava seus filmes enquanto cruzava as pernas e se insinuava para Guido.
Ele ficou tentado, mas parou no corredor e voltou ao quarto da espanhola.
Foi ao banheiro se olhou no espelho. Ouviu o choro da espanhola.
Ela disse que chorava por ele e pelo seu marido. Guido sorriu e deitou-se.
Jantar de negócios. Os produtores estavam a sua volta. Sua mulher chegou e sentou-se ao seu lado.
Foi uma surpresa para Guido a vinda dela.
Mas Guido teria outra surpresa naquela noite. E nada agradável.
A amante espanhola entrou no restaurante e sentou-se afastada da mesa de Guido. A princípio, Guido não notou que era seu parque de diversões maquiado.
Ela sorriu e acenou para ele. E isso bastou.
Guido chamou um táxi, mas ela preferiu ir a pé para o hotel.
Quando Guido voltou para comer alguma coisa, sua mulher já havia ido embora.
Guido perdera a musa, a amante e a mulher. Só lhe restava a mãe.
Ergueu as mãos aos céus e suplicou a ajuda da mãe. E ela apareceu.
Depois dos conselhos maternos da mãe, já morta, Guido levantou-se da cadeira e disse a verdade e o que sentia pela primeira vez na vida. Ao menos para a imprensa aniquiladora.
Não havia filme algum.
Não havia roteiro. Não haviam atores.
Dessa vez a mente brilhante da alma de Roma fracassou. E eles teriam que entender que isso não era nenhum crime.
Guido criou asas nos pés, pegou sua valise e se foi.

(Edu Neves)


domingo, 25 de dezembro de 2011

O Crime da Mulher Infiel

Abriu as portas velhas do bar e sentou-se ao balcão.
Pediu uma bebida ao dono do estabelecimento e ficou olhando para as fotos em preto e branco.
De posse da bebida, virou-se e foi procurar uma mesa vaga. Sentou e tirou da bolsa um livro.
Olhava de vez em quando para o relógio na parede do Bar.
Notou que a sua companhia estava atrasada e pediu alguns canapés.
Enquanto aguardava ansiosamente, mal conseguia ler as páginas do livro desgastado.
Os músicos faziam ressurgir John Coltrane aos ouvidos dela.
Olhou para o visor do celular. Nada. Nenhuma mensagem ou ligação.
Guardara o livro e se levantou.
Foi quando Bill entrou no recinto aparentemente embriagado.
Bill. Um homem elegante com seu paletó e sua gravata sulista, trazia consigo uma maleta de prata.
Bill encaminhou-se para a mesa onde ela estava.
- Pode ficar com a mesa. Já estou de saída. Ela lhe disse.
- Não tão cedo. Sente-se aí. O tom de Bill era autoritário e a fez corar um pouco.
- Perdão, mas o senhor...
- Sente-se. Disse Bill.
- O que é isso, afinal?
- Temos um assunto a tratar.
- Nunca o vi em toda minha vida. Disse ela surpresa.
- Estou certo disso. Mas vim até aqui para lhe contar sobre Jack.
- Jack?! O que sabe sobre Jack? Quem é o senhor?
- Sou o sujeito que vai salvar a sua vida. Ao menos essa noite.
Ela olhava por todos os lados procurando um vestígio de algo que fosse familiar.
Bill a encarava com os olhos um tanto quanto pendentes. Olhou a aliança da mulher.
- O que o senhor quer?
- Temos que sair daqui. Sua vida corre perigo.
- Não está ajudando muito. Agora ela estava agitada.
- Não há tempo. Precisamos sair.
A tomou pela mão e saiu sem pagar a conta. O dono nada fez para detê-los.
Foram em direção ao Hotel que ficava do outro lado da avenida.
Sala de estar simples. Escura com algumas luzes criando sombras nas paredes.
As sombras desfiguravam a tela com o rosto de Brigitte Bardot.
- O que estamos fazendo aqui? Perguntou assustada para o homem que a conduzira de forma bruta pela avenida.
- Você vai passar essa noite aqui. Seu marido quer matá-la e fui contratado para impedir o crime.
- Me matar?! Como conhece meu marido? Seu rosto estava lívido.
- Isso não importa, senhora. O que é relevante de fato, é que seu marido descobriu a traição da senhora. O homem que a senhora esperava no bar. Seu marido de alguma forma descobriu.
- Não sei o que dizer. Ela escondia o rosto entre o véu que lhe caía do chapéu.
- Não há necessidade de palavras, senhora. É por isso que trabalhos como o meu existem.
- Não creio que seja amigo do meu marido.
- Na verdade, fui contratado por Terrence. O homem pelo qual a senhora esperava no Bar. De alguma forma, ele desconfiou de que Jack faria alguma coisa e me mandou segui-la.
- Então eu fico aqui? Ela estava realmente confusa.
- Por essa noite sim. Disse Bill antes de sair do quarto e trancar a porta atrás de si.
Ela não se lembrava de ter deixado nada para trás. Sempre agiu com muita cautela em relação a Jack.
Na verdade, não o amava mais. Jack era um figurão que gostava de esbanjar os carros e a traía descaradamente com as meretizes e com suas amigas da Aristocracia.
Sentia um certo ódio por Jack e em tempos recentes resolvera ter um caso amoroso com um velho amigo da época da inocência.
Deitou-se na cama e ficou pensando em Jack. O homem por quem tinha se apaixonado na juventude e era até alguns anos atrás o que se poderia chamar de marido.
A relação de Jack com o poder foi lhe subindo à cabeça junto com o casamento falido e as traições.
Ela, que também era da classe alta, não via mais motivos para usar a máscara de uma instituição falida.
E então, resolvera sair algumas vezes com Terrence. Um homem que sempre foi apaixonado por ela e que a sabia fazer sorrir.
Depois de alguns minutos, pediu uma bebida ao serviço de quarto.
Bebia mais à medida que as horas iam passando e Bill não retornava.
Ouviu um barulho na porta e foi averiguar o que era.
Ficou surpresa e chocada com o que viu.
Era Jack, seu marido. Segurando as credenciais de Bill e Terrence, enquanto louco de cólera, recitava algo de Sheakspeare lentamente.
Com o assassino no quarto, ela não teria nenhuma chance. A questão era realmente complexa. Pois Jack achou que fora a mulher quem planejou a tentativa de se safar.
Tirou de dentro do sobretudo um Colt 45 luminoso e o apontou para o ventre dela.
Atirou e a mulher caiu se debatendo na cama. Sua hemorragia intensa a matou em uma questão de minutos.
Jack afagou o revólver e o colocou de volta no bolso interno do sobretudo.
Se aproximou do corpo estendido na cama e fechou os olhos da mulher.
Sorriu forçadamente para o espelho que o fitava sem paúra e se retirou do quarto.
Semana seguinte Jack foi encontrado morto em sua bela mansão. Não havia indícios de invasão ou de luta.
Nada justificava a morte de Jack, que no âmbito social era muito bem quisto por todos a sua volta.
Por fim, os peritos encontraram os frascos de remédios vazios, acharam o Colt 45 nos guardados de Jack, se lembraram da bala cravada na mulher infiel e ligaram os pontos.
Um crime passional. Mas perfeito.
Assassino nunca pego. Testemunhas mortas.
Hoje em dia a ex-camareira do Hotel reside na bela casa que era de Jack, mas os policiais não acham muito ético prender alguém sem evidências.

(Edu Neves)







sábado, 24 de dezembro de 2011

O Outro Lado (Rompendo Através)

Véspera de Natal.
Época maldita. Dreams to remember.
Meus olhos se abrem lentamente com o peso dos sonhos lúcidos da noite passada. Me levanto semi-desperto e desço as escadas. Ninguém em casa. Volto ao quarto e dobro os lençóis decorados com motivos orientais. Abro as cortinas e olho para as nuvens carregadas de hipocrisia. Ainda assim, os pássaros cantam. Um canto triste. Um canto Blue.
Volto para o meu canto e trago o ópio da discórdia, enquanto ouço o som malevolente do órgão negro da igreja.
Bebo o café escaldante, me sento na poltrona e abro o jornal. Pelo menos terei um crime para comentar de noite, quando estiver bêbado o suficiente para dizer algo.
O café esfria e as lembranças entram pela porta dos fundos sem pedir licença. Penso que ainda é cedo e seco uma lágrima que cai dos meus olhos vermelhos.
Há algum tempo eu poderia olhar e sorrir para o velho que jogava sal grosso nas vísceras do animal morto. Hoje não há mãos trêmulas, nem dedos amputados e nem os cabelos de prata.
Corpo na Terra.
Alma vagando no outro lado.
E tudo que vejo são seus olhos claros.
E tudo que ouço são seus abôios de vaqueiro.
Comunicação (consciente?) entre corpo e espírito. Agora são as minhas mãos que tremem freneticamente.
Coração na mão.
Você pode me ouvir daí?
Diabos.
Dazed and Confused.
Dedilho no violão as dores da Espanha e espanto os demônios da sala.
Hell hound's on my trail. É assim toda noite.
Não sonho mais. Sou o sonho em carne viva.
Espero que a Fiesta seja boa e que todos aproveitem a véspera do amor assassinado.

Espero que chova bastante, pois Deus também chora.

(Edu Neves)



sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Ilusões Perdidas

O sol despencava em nossas costas. As pessoas se mostravam felizes naquela tarde. Tal alegria pré concebida foi injetada em minhas veias e por um instante quase me enganou.
Não podia deixar isso acontecer. A paisagem era absurdamente bela para que eu me deixasse enganar por uma sensação.
Cristo estava lá. Com os braços abertos e os olhos fixos no horizonte. Ao menos naquela tarde, nada poderia nos deter ou nos assombrar.
Hoje, penso eu, que na verdade já tínhamos sido detidos muito antes de colocar os pés na areia.
As ondas estavam altas e arrebentavam por entre as pedras do Arpoador, dilascerando as ilusões de Ipanema. A tarde caiu devagar e em apenas meio compasso fez-se noite. Céu de estrelas, azul-negro de trevas salpicadas.
Voltamos pra casa e enquanto tirava o sal do corpo, pensei no mar agitado e sua cólera. Fiquei pensando nisso por alguns minutos. Onde começava o mar desbravado? Onde se findavam os feitos da Caravana? Por que tudo se acabou? Quando?
Durante o breve caminho rochoso, acenei para um nativo que bebia calmamente seu malte, enquanto ria da própria desgraça. Homem iluminado, aquele nativo.
Entrei no quarto e ela estava nua. Deitada com os cabelos lhe cobrindo os seios. Fizemos amor protegidos pelas trevas. Os gemidos foram abafados pelas notas agonizantes de Jimmy Page. Nossos corpos choraram. Depois do concerto veio a seca e não os aplausos.
Ela me olhou e sorriu. Suas mãos tremiam e sua face corou. Me susurrou algo inteligível e virou-se. Dormiu em questão de segundos e sonhou seu sonho dourado.
Naquela noite não dormi. Só conseguia fixar meu pensamento nas pedras. Como algo tão bonito podia ser tão perigoso? Corpo nu coberto de espinhos. Era assim. Beleza fatal.
Sonho lúcido?!
Acordei desiludido, bebi um café amargo e voltei pra casa.
Tempo de recomeçar.
Pisar na Terra. Minha Terra.

(Edu Neves)


quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

No Limite

Ruas escuras
A Cidade-Veneno que te mata lentamente
A mulher branca se esquiva da sombra dos becos
Solavanco do salto que se quebra entre os tijolos

Carros passam por mim sem se importar se estão vivos
Os carros do trilho do Trem-fantasma
Demônios familiares, lindos e claros
Viver custa caro

Uivo do lobo inerte
Cacos de gelo na calçada suja
Travesseiro de lâminas que cortam as boas intenções
Desprendem os tendões

Onde está o anjo?
Onde está a Terra que nos foi prometida?
A paz da vida garrida?
O seio da virgem despida?

Meu nome é o raio que o parta
Parta para bem longe
Longe de tudo que é meu, que é seu
Longe do amor que me prometeu

(Edu Neves)






segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O Oitavo Pecado

As mãos negras do garoto passeavam displicentemente pelos sapatos do senhor Watson. Ele sabia que aquele jovem precisava limpar as mãos com as notas verdes. O garoto o fitava sempre que uma BMW rasgava a quinta avenida. Aquele olhar puro e obscuro lhe remetia a infância. A época da inocência perdida.
Repentina pergunta.
Subitamente o garoto perguntou: - Senhor Watson, por que os carros correm tanto por aqui?
- Não sei, garoto. Talvez os homens estejam com pressa.
- Para que tanta pressa?
- Para chegarem cedo em algum lugar, garoto.
- Não entendo. Já é tempo de ter calma. Disse o garoto limpando as mãos em um pano branco.
- A sociedade sempre tem pressa, garoto. Sempre teve. Desde os meus tempos crédulos, era assim.
- Os seus sapatos estão quase prontos!
- Não tenha pressa, garoto. Eu agora só espero a minha hora.
- O senhor é paciente. Coisa rara nas ruas.
- Garoto, eu já tive pressa. E sofri feito um cão. A pressa não resultou em nada de bom para mim. Hoje estou velho e aguardo apenas a minha hora.
- Mas o senhor tem amigos, não tem? E com o dinheiro do senhor, eu também não teria pressa.
O velho Watson olhou para o menino à sua frente e ficou o fitando por alguns instantes. Seu trabalho era único. Os sapatos ficavam realmente bem engraxados e o garoto não tinha pressa. Era primordial que ficassem bonitos e lustrosos. O resto não importava.
- Hey, garoto. Você está com fome?
- Sim. Há muito tempo tenho fome.
- Vamos fazer um lanche. Será por minha conta. Disse o velho.
- Não quero comer.
Seus olhos agora estavam tristes. Olhou para o lado e pegou a sua caixa de chicletes quase vazia.
- Não entendo. Você disse que estava com fome.
- Tenho fome de esperança, senhor Watson. Fome de amor. De vida.
O velho franziu a testa e ficou pensando por alguns segundos.
- O que tem feito quanto a isso, garoto?
- Na verdade, eu tenho andado em direção ao caminho contrário. Tentei fazer com que as pessoas se amassem, mas não deu muito certo. Tentei ser gentil, mas só recebi ingratidão como retorno. Desde cedo, ando por essas bandas. Minha mãe morreu e meu pai nos deixou. Hoje somos apenas eu e meu irmão. Ainda assim eu não estou bravo com Deus. Não me revolto. Só gostaria de entender Seus desígnos. Sinto que as pessoas a minha volta também tem fome e sede. Mas o medo as impede de realizar grandes feitos.
- Garoto, que idade tens?
- Minha certidão diz que tenho 12 anos, senhor. Mas me sinto como se tivesse 80. É uma sensação muito estranha. Um peso que me corrói por dentro. Realmente não sei explicar.
- É difícil, filho. Você com 12 anos deveria estar na escola ou jogando futebol com os amigos.
- Meu único amigo é meu irmão. Sou responsável por ele. Só temos um ao outro. Disse o garoto.
- Filho, há algo que posso fazer?
- Seus sapatos estão prontos, senhor!
O garoto recebeu o dinheiro, se despediu e foi embora. O senhor Watson ficou observando o jovem caminhar em direção a ponte que cobria o rio amarelo. Pensou que pudesse fazer alguma coisa pelo garoto. Mas ele havia ignorado a sua pergunta. Nunca mais o viu. Mas sempre pensava no garoto. O garoto sem pressa.
Oito anos se passaram e o senhor Watson ficou muito doente. Uma espécie de câncer que se espalhou rapidamente por todo o seu corpo frágil. Agora o senhor Watson tinha pressa. Pressa de morrer. Não queria sobreviver e ficar totalmente dependente dos outros. Sua família o havia deixado em um bom hospital e raramente o visitavam. Quando o faziam, levavam uns papéis que o velho já não podia distinguir do que se tratavam, por causa da cegueira. Imaginava que poderia ser o testamento.
Dois anos se passaram e a doença só progredia. As noites eram intermináveis e os dias inválidos. Então o senhor Watson recebeu uma visita. Já não podia mais enxergar absolutamente nada. No entanto, sua audição ficou aguçada.
- Garoto, é você?
- Como me reconheceu, senhor?
- Eu me lembro de você, rapaz.
- O senhor sente dores? Perguntou o garoto.
- Garoto, quero que me faça um favor. Mais um. Desligue esses malditos aparelhos.
- Deus! O senhor quer que eu acabe preso?
O velho se contorcia de dor. Seus olhos lacrimejantes e brancos imploravam por um breve adeus. O garoto olhou pelo corredor. Não havia ninguém por ali. Levou a sua mão aos botões e remexeu a parafernalha que mantinha o velho sobrevivendo. Por fim, conseguiu desligar e foi embora um pouco assustado.
O senhor Watson faleceu alguns minutos depois do ato corajoso do garoto. Seus bens acabaram sendo confiscados pelo governo e a família não recebeu nenhuma quantia. Quando souberam disso, amaldiçoaram o senhor Watson com todas as forças. O garoto se tornou homem e hoje em dia trabalha em uma loja de discos.
A história do senhor Watson não é nada fantástica, mas há algo nela que de certa forma toca as pessoas. A pressa é um paradoxo.
A agonia clama por pressa.

(Edu Neves)



sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Pedras na mão e um corpo na Piscina

A marinha inglesa se junta com o trabalho independente e geram uma criança chamada Brian.
O garoto cresce e tem a educação das ruas e universidades.
Músico de origem clássica, Brian já era capaz de ler partitura desde muito cedo. Aprendera piano com a mãe que ministrava aulas em uma igreja. Já rapaz, com suas roupas extravagantes, viveria sem restrições a tríade sexo, drogas e rock and roll. Decisão que havia tomado por influência do movimento libertário. Vieram a fama e fortuna. Os rapazes realmente eram bons. Sonoridade suja do Rock puritano misturada com elementos do Blues, fez com que a banda se tornasse conhecida.

Porém, Brian acabou por ceder ao uso certas substâncias que mais tarde lhe custariam o inevitável desprendimento do grupo que ele mesmo havia formado.
O ano era 1962. Se não me engano era a época das flores.
Três rapazes tragavam alguma coisa e ouviam as Águas de Lama contando a história das pedras que rolam.
O Marquee Club de Londres iria conhecer a história em breve.
Instrumentista sem fronteiras.
O garoto tocava guitarra, gaita, piano, banjo, sax, oboé, bateria e xilofone. Não tinha a mesma facilidade para compor dos outros dois rapazes, mas era a alma melódica do grupo.
A jovem Anita, sua garota e aspirante a atriz, havia atuado em um filme de quinta categoria chamado A Degree Of Murder. Obteve um sucesso razoável, em parte pela trilha composta por Brian.

Várias teorias no entanto, fazem alusão à um pedreiro chamado Frank.
Frank trabalhava calmamente na casa de Brian e nunca houve nada de assombroso em sua pessoa. Porém, reza a vigésima sétima lenda que esse homem teria matado o garoto Brian, afogando-o em sua piscina.
Frank, segundo dizem, confessou o homicídio a sua filha, quando estava no leito de morte. Mas os piratas sempre duvidaram disso.

Uma pedra rolante morto por um pedreiro.
Faz sentido, mas não deixa de ser lastimável.

(Edu Neves)



terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Era uma vez na Irlanda

Lá vai Johnny com suas botas sujas do asfalto
Seus cabelos reluzentes
Lenço amarrado no pescoço
Vite e cinco dólares no bolso

Lá vai Johnny com seu violão
Almas acústicas ao seu lado
Sentado em frente ao portão
Sem chaves e cadeados

Lá vai Johnny com a sua voz e seu Soul
Pelas Ruas de New York
Seu bolso cheio de gueto
Com toque de Rock and Roll

Lá vem Johnny voltando para o campo
Roça mata adentro
Trejeitos, mungangos
Através de seu último canto

Lá vem Johnny com sua roupa preferida
Jaqueta de couro negro
Gato soturno do dia
Tatuagem marítima

Lá vem Johnny voando nos céus
Voltando pra casa mais uma vez
Com marcas da rua
Com lembranças de um bordéu

(Edu Neves)

*Dedicado a Van Morrison






segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Paraná Beat

Descendende de poloneses e negros, Paulo Leminski Filho
nasceu em Curitiba, Paraná, no dia 24 de agosto de 1945.
Ex-professor de história e de redação em cursos pré-vestibulares, sua atividade
profissional concentra-se na criação e redação publicitárias, em sua cidade natal.
Seus primeiros poemas foram publicados na revista ''Intenção'', em 1964, então
porta-voz da poesia concreta paulista. Depois disso, muitos volumes de sua autoria vieram à luz,
entre os quais se destacam os romances ''Catatau'' (1975) e ''Guerra dentro da gente'' (1987).
Os ensaios intitulados ''Anseios Crípticos'' (1986) e os livros de poesia: ''Quarenta clics'' (1976),
''Não fosse isso e era menos/Não fosse tanto e era quase'' (1980), ''Polonaises'' (1980),
''Caprichos e relaxos'' (1983), ''Haitropikai'' (1985) e ''Distraídos venceremos'' (1987).
Destaca-se também como compositor, tendo criado várias letras e músicas, sozinho ou em parceria com
Moraes Moreira, Gilherme Arantes, Ivo Júnior e Itamar Assumpção.
Caetano Veloso, um dos intérpretes das canções de Leminski, assim se expressou sobre
''Caprichos e relaxos'': ''Esse livro de poemas de Leminski é uma maravilha, por que os poemas são muito sinéticos,
muito concisos, muito rápidos, muito inspirados.
Ele é um sujeito gozado. É um personagem muito único, no panorama da curtição de Literatura no Brasil.
Eu acho um barato. Leminski tem um clima de mistura de Concretismo com a Beat Generation, que é muito legal''.

O Paulo Leminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau a pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filha da puta
de fazer chover
em nosso piquenique

Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de tramsformar em raiva
Ou em rima.

Que tal se
fosse real
esse realce
que Gil se
viu viajou
se via Gil?

Pelo branco Magnólia
O azul manhã vermelho olha.

Nem toda hora
é obra
nem toda obra
é prima
algumas são mães
outras irmãs
algumas
clima

Você me amava
disse
A Margarida
A Margarida
é doce
amarga a vida

Tudo que li
me irrita
quando ouço
Rita Lee

Aqui, poemas para lerem, em silêncio,
o olho, o coração e a inteligência.
Poemas para dizer, em voz alta.
E poemas, letras, lyrics, para cantar.
Quais, quais, é com você, parceiro.

(Paulo Leminski)


domingo, 11 de dezembro de 2011

A Liga da Injustiça

Os assuntos quentes e candentes de Brasília nunca foram resolvidos nos gabinetes ou nos plenários, mas em restaurantes, quartos de hotel e festas particulares.
Há algumas semanas atrás o STJ, a ''grande corte'' do país, simplesmente transformou em pó a mais extensa investigação já feita a família do senhor Sarney.
A investigação foi realizade entre 2007 e 2010, mapeando o rastro do clã maranhense nas tetas atômicas do Poder Público.


Remessas milionárias para o exterior.
Dinheiro de empregadas domésticas e lavradores sendo controlado pelo filhinho do papai Sarney.


Agora que já apresentei a ponto do Iceb... Digo, do cigarrinho do demônio, aqui vai um refresco para a nossa memória curta.



José Sarney

Caso - A Polícia Federal descobriu o envolvimento da família do Senador no desvio de verbas públicas e no envio ilegal de dinheiro ao exterior.

(In)justiça - O STJ acaba de anular uma investigação que durou três anos.

Hoje - Esse senhor amável é Presidente do Congresso.



Luiz Estevão

Caso - O Ex-senador foi acusado de desviar 169 milhões da obra do TRT de São Paulo.

(In)justiça - Cassado, foi condenado a 31 anos de prisão. Onze anos depois, aguarda em liberdade o julgamento de recursos no STJ.

Hoje - Esse senhor dedica-se a vida empresarial.



Daniel Dantas

Caso - O banqueiro foi denunciado por crimes contra o Sistema financeiro e chegou a ser condenado a dez anos de prisão por corrupção ativa.

(In)justiça - O STJ anulou o processo por irregularidades flagrantes praticadas pelo delegado que cuidou do caso.

Hoje - A tendência é que o Banqueiro de múltiplas faces continue impune.



Fernando Collor de Mello

Caso - Depois de sofrer Impeachment em 1992, o ex-presidente respondeu a processo no Supremo Tribunal Federal por corrupção passiva.

(In)justiça - Em 1994, o STF absolveu esse senhor por falta de provas.

Hoje - Eleito Senador em 2006, esse senhor é Presidente da Comissão de Relações exteriores da Casa.



Paulo Maluf

Caso - O ex-prefeito é acusado de desviar verbas públicas e de tranferi-las para contas pessoais no exterior.

(In)justiça - O processo rola há cinco anos. Esse senhor já foi condenado até nos EUA, mas por aqui ainda não há previsão de julgamento.

Hoje - Esse senhor foi eleito Deputado Federal no ano passado.



Jader Barbalho

Caso - O ex-presidente do Senado Federal é acusado de formação de quadrilha pelo desvio de 1,7 bilhão de reais da extinta Sudam, em 2001.

(In)justiça - O processo continua à espera de julgamento.

Hoje - No ano passado, esse senhor elegeu-se novamente e aguarda a decisão da Justiça para tomar posse.



Romero Jucá

Caso - O senador já foi acusado de crimes eleitorais, desvio de verbas públicas e fraude financeira.

(In)justiça - 90% das acusações ainda aguardam julgamento. Alguns crimes, no entanto, já prescreveram.

Hoje - Esse senhor é líder do Governo no Senado e o principal interlocutor do Parlamento junto ao governo.

PS.: A Liga cresce à cada dia. Precisaremos de uma mãozinha do Chuck Norris amanhã ou depois?

(Edu Neves)

sábado, 10 de dezembro de 2011

Dezembro em Los Angeles

Essa é a noite iluminada
Noite das sombras amarelas
Noite no campo, vento na relva
Flores que brotam do asfalto
Sob meus pés, a dor que o dia levou
Sonho comigo mesmo
Meu sonho é uma rua sem saída
Com entrada para a quinta avenida
Minha cama é um tapete voador
Sobrevoando o céu da Califórnia
Encontrando as nuvens
Acendo as estrelas apagadas
Iluminando o seu quarto
Não sou de ninguém
Ninguém me convém, amor além
A ferrovia entre o mal e o bem
Terra encoberta
Poeira vermelha do Oeste selvagem
Poeira cósmica
Pó de giz em nossas mãos

(Edu Neves)



Receita Multicultural

"Como?! Vocês vão montar uma banda de Heavy Metal?''
Diverte-se  Dave Stewart, ao relatar o espanto de algumas pessoas diante da notícia de que ele e Mick Jagger estavam unindo forças para formar um novo grupo pop, batizado de SuperHeavy. Finalmente na última terça-feira, depois de dezoito meses de espera, o álbum da banda teve seu lançamento mundial.
E o resultado está bem longe de qualquer coisa que tenha a ver com Metal pesado. Além de Dave e Mick, fazem parte do bando a britânica Joss Stone, o jamaicano Damian Marley e o compositor indiano A. R. Rahman, que ficou mais conhecido pela trilha sonora de Quem quer ser um Milionário?

Classificação :  Rock-Soul-Reggae-Bollywood

"Quando eu era jovem e conheci a lenda do Blues John Lee Hooker, ele já era bem mais velho que nós. Mas ninguém ligava a mínima para a sua idade. Queríamos ouvir o que ele tinha a dizer.'' Ressalta Jagger.

Já Joss Stone, tem 24 anos mas canta desde sempre.

A banda com várias facetas e vertentes talvez inclua algum brasileiro no próximo disco.
Sugestões?

Eu é que não me arrisco. Tenho medo do Mick Jagger.

(Edu Neves)

SuperHeavy - Energy


sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Oeste Adormecido

Deixa que o vento do Oeste
Adormeça sobre o lago
Fala em silêncio com teus luminosos olhos
Banha de prata o crepúsculo
E de repente
Te retiras enquanto enfurece o Lobo
E o Leão
O escuro bosque espreita

(William Blake)


Milágrimas

(Itamar Assumpção / Alice Ruiz)

Em caso de dor, ponha gelo
Mude o corte do cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema, dê um sorriso
Ainda que amarelo
Esqueça seu cotovelo
Se amargo for já ter sido
Troque já esse vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério, deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada milágrimas sai um milagre
Em caso tristeza, vire a mesa
Coma só a sobremesa
Coma somente a cereja
Jogue pra cima, faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra apenas, viva apenas
Sendo só fissura, ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena, reze um terço
Caia fora do contexto
Invente seu endereço
A cada milágrimas sai um milagre
Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas, três, dez, cem, mil lágrimas
Sinta o milagre
A cada milágrimas sai um milagre






* Canção do disco de Zélia Duncan - Pré Pós Tudo Bossa Band



A Fúria da Tempestade

Vento instigante
Toca a pele que arrepia
Açoita o nervo que se contrai
Vento
Moinho
Força do beija-flor
Rompe através da cortina de fumaça
Serpente que dança no fio da navalha
Não há estrelas no céu do subúrbio
Mas o vento continua cantando
Voz fria
Voz que cria
Cria pingos
Cria rimas
De repente, é um repente.
Sem futuro nem presente no passado da gente.

(Edu Neves)


Glória

Andando em círculos
Caminhando ao redor da Cova
Vendo a Luz sem clarão
Como tempos de Glória

Glória bem vinda
Resta um beijo ainda
Atriz do meu Clipe
De carona para a Bad Trip

Porta-retrato na estante
Chuck Berry no alto-falante
Silêncio vibrante
Ecoa adiante

Tempo de doze compassos
Fuga, colares e óculos
Lápis, caneta e compasso
Fuga, a surpresa do óbvio

(Edu Neves)




quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Dois Filhos de Minneapolis

Coen


Não faltam personagens espirituosos na filmografia desses dois lunáticos do Mundo Noir.
Desde a xerife grávida em Fargo (1996) até o advogado especialista em divórcios de O Amor Custa Caro (2003). O curioso é que esses tipos, famosos por sua linguagem perspicaz, são o oposto da dupla de cineastas na vida real. Na maioria das vezes os irmãos Coen falam pouco. E quando precisam. Se precisar.
Simplesmente dizem: É a história que queríamos contar.
Diretor de duas cabeças. Aura Cult.

''O que costumamos fazer é: Quem está mais perto de quem pergunta, responde. E funciona.''

1996 - Fargo

Frances McDormand conquista o Oscar pelo papel da xerife que desvenda o caso da esposa sequestrada a mando do próprio marido.

1998 - O Grande Lebowski

Um dos filmes mais cult da dupla, narra as desventuras de um desocupado e fã de Boliche.

2007 - Onde os Fracos não tem Vez

Para mim, o ponto alto da dupla. Vencedor de quatro Oscar: Melhor filme, direção, roteiro adaptado e ator.
Javier Bardem está fantástico na pele do Serial Killer.

2008 - Um Homem Sério

Indicado a dois Oscar, é uma comédia dramática protagonizada por um professor de Física e pai de família que vê a sua vida desmoronar.

PS.: Agora preciso criar vergonha na cara e assistir Bravura Indômita.


Obrigado pela dose de loucura. Vida longa a Joel e Ethan.

(Edu Neves)



PS.(2): Queime depois de ler.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

A Pedra no Sapato

A procura incessante pelos diamantes torna cego o homem que não possui olhos de ver.
As pedras mais desejadas no Mundo.
Porém o que muitos ignoram, é que toda a beleza bruta e cristalina pode acarretar um preço alto demais à se pagar. E isso não diz respeito apenas a questão econômica.
Grande parte dos diamantes extraídos de zonas de conflito são garimpados ilegalmente e vendidos tendo como objetivo arrecadar fundos para financiar o Terrosismo com seus militares rebeldes. Tais grupos, após a posse do dinheiro, compram armas (também ilegalmente), e forçam homens, mulheres e crianças a garimpar os diamantes, ameaçando-os de morte ou de ter um membro amputado, em caso de protesto ou relutância.

Grande parte dos diamantes são provenientes de regiões de conflito.
Tais como Angola, República Democrática do Congo, Costa do Marfim, Libéria e Serra Leoa.
Diamantes derivados de regiões em conflito são introduzidos por contrabando no fluxo de comércio legítimo.
Alguns mineradores usam o trabalho infantil para garimpar espaços subterrâneos, onde adultos não teriam acesso. Na Índia, as crianças cuidam das pedras menores, por conta da visão mais aguçada e dedos menores. Tal tarefa gera um desgaste da retina, lesões e infecções pulmonares causadas pela inalação do latifúndio sangrento.

O Processo de Kimberly é uma iniciativa de vários países envolvendo governos e a Indústria do Diamante, criada para impedir a comercialização de pedras advindas de regiões de conflito.

No mais, na minha opinião (e minha apenas), isso não passa de demagogia norte-americana para qual o conformismo nos leva a pensar em conspiração. Ou talvez, eu esteja ficando louco, realmente.

A questão é que eu creio que as pessoas não comprariam um Diamante belamente lapidado, se soubessem que tal pedrinha custou o braço de alguém. Ou a vida...

(Edu Neves)




Desejo que o Papa tenha uma ótima noite de sono.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Todo Coração é Louco

Corações moldados em aço
Passeiam em suas naves espaciais
Coração puro; lindo e obscuro.
Coração pulsante; lunático e ofegante.
Coração atômico
Coração de vidro
Coração radiofônico
Toque para mim, Coração. Toque a música das cidades.
Toque o meu corpo e beije a minha mão.

(Edu Neves)


Mr. Scarecrow

Sozinho nesse quarto
meu pensamento vagueia sem rumo pelo Oceano da Incerteza.
Enquanto me sinto vazio, escuto o barulho de bombas.
Então percebo que não há bomba alguma e que essa guerra não é mais minha.
É apenas Jimi tocando fogo na Casa Vermelha entre um compasso e outro.
Meu coração louco grita e parece querer pular para fora do peito.
O pouco tempo que tive na Vila Espacial não foi o suficiente para que eu brilhasse.
Há tempos atrás, tive meus dias de glória em uma cidade de sombras e máscaras, onde todos viviam com suas fantasias reluzentes.
Eu era um membro da trindade. Hoje me cubro com lama e mostro a minha verdadeira face.
A face oculta do lado negro.
O Eclipse que assombra o Deserto. Meu velho Curandeiro se foi. Está em outra nebulosa. Se tornou livre em um dia nublado e com chuva.
Jamais será escravo dessa terra alcoviteira novamente. Estive com ele até o último instante. Hoje, se pudesse escolher, teria ido no lugar dele.
Minha estrela Cadente já não está mais por perto. Sinto frio agora e nada posso fazer.
Os piratas já não me querem no barco.
Ironia dos Infernos...
Ajudei a construir o maldito barco.
Sem barco, sem o velho curandeiro, sem a estrela cadente...
Meu bolso está vazio. Já não guardo poemas dentro dele.
Quarto vazio, céu vazio.
Fim da Linha.
Dessa vez, o Espantalho venceu.

(Edu Neves)