sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Ilusões Perdidas

O sol despencava em nossas costas. As pessoas se mostravam felizes naquela tarde. Tal alegria pré concebida foi injetada em minhas veias e por um instante quase me enganou.
Não podia deixar isso acontecer. A paisagem era absurdamente bela para que eu me deixasse enganar por uma sensação.
Cristo estava lá. Com os braços abertos e os olhos fixos no horizonte. Ao menos naquela tarde, nada poderia nos deter ou nos assombrar.
Hoje, penso eu, que na verdade já tínhamos sido detidos muito antes de colocar os pés na areia.
As ondas estavam altas e arrebentavam por entre as pedras do Arpoador, dilascerando as ilusões de Ipanema. A tarde caiu devagar e em apenas meio compasso fez-se noite. Céu de estrelas, azul-negro de trevas salpicadas.
Voltamos pra casa e enquanto tirava o sal do corpo, pensei no mar agitado e sua cólera. Fiquei pensando nisso por alguns minutos. Onde começava o mar desbravado? Onde se findavam os feitos da Caravana? Por que tudo se acabou? Quando?
Durante o breve caminho rochoso, acenei para um nativo que bebia calmamente seu malte, enquanto ria da própria desgraça. Homem iluminado, aquele nativo.
Entrei no quarto e ela estava nua. Deitada com os cabelos lhe cobrindo os seios. Fizemos amor protegidos pelas trevas. Os gemidos foram abafados pelas notas agonizantes de Jimmy Page. Nossos corpos choraram. Depois do concerto veio a seca e não os aplausos.
Ela me olhou e sorriu. Suas mãos tremiam e sua face corou. Me susurrou algo inteligível e virou-se. Dormiu em questão de segundos e sonhou seu sonho dourado.
Naquela noite não dormi. Só conseguia fixar meu pensamento nas pedras. Como algo tão bonito podia ser tão perigoso? Corpo nu coberto de espinhos. Era assim. Beleza fatal.
Sonho lúcido?!
Acordei desiludido, bebi um café amargo e voltei pra casa.
Tempo de recomeçar.
Pisar na Terra. Minha Terra.

(Edu Neves)


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