domingo, 25 de dezembro de 2011

O Crime da Mulher Infiel

Abriu as portas velhas do bar e sentou-se ao balcão.
Pediu uma bebida ao dono do estabelecimento e ficou olhando para as fotos em preto e branco.
De posse da bebida, virou-se e foi procurar uma mesa vaga. Sentou e tirou da bolsa um livro.
Olhava de vez em quando para o relógio na parede do Bar.
Notou que a sua companhia estava atrasada e pediu alguns canapés.
Enquanto aguardava ansiosamente, mal conseguia ler as páginas do livro desgastado.
Os músicos faziam ressurgir John Coltrane aos ouvidos dela.
Olhou para o visor do celular. Nada. Nenhuma mensagem ou ligação.
Guardara o livro e se levantou.
Foi quando Bill entrou no recinto aparentemente embriagado.
Bill. Um homem elegante com seu paletó e sua gravata sulista, trazia consigo uma maleta de prata.
Bill encaminhou-se para a mesa onde ela estava.
- Pode ficar com a mesa. Já estou de saída. Ela lhe disse.
- Não tão cedo. Sente-se aí. O tom de Bill era autoritário e a fez corar um pouco.
- Perdão, mas o senhor...
- Sente-se. Disse Bill.
- O que é isso, afinal?
- Temos um assunto a tratar.
- Nunca o vi em toda minha vida. Disse ela surpresa.
- Estou certo disso. Mas vim até aqui para lhe contar sobre Jack.
- Jack?! O que sabe sobre Jack? Quem é o senhor?
- Sou o sujeito que vai salvar a sua vida. Ao menos essa noite.
Ela olhava por todos os lados procurando um vestígio de algo que fosse familiar.
Bill a encarava com os olhos um tanto quanto pendentes. Olhou a aliança da mulher.
- O que o senhor quer?
- Temos que sair daqui. Sua vida corre perigo.
- Não está ajudando muito. Agora ela estava agitada.
- Não há tempo. Precisamos sair.
A tomou pela mão e saiu sem pagar a conta. O dono nada fez para detê-los.
Foram em direção ao Hotel que ficava do outro lado da avenida.
Sala de estar simples. Escura com algumas luzes criando sombras nas paredes.
As sombras desfiguravam a tela com o rosto de Brigitte Bardot.
- O que estamos fazendo aqui? Perguntou assustada para o homem que a conduzira de forma bruta pela avenida.
- Você vai passar essa noite aqui. Seu marido quer matá-la e fui contratado para impedir o crime.
- Me matar?! Como conhece meu marido? Seu rosto estava lívido.
- Isso não importa, senhora. O que é relevante de fato, é que seu marido descobriu a traição da senhora. O homem que a senhora esperava no bar. Seu marido de alguma forma descobriu.
- Não sei o que dizer. Ela escondia o rosto entre o véu que lhe caía do chapéu.
- Não há necessidade de palavras, senhora. É por isso que trabalhos como o meu existem.
- Não creio que seja amigo do meu marido.
- Na verdade, fui contratado por Terrence. O homem pelo qual a senhora esperava no Bar. De alguma forma, ele desconfiou de que Jack faria alguma coisa e me mandou segui-la.
- Então eu fico aqui? Ela estava realmente confusa.
- Por essa noite sim. Disse Bill antes de sair do quarto e trancar a porta atrás de si.
Ela não se lembrava de ter deixado nada para trás. Sempre agiu com muita cautela em relação a Jack.
Na verdade, não o amava mais. Jack era um figurão que gostava de esbanjar os carros e a traía descaradamente com as meretizes e com suas amigas da Aristocracia.
Sentia um certo ódio por Jack e em tempos recentes resolvera ter um caso amoroso com um velho amigo da época da inocência.
Deitou-se na cama e ficou pensando em Jack. O homem por quem tinha se apaixonado na juventude e era até alguns anos atrás o que se poderia chamar de marido.
A relação de Jack com o poder foi lhe subindo à cabeça junto com o casamento falido e as traições.
Ela, que também era da classe alta, não via mais motivos para usar a máscara de uma instituição falida.
E então, resolvera sair algumas vezes com Terrence. Um homem que sempre foi apaixonado por ela e que a sabia fazer sorrir.
Depois de alguns minutos, pediu uma bebida ao serviço de quarto.
Bebia mais à medida que as horas iam passando e Bill não retornava.
Ouviu um barulho na porta e foi averiguar o que era.
Ficou surpresa e chocada com o que viu.
Era Jack, seu marido. Segurando as credenciais de Bill e Terrence, enquanto louco de cólera, recitava algo de Sheakspeare lentamente.
Com o assassino no quarto, ela não teria nenhuma chance. A questão era realmente complexa. Pois Jack achou que fora a mulher quem planejou a tentativa de se safar.
Tirou de dentro do sobretudo um Colt 45 luminoso e o apontou para o ventre dela.
Atirou e a mulher caiu se debatendo na cama. Sua hemorragia intensa a matou em uma questão de minutos.
Jack afagou o revólver e o colocou de volta no bolso interno do sobretudo.
Se aproximou do corpo estendido na cama e fechou os olhos da mulher.
Sorriu forçadamente para o espelho que o fitava sem paúra e se retirou do quarto.
Semana seguinte Jack foi encontrado morto em sua bela mansão. Não havia indícios de invasão ou de luta.
Nada justificava a morte de Jack, que no âmbito social era muito bem quisto por todos a sua volta.
Por fim, os peritos encontraram os frascos de remédios vazios, acharam o Colt 45 nos guardados de Jack, se lembraram da bala cravada na mulher infiel e ligaram os pontos.
Um crime passional. Mas perfeito.
Assassino nunca pego. Testemunhas mortas.
Hoje em dia a ex-camareira do Hotel reside na bela casa que era de Jack, mas os policiais não acham muito ético prender alguém sem evidências.

(Edu Neves)







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