segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O Oitavo Pecado

As mãos negras do garoto passeavam displicentemente pelos sapatos do senhor Watson. Ele sabia que aquele jovem precisava limpar as mãos com as notas verdes. O garoto o fitava sempre que uma BMW rasgava a quinta avenida. Aquele olhar puro e obscuro lhe remetia a infância. A época da inocência perdida.
Repentina pergunta.
Subitamente o garoto perguntou: - Senhor Watson, por que os carros correm tanto por aqui?
- Não sei, garoto. Talvez os homens estejam com pressa.
- Para que tanta pressa?
- Para chegarem cedo em algum lugar, garoto.
- Não entendo. Já é tempo de ter calma. Disse o garoto limpando as mãos em um pano branco.
- A sociedade sempre tem pressa, garoto. Sempre teve. Desde os meus tempos crédulos, era assim.
- Os seus sapatos estão quase prontos!
- Não tenha pressa, garoto. Eu agora só espero a minha hora.
- O senhor é paciente. Coisa rara nas ruas.
- Garoto, eu já tive pressa. E sofri feito um cão. A pressa não resultou em nada de bom para mim. Hoje estou velho e aguardo apenas a minha hora.
- Mas o senhor tem amigos, não tem? E com o dinheiro do senhor, eu também não teria pressa.
O velho Watson olhou para o menino à sua frente e ficou o fitando por alguns instantes. Seu trabalho era único. Os sapatos ficavam realmente bem engraxados e o garoto não tinha pressa. Era primordial que ficassem bonitos e lustrosos. O resto não importava.
- Hey, garoto. Você está com fome?
- Sim. Há muito tempo tenho fome.
- Vamos fazer um lanche. Será por minha conta. Disse o velho.
- Não quero comer.
Seus olhos agora estavam tristes. Olhou para o lado e pegou a sua caixa de chicletes quase vazia.
- Não entendo. Você disse que estava com fome.
- Tenho fome de esperança, senhor Watson. Fome de amor. De vida.
O velho franziu a testa e ficou pensando por alguns segundos.
- O que tem feito quanto a isso, garoto?
- Na verdade, eu tenho andado em direção ao caminho contrário. Tentei fazer com que as pessoas se amassem, mas não deu muito certo. Tentei ser gentil, mas só recebi ingratidão como retorno. Desde cedo, ando por essas bandas. Minha mãe morreu e meu pai nos deixou. Hoje somos apenas eu e meu irmão. Ainda assim eu não estou bravo com Deus. Não me revolto. Só gostaria de entender Seus desígnos. Sinto que as pessoas a minha volta também tem fome e sede. Mas o medo as impede de realizar grandes feitos.
- Garoto, que idade tens?
- Minha certidão diz que tenho 12 anos, senhor. Mas me sinto como se tivesse 80. É uma sensação muito estranha. Um peso que me corrói por dentro. Realmente não sei explicar.
- É difícil, filho. Você com 12 anos deveria estar na escola ou jogando futebol com os amigos.
- Meu único amigo é meu irmão. Sou responsável por ele. Só temos um ao outro. Disse o garoto.
- Filho, há algo que posso fazer?
- Seus sapatos estão prontos, senhor!
O garoto recebeu o dinheiro, se despediu e foi embora. O senhor Watson ficou observando o jovem caminhar em direção a ponte que cobria o rio amarelo. Pensou que pudesse fazer alguma coisa pelo garoto. Mas ele havia ignorado a sua pergunta. Nunca mais o viu. Mas sempre pensava no garoto. O garoto sem pressa.
Oito anos se passaram e o senhor Watson ficou muito doente. Uma espécie de câncer que se espalhou rapidamente por todo o seu corpo frágil. Agora o senhor Watson tinha pressa. Pressa de morrer. Não queria sobreviver e ficar totalmente dependente dos outros. Sua família o havia deixado em um bom hospital e raramente o visitavam. Quando o faziam, levavam uns papéis que o velho já não podia distinguir do que se tratavam, por causa da cegueira. Imaginava que poderia ser o testamento.
Dois anos se passaram e a doença só progredia. As noites eram intermináveis e os dias inválidos. Então o senhor Watson recebeu uma visita. Já não podia mais enxergar absolutamente nada. No entanto, sua audição ficou aguçada.
- Garoto, é você?
- Como me reconheceu, senhor?
- Eu me lembro de você, rapaz.
- O senhor sente dores? Perguntou o garoto.
- Garoto, quero que me faça um favor. Mais um. Desligue esses malditos aparelhos.
- Deus! O senhor quer que eu acabe preso?
O velho se contorcia de dor. Seus olhos lacrimejantes e brancos imploravam por um breve adeus. O garoto olhou pelo corredor. Não havia ninguém por ali. Levou a sua mão aos botões e remexeu a parafernalha que mantinha o velho sobrevivendo. Por fim, conseguiu desligar e foi embora um pouco assustado.
O senhor Watson faleceu alguns minutos depois do ato corajoso do garoto. Seus bens acabaram sendo confiscados pelo governo e a família não recebeu nenhuma quantia. Quando souberam disso, amaldiçoaram o senhor Watson com todas as forças. O garoto se tornou homem e hoje em dia trabalha em uma loja de discos.
A história do senhor Watson não é nada fantástica, mas há algo nela que de certa forma toca as pessoas. A pressa é um paradoxo.
A agonia clama por pressa.

(Edu Neves)



2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Eu descobri que os dias e as noites passam depressa demais... e a cada um que se vai, uma angústia maior vem..

    Você escreve muito bem, gosto de te ler. Imagino que deve ser igualmente bom te ouvir.
    Beijo!

    *yamar

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