quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

A Vida Caótica de Guido

Ele chegou no set de filmagem e não havia ninguém.
Sentou-se na cadeira, acendeu um cigarro e abaixou a cabeça.
O terreno sombrio lhe cobria de poeira e lembranças.
Tentou pensar em algo.
Sua mente viajava à 200 Km/h.
Tinha um roteiro a ser finalizado e na verdade, nem o havia começado.
Nem uma única página.
De início, viu Cláudia vindo em sua direção.
Vestido justo com um decote nas costas, ela vinha sorrateira e com um sorriso malévolo em sua direção.
Guido a olhou dos pés a cabeça. Ela parecia mais alta que de costume.
O peso de sua cabeça o paralisava e não lhe deixava pensar direito.
Cláudia não estava lá. Mas estava para Guido.
Sua musa. Musa de Roma. Musa do estilo de vida italiano.
E nem uma linha ainda havia sido escrita.
Agora Guido está pronto para a coletiva.
Os jornalistas usam as metralhadoras para bombardeá-lo com questões sobre o filme e sua vida pessoal.
Guido hesita por um instante, mas acaba por responder todas as perguntas. Até as sérias.
Ele tinha que responder. A Europa inteira estava naquela pequena sala, afinal.
Então Guido ouve alguém chamar seu nome. Era sua esposa. Mas ela também não estava lá.
E na maioria das vezes ele não estava lá também.
Sua casa havia se transformado em uma colônia de férias para idosos.
Seu parque de diversões era a sua amante espanhola. Mulher que fazia de tudo por ele. Realmente o amava.
As indecisões de Guido, no entanto, foram varridas por um tornado de emoções quando se daparou com Cláudia.
E dessa vez ela estava lá.
Entraram no Cadillac azul e saíram em direção a noite fria de Roma. Cidade incauta.
Cláudia lhe disse que era o fim. Não havia sido fabricada para servir os seus caprichos suprimidos pela igreja católica.
Guido então, foi ao encontro da amante.
Procuravam fugir da publicidade e se hospedaram em um hotel barato.
Guido a fantasiava de bruxa para que sua imaginação talvez retornasse à sua mente brilhante.
E ela gostava dos jogos de Guido. Pintou os olhos de negro e se deitou com ele.
Guido se levanta de madrugada à procura de cigarros.
Se depara com uma das belas jornalistas que o tinham entrevistado na coletiva, algumas horas mais cedo.
A garota elogiava seus filmes enquanto cruzava as pernas e se insinuava para Guido.
Ele ficou tentado, mas parou no corredor e voltou ao quarto da espanhola.
Foi ao banheiro se olhou no espelho. Ouviu o choro da espanhola.
Ela disse que chorava por ele e pelo seu marido. Guido sorriu e deitou-se.
Jantar de negócios. Os produtores estavam a sua volta. Sua mulher chegou e sentou-se ao seu lado.
Foi uma surpresa para Guido a vinda dela.
Mas Guido teria outra surpresa naquela noite. E nada agradável.
A amante espanhola entrou no restaurante e sentou-se afastada da mesa de Guido. A princípio, Guido não notou que era seu parque de diversões maquiado.
Ela sorriu e acenou para ele. E isso bastou.
Guido chamou um táxi, mas ela preferiu ir a pé para o hotel.
Quando Guido voltou para comer alguma coisa, sua mulher já havia ido embora.
Guido perdera a musa, a amante e a mulher. Só lhe restava a mãe.
Ergueu as mãos aos céus e suplicou a ajuda da mãe. E ela apareceu.
Depois dos conselhos maternos da mãe, já morta, Guido levantou-se da cadeira e disse a verdade e o que sentia pela primeira vez na vida. Ao menos para a imprensa aniquiladora.
Não havia filme algum.
Não havia roteiro. Não haviam atores.
Dessa vez a mente brilhante da alma de Roma fracassou. E eles teriam que entender que isso não era nenhum crime.
Guido criou asas nos pés, pegou sua valise e se foi.

(Edu Neves)


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