sábado, 15 de dezembro de 2012

Com os Lobos, seguirei...

Até o fim da rodovia
Com seus caninos brancos e presas afiadas
Morte e vida em quatro patas
Universo em alvorada

Caminhos tortuosos até o último lamento
Sutil momento precedente do fim
Em uma terra árida com plantas venenosas
A alma de um índio entrou em mim

Seguindo os carros com os olhos
Ficando limpo com toda poeira deixada para trás
Bebo vinho com os nativos
Brindo o amor dos animais

Então é chegada a hora de um breve repouso
Por uma luta inútil travada há mil anos
Deito-me sob um céu de primavera
E clamo, chamo, amo... Todos os anos

Com os lobos, seguirei os caminhos que não tracei
Até o fim da última rodovia
Vida e morte em um dia
Com a dor que ainda havia

Nada te perturbas quando sonhas com a inocência
Nem um ataque caótico de lúcida demência
Em minhas mãos, meu filho que nunca segurei
Até o fim da maldita rodovia, com os lobos, seguirei...

(Edu Neves)


Jesus Alado

Diante de seus olhos,

Me debruço

Na sombra de um abraço partido

Um abraço singular

Nos braços de Cristo

(Edu Neves)



sábado, 6 de outubro de 2012

A Garota que Levou minha Dor embora

Fiquei amargo no quarto
Com uma dor assim tão grande que não cabe em mim
Joguei fora o sorriso
Me escondi no paraíso tão distante assim
Então ela apareceu com a cara mais lavada
E um copo de Gim

O amor sem freio, sem pressa e sem hora de chegar
Flor que mora em mim, fique agora
Quando for, leve a dor embora

Hoje peço arrego no recinto
Falo alto, mas não minto
Vivo à margem do perigo
Perdido, sem juízo e sem abrigo

Mas ainda tenho uma luz
Seus olhos azuis
E um disco de Blues

(Edu Neves)


quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O Verde e o Vermelho

Quando te vi, vi além do seu decote convidativo
Quando te vi, vi além dos seus olhos iluminados de medo
Te vi, te quis e sonhei
Depois de me olhar no espelho

Não a toquei, mas a senti no meu sofá
A senti em meus poros, a senti em meu espírito torto
Tocarei esse imaculado corpo?
Não antes de alimentar os corvos

Toco você em mim, no início, meio e fim
Espero mil anos para tê-la uma vez, duas vezes, dez vezes
Beijar seus dedos tortos
E admirar seu esmalte verde

Nada mais interfere no quadro que eu pinto
Pinto seu corpo de vermelho
Vermelho-Sangue de um coração aflito
Vermelho de lágrimas do Rio Místico

Te perdi uma vez, no deserto das almas pálidas
Te achei de novo no compasso de um Samba lento
Se perder de novo, acho-te no inferno de um Jazz sem nome
E achando-a novamente, dar-te-ei outro nome

Um nome que todos irão se lembrar
Irão notar que em todo amor, há uma pontinha de dor
Uma pontinha mal apagada que um índio descartou
Adivinha só... (Aquela ferida cicatrizou)

(Edu Neves)


quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Alma Inocente e Sem Precedentes

A sala está vazia
Com a cadeira de balanço sem o mensageiro de cabelos prateados
Uma ausência que se torna cada vez mais presente
Presente de uma alma inocente

O velho rádio ficou mudo e nunca mais mentiu
O camisa 10 nunca mais lançou a 30 metros
O café frio e sem as bolachas já está a sete palmos de terra
Terra fértil que fez uma rosa branca nascer

O velho que amei sem precedentes
O amor que me foi dado sem transgressões
Ainda guardo a terceira lâmina que lhe fustigou a pele
Usarei contra os ladrões que se colocarem em meu caminho

Ainda escuto os contos da velha escola com atenção
Ouço o seu suspiro abafado, como quem escuta uma canção
Sinto a ternura de sua mão amputada me tocando
E dando de comer aos homens sem chão

A chance do perdão foi embora em uma semana
Tudo foi embora, como a mente nebulosa de uma galáxia distante
Não me vire a face, cavaleiro andante
Estamos à frente, mas ainda sou errante

Escute o meu suplício desgarrado
Visite-me em sonhos trancados no armário
Mande-me um sinal que há vida em Saturno
Ninguém o esqueceu, velho noturno

*(Dedico o poema acima com todo o meu amor, para meu velho, que partiu com olhos fechados, mas com o coração aberto)

(Edu Neves)

*(Estará sempre em nossos corações - A volta do mundo é grande, mas o poder de Deus é maior)






segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Deixei meu coração no Arpoador

Sim, Mr. Bennet, São Francisco está a milhas de distância da minha alma
Guardei meu dinheiro no banco de favores de um gueto qualquer
Fiz minhas escolhas e agarrei a cauda do cometa
Amei o primeiro suspiro da última mulher

Peguei o metrô sem calote e desci em um beco escuro
Beco da minha vida escura e clorídrica
Cheguei nas areias de um oceano fantasma
E a água era mais viva que minha mente farta

Sonhei com aquelas pegadas na superfície
Entendi que as pedras me diziam para acender a ideia perdida
Acendi e me apaguei em cinco minutos eternos de glória
Vida bandida voltou antes da hora

Usei a máscara do príncipe negro
Voei com as asas de um cavalo alado
Ri com as lágrimas do horror
Deixei meu coração no Arpoador

(Edu Neves)


domingo, 16 de setembro de 2012

Você tem que perder pra ganhar

Diga adeus para suas botas velhas e vista uma nova roupa
Vista-se de nuvens
Vista-se da sua dor efêmera e orgulhosa
Coma a maçã mordida em seu escritório e use a sua capa poderosa

Confira os relatórios cheios de ocorrências miseráveis
Mande seu chefe beber mais
Precisando achar um caminho para a estrada da loucura transeunte?
Procure, pergunte

Some o seu alívio com a velha sensação de estar em casa
Desligue a TV e nunca mais a veja através de olhos virgens
Sejamos o pecado buscando a redenção
Perca a cabeça e encontre o coração

Exiba as suas cicatrizes como medalhas
Ouro resplandecente em suas costas largas
Ouro eterno de um jovem vagabundo
Mesclando todo amor do mundo

(Edu Neves)


domingo, 2 de setembro de 2012

O Sonho de Plástico

O disco é rígido demais
Meu coração palhaço não passou na inspeção
Minhas mãos falam o que minha voz escreve
Com a cabeça no travesseiro e o corpo no espaço sideral

Oh, Pai! Seu punho é rígido demais
Apaga as estrelas e afunda o cais
A fibra óptica é a veia
De um coração sem paz

Sonho que acaba no começo
Dá um passeio em Londres e não volta mais
Pressinto o fim do abandono
Mas era apenas um e-mail me desejando paz

Fim da semana santa
Festas cheias de pecado
Corre em meus olhos sangrentos
O amor off line e seu sabor amargo

(Edu Neves)


domingo, 26 de agosto de 2012

Balada para Jesse James

Jesse foi um homem que matou vinte homens
Foi um sopro de poeira nos trilhos de Kansas
Foi a nuvem carregada que se rendeu ao Texas nublado
Foi o pagamento da dívida sem nenhum recado

Jesse deu de comer a Bob
Vendeu suas cicatrizes por uma garrafa de Tequila
Bebeu a sua dor e repousou sobre a bíblia
Estava cercado num labirinto de intrigas

Jesse foi o bom ladrão que morreu diante do espelho
Só se viu o reflexo de sua alma aflita diante do quadro da sala
Foi traído por Bob, o grande herói ruim de um Western sem fim
Deixou a mulher e os filhos se afogando no Green River

Jesse jamais confessou o último pecado
Tratou de morrer sem dor, sem dinheiro
Se recolheu à sua cova profunda
E aceitou seu destino congelado

(Edu Neves)




sábado, 25 de agosto de 2012

Prayer Fellin' Good

Senhor do Bom Fim
Não perca meu fim
Me vista de negro
E me afogue no Gim

Levante seu punho
Contra os males de Deus
E traga-me o vinho
Que Ele me prometeu

Senhor do pecado
Me livre do mal
Me livre das bocas
Me livre da água, do sal

Segure minha cabeça
E minhas mãos inquietas
Me traga de volta
O sol da nova era

Senhor dos mares
Me dissolva com sua sombra
E uma pitada de luz
Dor e prazer numa viagem longa

(Edu Neves)


sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Ed Dunkel num Céu de Diamantes

Sim, ele te seguiu por mares revoltosos e paraísos artificiais
Foi seu fiel escudeiro, na luta e no luto
Como pôde abandoná-lo, Dean?
Depois de sua partida, nem mais um vulto

Sim, você se lembra do rompimento do último laço
Deixou a bela pequena de olhos claros para te seguir
Morreu umas vinte vezes em Tukson
E tudo o que faz, é sorrir

Se lembra de seus olhos quando estava faminto?
O que comia, descia como a fada verde do absinto
Dean, você o deixou
Deixou que ele se perdesse no seu labirinto

Um dia irá se encontrar? Irá nos encontrar?
Continua vendo o seu pai nos rostos de cada vagabundo errante?
Nos olhos das amantes mexicanas...
Pra cima deles, cavaleiro andante

Avante, cowboy ingrato
Não irei atrasar sua viajem louca
Avante, mas se lembre de mim, se lembre do Ed
Se lembre de queimar suas roupas (Sei que você tem energia para aguentar o fogo)

Eu realmente queria não ter que ir falar com o homem do tempo
Sabe que o tempo não é nosso amigo
Mas se lembre de Ed Dunkel
 Dunkel's House é nosso abrigo

(Edu Neves)




quinta-feira, 2 de agosto de 2012

A Garota de Ontem

Você sabe, cara...
Ela te deixou louco e tomou a sua alma
Acabou com a comédia do seu drama
Quando viu, estava sozinho em sua cama

É, amigo...
Nunca sabemos como será a próxima mão
Aproveite o par de damas que tem consigo agora
A fúria do inverno chega, amigo. E não tem hora...

Cara, eu nunca imaginei que isso fosse real...
Crescemos mas continuamos insólitos, sagrados
Tua guia maléfica te levou a caminhos tortos
E então você sabe, eu morri no terceiro ato

Velho sábio, me dê um sinal de fumaça...
Quero ao menos completar a prova
Que passe em branco as desilusões
As difamações de minha alma morta

Cara, então eu voltei...
Voltei e bebi a tequila mais ardilosa do mundo
Aquele bar não é mais o mesmo, né?
Os frequentadores não tem mais rumo

Cara, vou ficar por aqui mesmo...
Meu trem está chegando e não pretendo perdê-lo
Já perdi bastante coisa no caminho
Espero tê-la esquecido quando tornar a vê-lo

(Edu Neves)

PS.: Não há nesse poema ridículo nenhuma alusão à canção The Girl from Yesterday da banda The Eagles e muito menos à maconha.


domingo, 29 de julho de 2012

Aprendendo a amanhecer sem Tédio

Outro dia quando voltava de uma festa trágica (que não me lembro onde foi), me deparei com uma serpente na minha cozinha. Notei que ela não se importou muito com a minha presença à princípio, mas realmente senti a garganta congelar. Explorei ao máximo a beleza sombria daquela animal enquanto as emoções se embaralhavam feito cartas transcendentais de um Black Jack alucinado.
Olhei-a direto nos olhos. Talvez tenha sido meu erro. O bicho se contorceu recuando e em seguida, avançou em direção as minhas pernas trêmulas. Por pouco a vadia não fazia um estrago dos grandes.
Foi nesse momento que notei as suas presas. Lindas e fatais. Poderia imobilizar-me se quisesse. Mas se fosse o caso, talvez já o teria feito. Ou não. Vai saber... essas coisas surpreendem a gente da forma mais perigosa possível.
Deixei a porta aberta, para que o monstro rastejante se tocasse e desse o fora, mas nem ao menos se movia. Não vendo muita boa vontade no bicho, decidi pegar um cabo de aço e tentar fazer com que se afastasse. Por fim, esteva fora de perigo. Fora do alcance do veneno ácido que eu tornaria a rever em sonho um dia.
Olhei para o relógio fraco pendurado na parede e vi que eram cinco da manhã. Hora do mundo acordar e cumprir sua meta de assassinatos. Mas eu dormi. Dormi como nunca tinha feito em toda minha vida.
Quando acordei muitas horas mais tarde, percebi que o céu coagulava gotas de chuva. Chuva vermelha e azul. Até na natureza haveria diferença e separação de classes? Pensei...
Peguei um manuscrito e danei-me a escrever coisas sem sentido. Escrevi por umas quatro horas seguidas à base de cafeína e alguns cigarros baratos.
Quando a noite se apresentou, havia dado conta da minha ''meta'' sem padrões. E então, lembrei-me da cobra que havia me assustado pela manhã. Pensei que poderia ter sido um sonho ruim para me ensinar a acordar. Sabe, acordar com mais dignidade...
Se formos reparar, ninguém acorda com dignidade. Ou é rápido demais, ou lento. Mas nunca é como deveria ser.
Não sabemos amanhecer. Não sabemos amar. Não sabemos sentir.
Mas tem uma coisa que sabemos. Ferir. Ferir nós mesmos, ferir o próximo, ferir o raio que o parta...
Antes que isso se torne uma imersão na filosofia budista, tem uma coisa boa que a gente sabe fazer. Mas talvez por ser boa, façamos com pouca frequência. Sabemos dizer a verdade às vezes.
É o que aprendemos na infância. No entanto, se disser a verdade, certamente irá ferir alguém. Então acaba ferindo de forma inconsciente; o que não minimiza o ''erro''.  Então, sua primeira reação natural será se desculpar. Mas se o perdão for camuflado de interesses, estará mentindo e não amando. Não deveria haver mentiras no amor. Em nenhuma forma de amar. Toda forma de se amar algo ou alguém, precisa ser verdadeira, senão o verbo se torna inválido.
E quando o verbo se torna inválido, não há verba que conserte o estrago.

(Edu Neves)



sexta-feira, 27 de julho de 2012

Dias amenos em tempos de Guerra

Me lembro da cor do seu cabelo
Lembro-me de quando éramos dois selvagens inocentes
Tiros de fogos reluzentes
Tão fortes, tão fracos (Não atingiam a gente)

Me lembro do seu sorriso, quando eu fazia algo idiota
Lembro-me da balada triste que soava como sinos do inferno em nossa mente
Peguei um sentimento emprestado com um agiota
Mas ele preferiu deixar-me seguir em frente

Me lembro do vestido que usou naquele dia cinzento
Lembro-me do que bebeu, sádico unguento
Paguei a conta e saí, deixando a porta aberta
Fotografei cada detalhe daquele último momento

Me lembro que seus olhos eram azuis docentes
Lembro-me da última parte de cada verso indecente
Escrevi algo no verso da conta e lhe entreguei
Assim como entreguei-lhe um coração inútil (Que hoje não bate mais)

Me lembro dos marginais nos seguindo pelas ruas escuras
Lembro-me do barulho da fábrica ao amanhecer
Fizemos algo juntos (Mas não sei o quê)
Hoje tenho a desolação do fim da tempestade turva

Me lembro do suspiro ao longo da noite cheia de estrelas
Lembro-me de apagar a chama da fogueira (E deitar-me sem sono)
Tempos como esse voltariam antes do fim
Livrariam-me do suposto abandono

(Edu Neves)


terça-feira, 24 de julho de 2012

Você Não Entendeu

Mrs. Anne, como poderia entender se até minha alma perdida e sufocada estava procurando uma sombra no deserto? (...)

Você não entendeu quando eu disse adeus pela última vez
Não entendeu que o abandono do sorriso tímido se desfez
Você não entendeu
Não entendeu, não enxergou quando o sol vermelho deitou sobre a vastidão alheia

Você não entendeu quando eu sorri quando deveria chorar
Não entendeu que as lágrimas haviam secado
Você não entendeu
Não entendeu, não olhou para trás quando deveria voltar

Você não entendeu que as cores tem vida própria
Não entendeu o quão cinza é a vida
Você não entendeu
Não entendeu, se sentia vermelha quando deveria estar triste (Blue)

Você não entendeu quando eu escolhi o amor bruto dos animais
Não entendeu que quando há verdade, a solidão se desfaz
Você não entendeu
Não entendeu, jogou, apostou, ganhou e desapareceu

Você não entendeu que quando alguém chora, é como se o mundo inteiro morresse um pouco
Não entendeu que o sangue tem a mesma cor em qualquer continente
Você não entendeu
Não entendeu, preferiu assim... Ser inocente

Você não entendeu que a métrica é um senso de estética que eu nunca segui
Não entendeu quando eu ao invés de beijá-la, quis fugir
Você não entendeu
Não entendeu, tomou todo mal e toda culpa para si

(Edu Neves)



sábado, 14 de julho de 2012

Pequeno Refúgio numa Cela

Garota pálida das madeixas em chamas
Fogo ardente que o Vaticano condenou
Sabe-se a mão, a mente e o corpo que ama
Requinte de crueldade da boca que beijou
Santo corpo decadente de labuta
Açoite nas costas do homem que pensa demais, que vê além
A criança assustada que virou puta
Coração terrível e destroçado de ninguém

Pobre garota pálida que se afogou nas margens de Sevilla
O que fizestes ao coração do padre justo?
Trocou a aliança da vida plena na ilha
Pelo insulto de um amor bruto
Comeu e deu de beber aos seres rastejantes da costa marítima
Bebeu na fonte que os negros ocultavam
Amou e gozou da fantasia do espírito são
Fugiu dos fracos de alma que lhe aprisionaram

Trancafiada, engavetou-se nos metros que lhe cobriam
Gritou em silêncio, seu despertar sombrio
Padre justo, me abre essa porta e livra-me da tirania!
Liberta, seu riso fez-se rio
Sua doença não tinha cura perante as mentes severas
Sua doença, aura que curava todos impunes platônicos
Não era doença, era cura fértil
Era do amor, Do amor e outros demônios*

(Edu Neves)

*Registro baseado na obra de Gabriel Garcia Marquez





terça-feira, 10 de julho de 2012

O Banquete dos Desolados

Cortou-lhe a mão com os olhos fustigados
Depois arremessou-a para fora da vista
Sua cólera ruiu com o último tratado
Quando seu carro-fantasma parou na pista

Tudo que era pecado, era divino
Ao que o divino, se fez profano
O glamour do ódio, seu inquilino
No castelo de 12.000 anos

Vida desgarrada e furiosa
Intensa foi a chuva que nos inundou
Amor, lágrimas e uma voz preciosa
Foi tudo o que escutou (mas se calou)

Oceano negro da costa oeste sobre nós
Areia vermelha com gotas de ácido
Vento furioso irrompendo veloz
Destruindo toda beleza do seu palácio

Prato vazio nas mãos cansadas do lavrador
Fome saciada, mente turva
A grande mentira do sexo sem amor
Assassinou uma vida nula

Terminou por conta da vontade
Amou de tal maneira, que morreu
Pagou um preço maldito pela lealdade
E hoje, enxerga luz no breu

(Edu Neves)


quinta-feira, 5 de julho de 2012

A Promessa do Corvo

O garoto nasceu em um quarto intempestivo
Ainda bebê, morreu 52 vezes
Bebeu da água purificada pela fé cega
E ganhou força no mar revoltoso

Corpo jovem e mente vanguardista
Classifica a dor como um sentimento purista
Sua guitarra é sua melhor analista
E com ela, tece seu show intimista

Começou a andar com um gângster alcoviteiro
Onde teve garotas pecaminosas em seu caminho torto
Onde teve contato direto com o poeta morto
Onde seguiu os passos da princesa pálida

E na quarta-feira cinzenta, um ladrão apareceu
Ameaçou a roubar-lhe a poesia intacta
Sua sorte foi Bárbara
Que apareceu vestida de verde e sem mágoas

(Edu Neves)




sábado, 30 de junho de 2012

Melodrama Particular

E assim aconteceu
De o vento chamá-la
Chamou-a com a graça dos palhaços brancos que me torturavam
Dias inacabados depois da grande festa
Sim, eu a vi, Melinda
Através da cortina de fumaça
Que pendia das bocas selvagens
Então o salão inteiro ficou mais denso
Mas os meus olhos, como o seu coração incauto, estavam abertos
Então eu parti
Não olhei para trás, mas via tudo
Tudo o que não via, eu vivia
E assim vivi, sem palavras
Sem a língua
Sem a garganta cruel de Melinda

(Edu Neves)


domingo, 24 de junho de 2012

O Trem da Ilusão

Sim, nós caminhamos pelas sinuosas falências triviais
Inundamos de ódio e desgosto o sonho do navegante
Poderíamos apagar a tatuagem em seu braço
Poderíamos não lembrar do rosto da amante

E os trilhos ganhariam vida própria
E jamais ficariam acorrentados no solo devastador
Voltaríamos para casa às três da manhã
Escutaríamos as máquinas roncando, sem nenhum pudor

Sim, você pegou a rota errada da última vez
Partiu desolada e sem itinerário
Arrastou consigo os presentes futuros
Colocou na bolsa de grife todas as mágoas do passado

Sim, eu andei com vagabundos no sub-solo da desolação
Estive com o chefe da corregedoria do paraíso
Participei das festas da alta classe
Enquanto, aos poucos, assassinava meu último sorriso

(Edu Neves)



segunda-feira, 18 de junho de 2012

Filosofia Barata

Boa noite, mundo cruel cheio de garras
Espero pela sua impiedade em meus pesadelos
Meu filme triste passa em sua tela atmosférica
Não tem final, só tem desejo

Rua agonizante e cheia de espinhos venenosos
Passa e corre entre meus dedos fartos
Recolho-me de vergonha e cansaço
Ao que vomito, quando sinto asco

Meu peito grita e descompassa
Minha voz silencia em meio a um fogo cruzado
Minhas mãos tocam o que não tem tato
Como um navio em desamparo

Medo sorrateiro arrombando a porta
Trancando a sobriedade no armário
Prendendo os detalhes na correnteza
E abandonando a perfeição da pureza

(Edu Neves)


Teorema

'' O bater das asas de uma borboleta pode gerar um tornado do outro lado mundo ''. (Teoria do Caos)

Quando se torna a comida de alguém
Na certa, esquecemos do gosto ácido do fel
Outra hora passa rápida e lancinante
Me emudeço com o gemido do alto-falante

Santos de causas possíveis
Desvendam mistérios insolúveis
Guardam os devaneios a sete chaves
E se tornam a razão de todos os males

Doze destinos diferentes em um copo de Gim
E a noite acaba, mesmo sem ter fim
O que faço comigo é problema do mundo
O que fazes comigo é um desgosto profundo

Na calada se toca um outro suspiro
Em seus gritos se ouve um lamento lívido
Somados um mais um
Resultam dois mil suplícios

(Edu Neves)


quarta-feira, 13 de junho de 2012

Garota de Júpiter

Sorriso malévolo no rosto
Anéis de Saturno nos dedos
Voz irritante
Que chega aos meus ouvidos primeiro

Peste bubônica da Via Láctea
Seu talento é dizer não
Tomou meu remédio por uma via ácida
E adormeceu no porão

Sobrevivente da Terra desalmada
Me acertou seus dardos venenosos
Bebeu minha Piña Colada
E acabou com meu ópio

Garota gelada e cheia de dramas
Faminta e sedenta
Faz um filme, tece a trama
E cria o clichê de 1950

(Edu Neves)


Baile de máscaras

Gostaria de dizer que o relato abaixo é fruto da minha mente lisérgica, mas não posso mentir...


No meio em que vivo os números sempre foram de suma importância. Seres nocivos que ignoram por completo a matemática, fazem uma questão absurda de contar as inúmeras vantagens bem vistas aos olhos do ímpio. ''Eles'' dizem que a família tem o dever de preparar o indivíduo para ser um cidadão de bem. Honestamente, considero tal afirmação uma baboseira hipócrita feita para manipular os fantoches desolados. E na verdade, eu já desconfiava disso aos dez anos de idade.
A minha aversão a qualquer tipo de autoridade se tornou evidente quando me dei conta de que estava a favor dos garotos famintos, em uma quarta-feira cinzenta com gosto amargo.
Dia que não esqueço. Me lembro do rosto da madre superior ao notar a presença das crianças fartas de léguas e sem nada no estômago. Talvez o Vaticano tenha ficado com medo de contrair lepra.
Não sei dizer o que houve com os garotos, pois nunca mais os vi. Não eram mesmo daqui. Sei que volta e meia, me pego pensando em onde estariam. Mas nunca é do jeito que deve ser. O contrário sempre ocorre.
No entanto, aposto a minha alma como o convento inteiro nem ao menos se lembra de tal fato. E se lembram, esquecem imediatamente ao sentirem o cheiro do vio metal da iniquidade que rompe e corrompe os fracos de alma.
Mas as festas continuam. Vícios e virtudes dançam valsa no salão da imoralidade encoberta pelo sorriso falso, mas convincente dos atores.

(Edu Neves)




sexta-feira, 8 de junho de 2012

38 Graus de Insanidade

Cinco horas da manhã, duas garrafas vazias
Ele acorda putrefato e atravessa a avenida
Bebe um café amargo como sua alma
Corre os dedos por sua pele queimada

Pele cheirando a absinto exalado
Corpo tremendo de calor enevoado
Onze horas da manhã, um tiro à queima roupa
Lavou os pratos e quebrou a louça

Sono instigante mal sonhado
Duas horas da tarde, uma fome inexistente
Uma boca que respira
Um coração que não mente

Água gelada nas calçadas sujas
Sol encoberto, penumbra
Cinco horas da tarde, vivendo como uma múmia
Hora de dizer para sempre, quase nunca

Sete horas da noite, um uivo ao longe
A metafísica do quando e onde
O logarítimo exato do abandono
Se deitou com sono

Beliscou o braço afim de acordar
Sem resposta, foi caminhar
Dez horas da noite, um desespero inebriante
Falou-lhe alto o silêncio gritante

Meia noite, uma febre lascívia
Amanhã é outro dia, outra vida
O segundo eterno passou por ele sem hesitar
É chegada a hora de calar

(Edu Neves)


sexta-feira, 25 de maio de 2012

O Reflexo da Luz Azul

Toca
O toque dos seus olhos na minha pele
Grita
Um silêncio que por dentro ferve

Ama
A pitada de dor no seu sorriso
Clama
Por um abrigo

Ouça
O som da sua voz chorando Jazz
Salte
De uma nebulosa à cem mil pés

Pegue
O seu amor da bela época vanguardista
Misture
Com o meu Groove setentista

Corra
Do ladrão que rouba a sua alegria
Beije (me)
Antes que termine o dia

Acenda
A chama que há muito se apagou
Guarde
Todos os sonhos (Mesmo os que não sonhou)

Ande
Sem pressa e com ternura
Beba
Da mística fonte, a água mais pura

Case
Com a última guitarra em chamas
Mude
De endereço; que tal Alabama?

Sonhe
Com a realidade abstrata
Corte
Todo mal, corte feito faca

Viva
O sonho que John deixou para trás

Uma chance a paz

Deixe
Que as horas falam por si
Dream
A little dream of me

Esteja
Perto e presente
Fique
No meu mundo estranho (Pra sempre)

(Edu Neves)


quarta-feira, 23 de maio de 2012

A Neblina de um Presságio


Somos o pó maciço que Deus soprou na lua
A verdade encoberta em cada rua
Somos a discórdia ambulante flutuando no espaço
Somos o mais temível breu de cada buraco

Somos o filho pródigo das mulheres queimadas
A interjeição no final da noite calada
Somos o amargo do fel na língua do dragão
Somos os braços estendidos da nação

Somos a incógnita do futuro promissor
Somos o sorriso amarelo disfarçando o horror
A luz no fim do túnel apagando
O cavaleiro andante fumando

Somos a existência em seu ápice
O vinho tinto escorrendo do cálice
A chama do pecado consumida
Todas as ilusões que foram perdidas

Somos a próxima curva na estrada sem luz
Somos o primeiro feeling do último Blues
Somos o nosso próprio filho louco
Somos muito, nada é pouco

Somos o ouro roubado do bandido
O último grito no infinito
A corda bamba do trapezista
Somos o resultado de alguma pesquisa ilícita

(Edu Neves)


terça-feira, 22 de maio de 2012

A Última Gueixa Iluminada

No toque dos olhos rasgados
Com seu movimento sugestivo
Atraiu o tigre branco com seu meio sorriso
E curtiu a dor embriagada de Cristo

Subiu a montanha elevada
Olhou da sacada do prédio e viu a onda que tudo encobria
Meu som, minhas rimas
Tudo fluía

Seus passos largos corriam em volta do oceano
Corriam para qualquer canto
Canto dos deuses pagãos
Dança de cigano

Atirou seu corpo frágil contra a fúria da tempestade
E apareceu do outro lado da cidade
Trazendo rosas vermelhas
Me deixando à vontade

Atravessou a avenida num tapete voador
Me emprestou seu cobertor e apagou as luzes
Se deitou ao meu lado e cantou
Cantos de outras vidas, outros amores; cantou quem sou

Me pintou de azul em sua tela imaculada
Me fez parecer anjo
Ilusões orientais
Mágica linguagem de sinais

Minha metáfora perfeita vive do outro lado do Rio
Maldito Rio que esconde cicatrizes em cada bar escuro
Breve e infinito é o Rio sem cor
Cinza pálido com necessidade de amor

Futuro imperfeito de cabelos lisos
Fotografia revelada do último lírio
Grande jogada sem o blefe mortal
A agonia silenciosa é um pecado capital

Futura esposa do imperador
Seus sonhos se tornam reais quando olha para o palhaço
O grande poeta do riso
Se aposentou e já não corre mais riscos

Na estrada mais uma vez
Em uma vida que não é normal pra vocês
Dedico essa canção assassinada
Para a última gueixa iluminada

(Edu Neves)

Fotografia: Vanessa





sábado, 19 de maio de 2012

Horário Nobre

Tv, eu te assisto
Ou é você que me vê?
Me olha com a sua boa memória, esperando...
Esperando por respostas
Tv, me coloca num filme caótico e ardiloso.
Selvagem e sádico é o pianista, dono do concerto que a gente paga pra sofrer.
Tv me mostra a borboleta flutuando em slow motion.
Entendo nada de tudo que é belo.
Sou o meu único pesadelo pintado de amarelo.
Tv me faz adormecer no castelo.
Deitam sobre mim as lágrimas do último verão.
Reine
Brilhe e comande
Mrs. Capuleto, não quero a sua mão.
Devolva o que é meu
Tv, me permita duvidar de você.
Me dê mais de uma opção
Mais de um coração
Me dê o mundo, devolva meu chão
Me dê tudo que não tenho em mãos
Tv, ninguém precisa sofrer
Basta não te ver

(Edu Neves)


From me to George

Hey, man.
Are you fine? Well, i hope you're happy there.
I'd really like to give you god news about us. But i can't lie.
Since you've been gone, the things don't changed too much.
People are still running so fast. Nobody can stop just for a second to see, to hear, to feel, to talk...
You know, people they talk, but most of the times, say's nothing at all.
You was right, when you says about the material world.
Today i can see that love is that peace on heart. But maybe, i never get knowed.
I like to think about you in a wonderful garden, playin' guitar and waiting for the sun.
Here comes... Remember?
Man, i wish you love. That underneath love you always got.
I hope the sweet Lord have been by your side.
At last, thank you so much for make me understand what something is.

(Edu Neves)


PS.: The World's pain ain't over. But all things must pass.


quarta-feira, 16 de maio de 2012

Izabella teve um sonho


Acordou no meio da noite com um suspiro ofegante.
Todo o seu desapontamento e desespero tinha passado por ela. Viajou pela sinuosa estrada de frenesi.
Procurou se lembrar do filme que assistiu enquanto dormia.
Aos poucos foi se lembrando do sonho de trás pra frente.
Havia encontrado seu homem. O bom ladrão que enfim lhe concedeu o poder da escolha. Coisa que na verdade, achava uma utopia desgraçada.
Já tinha visto esse homem pela avenida. Ele sempre trajava roupas vermelhas, o que tinha lhe chamado a atenção.
Tal homem também já tinha lhe visitado em sonhos. No entanto, nunca se lembrava do enredo.
Organizou os papéis e se pôs a escrever. Procurou se concetrar mais no cenário do que nos detalhes.
Noite fria com a lua vermelha. Nuvens espalhadas, e árvores que tomavam formas estranhas. Notou que não havia sombras, nem ruídos.
Caminhou pelo bosque com certo descompasso. Sentiu sede e bebeu a água do riacho enevoado.
Um tigre faminto se aproximou e ela sentiu a sua dor. Os olhos verdes e redondos lhe encaravam com dor. O pobre diabo não comia há dias.
Logo, o medo se fez presente e ela sentiu que sua vida dependia totalmente da boa vontade do enorme felino à sua frente.
Não havia ninguém por perto. Só a noite, a lua vermelha, o bicho feroz e ela.
Uma completa sensação de impotência a fez se manter inerte. Notou que a pata do tigre era do tamanho de seu braço e bastaria um ataque para que o sonho acabasse com uma dose de morfina.
O animal se aproximou, mas ela hesitou em correr. Talvez isso seria um convite para as garras do monstro.
Havia quase que perdido os sentidos, quando o animal finalmente parou a dois metros de distância.
Então ouviu passos. Passos humanos. Raramente outra pessoa invadia seus sonhos pela porta da frente.
Era o seu homem. Seu salvador de roupas vermelhas em cima de um cavalo branco com asas.
Ergueu sua lança e o tigre lhe fitou diretamente nos olhos. Rangeu os dentes e caminhou lentamente para a direção contrária.
O homem de vermelho ficou satisfeito por não ter que matar o tigre. Isso realmente lhe deixava feliz.
Desceu do cavalo alado e segurou as mãos dela. Mãos que tremiam de medo e surpresa.
Lhe disse para não temer. Tudo iria ficar bem novamente e voltariam pra casa. Ela sorriu sem sentir e abraçou seu homem.
No caminho de volta, encontraram um bruxo que usava um colar cheio de dentes. Ele disse que o bosque tinha vida e vontade próprias, e talvez não os deixariam partir sem uma barganha.
O homem de vermelho o questionou a respeito do dono daquilo tudo e o bruxo riu com seus dentes dourados. O bosque era selvagem e não tinha dono.
Então, sentiu medo outra vez e gritou. Gritou e despertou. Despertou com a sensação de que ficara aprisionada no bosque. Algo seu ainda estava lá. Mas dessa vez, achou a vida real um refúgio mais confortável.
Pensou no bruxo e achou que poderia ser fruto da ditadura pela qual foi submetida na infância. E o bosque talvez fosse o vale das sombras.
Quanto ao homem de vermelho, esse sempre reaparece em seus sonhos. Já não tem mais o cavalo alado, nem a lança. Tudo o que tem agora é a confusão causada pelo bosque noturno.
Talvez tenha ficado louco. Ela o abandonou. Desejou voltar atrás e ficar perdida no bosque com seu salvador para sempre.
Pois o poder do amor iria se sobrepor a escuridão do bosque.
Izabella hoje sofre de insônia e sente saudade do tempo em que sonhava.

(Edu Neves)


sexta-feira, 11 de maio de 2012

O Paraíso Distante (So far away Mary)

Termino onde começo, quase sempre
Lágrimas caem
Inutilmente
Onde o paraíso é surpreendente

É um lugar onde nenhuma agulha pode te ferir
Um lugar onde você pode sorrir
Um pequeno lugar
Onde o amor pode existir

Volto pro fim, sem me dar conta do início
Procuro um suplício
E acho um enguiço
No fim de cada avenida sempre há um rodízio (De pizza?)

Continuo a sonhar
A boneca ganhou vida e vai me ensinar a dançar
Os anjos noturnos vão comemorar
E nenhuma orquídea vai chorar

(Edu Neves)








terça-feira, 8 de maio de 2012

A Última Estrofe

Cantei a última estrofe
Do último verso
Da última canção que jamais escrevi
Deixe a porta do acaso entreaberta
E fui surpreendido pelo descaso
Adormeci em pontes que ninguém atravessou
Acordei num vilarejo de pescadores
Onde alguém me matou
Ouvi o choro do nosso órfão
Que segurava um revólver, enquanto dançava sua valsa solitária
Toquei o piano em chamas incendiado por uma freira
Vesti o turbante negro da mulher sorrateira
Tive cem mil filhos em um único sonho
Dei asas a serpente desalmada e fui atacado por ursos famintos
Atravessei dois oceanos morrendo de sede
Enterrei os ossos do índio que salvou a minha vida
Procurei o gerador no bairro onde nasci
E só encontrei a lua pálida dos santos espalhados por todos os cantos da rua
Acreditei em mentiras que me levaram aos divãs mais gelados
Das cidades mais quentes do país
Desconfiei das verdades que dariam fim a minha busca incessante
Pelo diamante bruto escondido no peito de uma alma perdida
Meus passos sem direção me conduziram a esse vagão
Que ruma para baixo, abaixo do mais profundo sul
Acima de qualquer céu azul
E dentro de tudo que é Blue
Eles tentaram me roubar
Os parasitas burocráticos e suas amantes bem vestidas
Irão queimar
Como eu
Mas nem todo fogo arde
Que haja justiça em Marte

(Edu Neves)




Quando a chave não abre a porta (O prefixo do Abandono)

Saímos de noite e não havia nada na esquina
Nem começo havia
Saímos do meio da rua escura e seguimos (como fantasmas), pra onde a história termina

A garota de marfim nos acenou atrás da vitrine luminosa
Estaríamos a salvo
Depois de engolir a última gota de pecado com soda

Forte é a chuva que despenca no deserto das tentações
Forte é o sol nos olhos do príncipe cego
Queimando suas ilusões

Fomos pra casa de baixo de sol e chuva
Sem arco-íris
Eu, Sonny e Ísis

Bares fechados e portas abertas
Mente turva e coração vazio (lindos campos noturnos)
Mil corações partidos em uma festa

Nenhum roubo aconteceu, não nos levaram nada
Hálito quente no breu
Motim de emoções na calçada

Tremendo de frio, fechamos nossos olhos
Eu, Sonny e Ísis
Morremos lentamente e acordamos invisíveis (sem cicatrizes)

(Edu Neves)

She says i don't belong this World

She told me about secrets of the hill
The secrets around the ground
When i'm groping on the dark side of the road, i remember that
But that won't help us...
Then i told her my ilusions, all that i always got to hide
It wasn't a great performer, but she says i don't belong this world
So i'm gonna kill myself someday after while, when they will be sorry
Tonight i'll take my burden and play with fire, just like a puppet
When my lonesome death is finally comin', i'll remember what she says
So long, Fascist Market's Life...
There's some highway to hide...

(Edu Neves)



terça-feira, 1 de maio de 2012

Selva de Anjos

Eu tenho caminhado noites à fio
Encontrei espinhos e fadas delirantes
Encontrei serpentes e duendes gigantes

Avistei a enorme nuvem carregada de munição
Ginsberg me injetou morfina
Me livrando da maldita sina (que nunca termina)

Carrego a bagagem de um cego
E me encontro com as almas no porão
Não temo o deserto, temo sua imensidão

Tenho caminhado nos trilhos (errados)
Para ver Marianne
Mas o vento do oeste selvagem a levou e me tornei errante

Tornei a me encontrar com a cigana
Me mostrou que do lado de dentro, tudo é lindo
Então, me tornei índio

Visitei a cidade alucinante
L.A. é um lamento de solidão gritante
Mas o lamento se tornou constante

Encontrei todo tipo de gente
Corri todo tipo de risco
Comi lagosta no Carnegie Hall, bebi Vodka do lixo

O vendedor de ilusões me fez um preço justo (não posso reclamar)
Minha alma perdida em troca de prazer
Hoje, o trago amargo é meu único lazer

Volto a dormir
Métrica simbolista de um sonho
Aguardo...
Espero...
Pelo chamado (do décimo oitavo anjo)

(Edu Neves)

Pequenos Leões

Pequenas feras com pupilas dilatadas
Criaturas da noite, das telhas
Apetite voraz contra a hipocrisia sagrada da óstia
Suas vítimas são os infiltrados, semeadores da discórdia

Chegam sorrateiros
Se lavam e deitam no seu travesseiro
Dormem com os olhos abertos
Um sono que nenhum ladrão pode roubar

Desperta de um sonho reluzente
Se estica e se manda
Já está em outra cidade à procura de comida, abrigo e canções

Pequeno leão negro
Trouxe a cadência do samba em forma de asas
Pequeno anjo de quatro patas

(Edu Neves)

[Poema dedicado com todo o meu amor ao Gil, o gato]

sábado, 28 de abril de 2012

Ilusão protagonista, Morte coadjuvante

Olhei lá de cima
Estive por toda parte procurando as rimas
Olhei em volta e vi o inferno
Brasa quente do inverno

O assassino faz a sua última ronda
Enquanto os russos lançam a primeira bomba
A bomba explode no chão da realidade
E sangra o coração da santíssima trindade

Bebi o absinto amargurado da noite passada
E esqueci-me da ilusão, com a cara lavada
O sorriso da serpente ainda está presente
Presença ausente, jardim sem semente

Essa é a última valsa, o último sonho
Não sei dançar, mas abraço o infinito
O que ontem era bemol
Hoje é sustenido

Silêncio
Grito
Amor mal escrito

(Edu Neves)

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Era uma vez... (Eu, um caminho torto e você)

Quando a rosa branca desabrochou
Sua maçã corou
Evitei olhar, tentei fugir do assunto
Inevitável é não invadir seu mundo

Dispenso aquela entrada triunfal
Pode ser pela porta dos fundos
Talvez ela me deixe brincar no quintal
Talvez pendure meu coração no varal

Quero tragar sua dor
E provar seu néctar
Sentir teu corpo, sentir calor
Tocar suas pétalas

Pegar carona nas suas asas
Sentir o vento no rosto
Tornar qualquer caminho bom
Um caminho torto

Jogar os dados, ser a bola da vez
Ter sua pele alva, seus olhos e sua blusa xadrez
Comer chocolate
Ter uma overdose de vida (Antes que seja tarde)

A semente deixei no jardim
Irá crescer
Começo sem fim
Sem ilusão, com pedaços de mim

Prenda-me uma vez
Não importa onde
É capaz de me amar?
Just once...

(Edu Neves)

*Dedicado à Rosa Branca dos anos 80 (Um momento de glória é capaz de dar sentido a uma vida inteira)




domingo, 15 de abril de 2012

Delirantes Formas de Amar

Sem razão, te condeno à morte
Misturo os remédios com o ópio, sem ódio
Minha alquimia não presta
Nessa vida ninguém presta
Queria só o seu amor, me empresta?

Faça festa quando eu voltar da guerra
É bom te ver de novo
Tomar sorvete de côco
Beijar seus olhos castanhos
E te amar de um jeito estranho

Não diga palavras em vão
Confie no seu homem
Nunca diga não
Lhe estenda as mãos
Façam juntos uma nação

Olhe pra dentro, mas continue viva
Durma o sono dos injustos
Acorde e beba um trago
Faça o que for do seu agrado
Prometo não chegar atrasado

Fique comigo e durma um sono abafado
Veja se tem alguém do lado
Pode ser o diabo
Pode ser o seu gato
Nosso amor não tem contrato

(Edu Neves)

Alone (O Deserto das Rosas)

Pedro sonhou com a redenção de Gomorra
E acordou sozinho no cativeiro

Laura sonhou com o cavalo de Ogum
E acordou sozinha no terreiro

João sonhou com a mordida da serpente
Acordou sozinho e sem os dentes

Luíza sonhou com seu irmão
Acordou sozinha e chorando no porão

Léo sonhou que podia voar
Acordou sozinho e sem lar

Clara sonhou com o cometa Halley
Acordou sozinha e sem luz no vale

Beto sonhou com a garota dos seus sonhos
Acordou sozinho e sem nenhum bônus

Bella sonhou que era feia
Acordou sozinha e sem sangue nas veias

Eu sonhei que sabia de tudo
Acordei sozinho e largado no mundo

Eu sonhei que estava sozinho
Abri os olhos e tinha alguém sorrindo

Você sonhou que estava comigo
Acordou sozinha e sentindo frio

Você sonhou com o deserto das rosas
Nunca mais acordou, mas abriu a porta

(Edu Neves)

sábado, 14 de abril de 2012

That Something

She was a Queen in my Old Dream
Walkin' trough the Naked Island
Searchin' for a Lost Angel
She got to answer my little down scream

I got a key to the Door
Running over again
It's the same fuckin' situation
Nobody's can help the poor boy

The Devil's sitting on my gold chair
Watchin' my TV and Smokin'
I'm very stranger and Sad
I hope you save me from that Hell

So you're coming with that something
That something i don't know what it is
But i know there is
Lord, have mercy on me

Bring me my Wine
With that something on my glass
Bring me your heart
With that something in your Mind

(Edu Neves)


PS.: Poema dedicado à Lu. Valeu pela deixa, garota má.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Amadores

Os lábios de Fel voltaram a sorrir
As mãos macias voltaram a pintar o Danúbio Azul
Os pés descalços voltaram a caminhar sob a areia quente do Saara
O rosto pálido voltou a corar
O coração voltou a bater
Os olhos voltaram a brilhar
As flores voltaram a brotar
A engrenagem voltou a funcionar
A trilha voltou a ser composta
Os corpos voltaram a minar vinho tinto

Os lábios de Fel me mordem agora
As mãos se tornaram um açoite
Os pés calejados estão gostando de andar a noite
O rosto está desfeito
O coração agora está em choque
Os olhos não veem mais nada além do corpo
As flores estão morrendo aos poucos
A engrenagem perdeu a razão
A trilha foi apagada
Os corpos cessaram no fim da noite

Os corpos estão quentes agora
A trilha é o lamento da Lucille
A engrenagem está mais leve
As flores estão ficando azuis
Os olhos estão vendo através da parede
O coração bate no peito e grita
O rosto não é mais a máscara de prata
Os pés agora usam All Star
As mãos são de veludo
Os lábios estão cobertos de mel

Os corpos estão saciados
A trilha agora é um caminho
A engrenagem é a hemorragia cálida
As flores estão mais vivas que os cães
Os olhos não choram mais
O coração vai saltar da ponte
O rosto se ilumina com o Sol nascente
Os pés estão no chão de algodão
As mãos se estendem sob a neve vermelha
Os lábios disseram que o amor é coisa de amadores

(Edu Neves)


sábado, 7 de abril de 2012

Sob os Trilhos do Novo Aeon

Qual é a graça de estar no apogeu
Sem alguém com a mesma metafísica que eu?
Sem o olhar vago nas nuvens negras
Com o machado cravado na madeira

Quero sair daqui e ir pra qualquer canto
Talvez eu roube um banco
Ou talvez fique louco de amor
Somos coadjuvantes nesse longa de terror

Os pensamentos continuam tortos
O viajante de tanto haxixe, ficou louco
Continuo vivendo sem razão
Mas a nova era já apontou na próxima estação

No mundo novo os fantoches irão ganhar vida
A linha é fraca e vai ceder
Não se lembrarão do que comeram ontem
E pela manhã, terão as manchetes pra comer

Garoto, você tem que ser forte
Puxe o gatilho e use a sua camisa da sorte
Erga a sua espada e grite bem alto
Toque um Blues que possa derrubar o planalto

(Edu Neves)

De agora em Diante, é um Bilhete só de Ida

Chegou no lugar certo, mas na hora errada
O paraíso distante estava coberto de neve
Chorou as lágrimas da enseada
Depois vestiu sua segunda pele

Ganhou o prêmio de um milhão
Mas sua reputação não estava boa
É difícil acertar na loteria da ilusão
Mais fácil amar que trair a outra

Comeu a Santa Ceia e foi embora
Como Judas, foi a carta marcada do Senhor
Podia ter passado lá outra hora
Mas sua cara estava um horror

Voltou sem o coração
Com o peito vazio, voltou para a cela
Fecharam as cortinas do galpão
E apagaram as velas

Queria rever a garota bonita
A mesma que ficou com o seu coração
Mas só lhe restava um bilhete de ida
Então decidiu ficar no rancho com os anjos da evolução

(Edu Neves)


terça-feira, 3 de abril de 2012

Capitão América

Pensou consigo mesmo que talvez poderia sair dali. Reverter o quadro.
Seu amigo selvagem que sempre o acompanhava, concordou com certa animosidade misturada com uma euforia dilascerante.
Não estavam bem onde estavam, e decidiram rumar para a fronteira. Chegando lá, foram à procura do patrão. Avistaram um homem corado e de barba rente. Tirou o chapéu e os cumprimentou gentilmente, abrindo a pasta. O Capitão tirou um maço de dólares do bolso esquerdo e entregou ao mexicano. Depois foram para o carro alugado e conversaram por alguns instantes. O Selvagem sempre sorrindo e animado. Tinha planos de ficar rico, enquanto o Capitão pensava através de outra perspectiva. Bulinaram o conteúdo da pasta com misturas improváveis e transformaram em dinheiro. Com o dinheiro, compraram dois cavalos de aço e se mandaram para o coração dos EUA.
A cidade fantasma era uma colônia de hipocrisia. Caipiras bêbados para qualquer lado que se olhava. Uma gente realmente sem escrúpulos e com a ganância das grandes metrópoles, o que era de certa forma cômico ao primeiro olhar.
Estacionaram os cavalos sem asas e entraram num bar que de tão iluminado parecia uma UTI. Pediram cigarros e duas tequilas, enquanto os provincianos os fitavam de maneira hostil. Nada comentaram, beberam e seguiram viagem. O sol os estava castigando, então decidiram parar para descasarem em uma sombra. Notaram que ali perto, havia uma espécie de rancho. Logo o dono do terreno veio ao portão de madeira podre e os recebeu, dando as boas vindas e perguntado se queriam alguma coisa para beber. Eles estavam com fome até demais. O fazendeiro morava no rancho com sua esposa e duas filhas. Uma família notavelmente católica, que vivia do próprio cultivo. Os animais passeavam livremente pelo curral, que tinha ficado pronto dias antes. Sentaram na mesa com todos. O Selvagem não esperou as preces e logo tratou de comer a galinha cozida que a mulher do fazendeiro havia preparado. Conversaram sobre o governo e de quanto conseguem ganhar por dia naquelas bandas. Aquela refeição tinha sido um grande alívio para o Capitão e seu companheiro Selvagem. Mas a viagem teria que continuar. Pegaram novamente a estrada torta e quando ia anoitecendo, um homem com roupas rasgadas na beira da pista pedia carona. Perece que era o dia de sorte do pobre diabo. Como recompensa, os levou a comunidade da qual era membro. Um vilarejo simples com cabanas adptadas e cheio de gente. Havia famílias inteiras ali. Finalmente conseguiram dormir e acordaram com o coração saudosista no outro dia.
Por intermédio de Deus conseguiram chegar ao destino, onde logo foram detidos por participarem de uma passeata que estava acontecendo na hora errada. Ficaram um em cada cela, e em uma terceira cela, havia outro homem. Tipicamente americano e visivelmente embriagado. Começaram a falar sobre crimes passionais e descobriram que o sujeito era advogado e estava apenas tirando um cochilo na cela. Logo depois,  os três e saíram dalí o mais rápido possível. Iria anoitecer em breve e decidiram que era hora de uma parada. A terra era linda e vermelha como um canyon, só que havia vegetação. Se deitaram no chão fértil e tragaram a mais pura Marijuana que jamais existiu. Enquanto dormiam, os nativos assassinaram o advogado na calada da noite. Os dois viajantes gritaram por socorro e depois pensaram que aquilo era um aviso prévio. Capitão América não sabia o que dizer, sua mente estava em estado de caos contínuo. Saíram dali e foram para a cidade. Pararam em frente a um cabaré vermelho, onde havia um cego tocando Blues na calçada. Colocaram cinquenta dólares no chapéu do homem e entraram no recinto. A recepção foi pouco calorosa. Garotas jovens, bonitas e pálidas ofereciam seus dotes e suas bebidas aos dois viajantes. Entraram em uma sala e ficaram os quatro ali. Conversaram bastante tempo, mas o Capitão não conseguia tirar o advogado de sua cabeça. O dia estava caloroso, então saíram e foram tomar banho no riacho que ficava ali perto. O Selvagem estava realmente gostando daquilo. Era a primeira vez que Lucy in the Sky adentrava em seu sistema.
Voltaram para o quarto sem muitas pretenções e dormiram. Capitão notou que já passava da hora de deixarem aquele lugar, embora as garotas tenham adorado a companhia dos dois. Foram para a Costa Leste e conseguiram achar um terreno indígena, onde talvez poderiam dormir e descansar. O Selvagem estava contente com a situação, dizendo que estava rico e que agora era livre. O Capitão discordava e apenas achou que haviam estragado tudo.
O sol nasceu, apesar de tudo e os dois já estavam na estrada. Estrada sinuosa e triste. Solitária. Depararam com um caminhão pequeno em que um caipira fazia caretas e buzinava. O Selvagem fez um sinal obsceno para o caminhoneiro e seguiu sem dizer uma palavra. O caminhoneiro pegou sua braçadeira de fogo e disparou contra o Selvagem que caiu de sua moto e ficou estendido na beira da pista. O Capitão ouviu o disparo e mesmo estando bem a frente, retornou. Olhou nos olhos do companheiro e disse que voltaria com ajuda. Partiu em direção contrária, mas o caminhão havia manobrado e vinha em sua direção. Outro disparo. Última explosão...

All he wanted, was to be free... (Ballad of Easy Rider)

(Edu Neves)

domingo, 1 de abril de 2012

Exílio

Quem dera se Gil fosse o Tom que Chico experimentou
Bethânia iria caetanear o dia inteiro
Estava na Tonga da Mironga, mas Vininha me expulsou
As águas de março caíram em janeiro

Lembrei do Milton esquecendo
Esqueci do absinto que Ney me serviu
Entrei de fato no sonho que estava vivendo
E mandei Médici pra puta que pariu

Noel tossiu e riu
Bebeu de galope
Zé Geraldo nem viu
Que o cidadão teve sorte

Virei mutante pra ganhar a Rita
Ela não quis bailar comigo
Então lhe paguei uma birita
E fomos à procura de abrigo

Me escondi no bolso de Pixinguinha
Ninguém notou
Cartola tirou o espinho da rosa
E com muita galhardia, me espetou

Saí da birosca e fui pra casa
Cavaleiro andante em direção ao caos
A chuva caiu e eu sem capa
Caminhando numa viela atemporal

(Edu Neves)


quinta-feira, 29 de março de 2012

O Camaleão Sulista

Chegou e parou na minha frente cruzando os braços
Chapéu branco com uma pena verde e badulaques
Disse-me algo inteligível, mas era amável
Apenas me acenou, mas a sensação foi agradável

Olhou para os meus sapatos e se espantou
Estavam sujos de lama
Deitei na cama flutuante que me arrumou
E adormeci sonhando com a fama

Teu coração cabia o mundo e ainda sobrava espaço
Espaço sideral com estrelas cadentes pedindo carona
Chorei, fiquei ''Down'' e abracei o abraço
Depois lhe fiz um poeminha cafona

Coloquei uma rosa azul no seu cabelo
E então o Sol bateu a rosa ficou vermelha
Me ocorreu passar pelo caminho do meio
Mas fui impedido pela sua centelha

Na sua terra faz frio, mas seu coração está em chamas
Qualquer dia desses, me empresta o seu cobertor
Quem sabe até dou sorte, e dirás que me ama
Nunca saberei em que diabos pensas quando pensas na minha dor

Tem umas coisinhas que eu sei
Seu cabelo é amarelo, teu braço é forte
Tuas mãos são bonitas; e nem citei o decote!
Case-se com o Jokerman, mas me deixe ser o mascote

(Edu Neves)

*Dedicado à guria mais cool do Planeta B-612

segunda-feira, 19 de março de 2012

O Herói da Classe Operária

Tonho chegou ao trabalho lá pelas seis e tantas.
Olhou para os dois lados e não viu ninguém no enorme galpão. Sentiu que havia algo diferente. A atmosfera hostil lhe despertou os instintos de defesa. Jamais havia se atrasado. Jamais ganhou um dia no banco de sangue.
Tirou o velho relógio do bolso e notou que na verdade, tinha chegado muito cedo.
Aos poucos o pessoal foi chegando e dizendo para Tonho os resultados dos jogos daquele dia. Tonho fez uma careta e seus companheiros riram e foram abraçá-lo.
Logo os motores começaram a roncar e Tonho se dirigiu para o seu local de costume. Notou que o nível do líquido púrpuro estava bem abaixo do que costumava ficar.
Duas horas depois (ou meia hora depois), o Cachorro Negro chegou ao recinto impondo ordens a todos e xingando Tonho aos quatro ventos.
Ninguém jamais havia entendido o motivo de o Patrão ter colocado o Cachorro Negro para nos morder o calcanhar por toda madrugada. No entanto, ninguém contestava. Talvez pelo medo de perder a vaga no céu ou no inferno, não importa.
A hora do almoço se fez presente e Tonho sentou-se na borda de concreto para colocar algo sólido no estômago. Comeu feito um porco e depois bebeu sua água. Ainda lhe restavam alguns minutos, então foi para a portaria afim de trocar um dedo de prosa com o guarda noturno, um índio que se comportava como se estivesse em Los Angeles. O Cachorro Negro o viu e o chamou. Tonho achou estranho, mas foi ao seu encontro.O Cão latiu alguns xingamentos e depois lhe deu um abraço. Tonho jamais entendeu o Cachorro Negro. Ele era assim. Uma mão que afaga a arma que atira.
No dia seguinte, Tonho ficou sabendo por intermédio de seus companheiros que cometeu uma falha. Uma falha devido ao nível de líquido púrpuro que deveria estar no lugar certo. Isso gerou uma série de ''grandes'' problemas para a empresa e diziam que o Cachorro Negro estava louco e que iria comer o fígado de Tonho.
Tonho não tentou se esquivar do animal faminto e continuou fazendo o seu trabalho. Os gritos do animal feroz eram tão insuportáveis que Tonho se enganou novamente, quando deixou que o carrinho amarelo ficasse sem o bendito díesel necessário.
O Cachorro Louco viu aquilo como um prato cheio e mordeu Tonho mais uma vez lhe jogando pragas e devorando seus pensamentos.
Aquela noite finalmente tinha chegado ao fim, pensou Tonho. Quando estava deixando o enorme Galpão, Tonho praguejou violentamente contra o Cachorro ditador. Fez o que ninguém jamais teve coragem de fazer. O Cachorro milagrosamente não rebateu, apenas riu. Uma risada estranha, mas riu alto.
Tonho foi afastado apenas para saber quem é o ''Chefe'', mas seus companheiros estavam com ele e lhe prestaram homenagens. Uns diziam que Tonho tinha um Feeling que ninguém mais tinha. Uma espécie de carisma. Outros diziam que era um garoto idiota e burro por encarar o Cachorro Louco.
Mas todos concordam em um ponto. Tonho foi a voz que eles queriam ter. Ao menos naquela madrugada.
O que aconteceu com Tonho depois daquela noite, ninguém jamais soube. No entanto, sempre que lembram de Tonho, a sombra de um sorriso aparece no rosto de cada um.

(Edu Neves)


sexta-feira, 2 de março de 2012

Outono

Céu cor de malte
Me matou com suas nuvens negras
Trabalhei até mais tarde
E renasci depois da bebedeira

Mar de gente caótico
Me apareceu como ilusão de óptica
Destilei todo meu ódio
Depois tranquei a porta

Escutei Lennon cantando
Tomorrow never knows
Estaria ele morrendo?
Ou continuaria com o show?

Depois disso, o amanhã se tornou distante
O clima se tornou um pouco tenso
Bob Dylan me olhava da estante
Então tive que usar o bom senso

Peguei a última garrafa de Jim Morrison
Traguei até a última gota
Adormeci e sonhei com Hendrix
Me dizendo para sair da bolha

Acordei e me levantei da cama dura
Janis sopraria em meus ouvidos mais tarde
Enquanto me confundia com a névoa púrpura
Tente, garoto. Just a little bit harder.

(Edu Neves)