segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Em Memória Dos Que Não Tem Memória

Vocês não se lembram
Dos profetas que matamos
Ao longo dos anos...
Não se lembram de seus átomos

Vocês não se lembram
Do viajante solitário
Que nos pediu carona...
Não se lembram dos seus sapatos

Vocês não se lembram
Do vento selvagem
Que soprou uma canção em nossos ouvidos...
Não se lembram dos nossos sorrisos

Vocês não se lembram
Da época da inocência
Que nos foi roubada...
Não se lembram do reflexo na água

Vocês não se lembram
Do fio da navalha
Em nossa pele fria...
Não se lembram desse dia

Vocês não se lembram
Do contrabandista mexicano
Que nos vendeu ilusões perdidas...
Não se lembram da nossa hemorragia

Vocês não se lembram
Do vinho que nos foi prometido
Do milagre do pão...
Não se lembram de trancar o portão

Vocês não se lembram
Que o plano era perfeito
Até o dia em que o colocamos em prática...
Não se lembram da nossa tática

Vocês não se lembram
Dos conselhos do mestre
Mestre morto vale mais...
Não se lembram de deixá-lo em paz

Vocês não se lembram
Do ganhador da última loteria
Morreu de overdose...
Não se lembram de sua posse

Vocês não se lembram
Da dor que a gente sentiu
Quando nos negaram água...
Não se lembram de nada

(Edu Neves)


sábado, 14 de janeiro de 2012

Black Magic Woman

Era uma tarde quente e Charlie havia se mandado.
Vagou pelas ruas por horas à fio e não lhe vinha ninguém a mente.
Tinha que se abrigar em algum recinto.
Na mochila, algumas roupas amarrotadas e no bolso, uns trocados.
O calor intenso logo deu lugar a noite escura e fria.
Então Charlie subiu a colina se esquivando dos obstáculos que a natureza lhe colocava à frente.
Olhou em volta e não viu nada. Algumas luzes, provavelmente vindas de casebres que se camuflavam dentro da mata.
Podia ouvir o barulho animalesco das criaturas noturnas, mas aquilo não o intimidava.
Pelo contrário, se sentia à vontade em tal circunstância.
Porém o medo de não mais conseguir encontrar o caminho de volta logo penetrou sua alma.
Sentou-se num tronco de árvore que havia sido derrubada e fumou seu cigarro, um tanto quanto inquieto.
Ouviu mais uma vez o som dos animais rastejantes e no entanto, continuou ali perdido em pensamentos inconstantes.
E então se lembrou dos tempos de menino. Tempo em que sofreu o mais exacerbado preconceito sem ao menos se dar conta disso na época.
Se lembrou da carteira da sala de aula. Se lembrou dos risos dos ratos ao lhe fitarem.
Se lembrou do soco que havia levado da Força Verde em sua infância.
À essa altura, com a fome e a sede, já raciocinava de maneira ilógica. A lua cheia iluminava a mata densa e misteriosa.
Sua vontade era simplesmente partir dali. Mas algo o segurava. Talvez sua própria mente. Jamais se soube.
Finalmente consegiu vencer a colina íngreme e chegou a uma plataforma pavimentada.
O vento frio lhe cortava os pensamentos agora. As luzes dos postes lhe davam náuseas.
Ouvia passos, mas não via ninguém.
Então, um gato se aproximou. Era exatamente uma miniatura de tigre glacial, pensou.
O felino o olhava como se pudesse ler seus pensamentos. E permanecia inerte.
Ouviu novamente os passos atrás de si e se virou, mas não havia ninguém. Olhou em frente, se voltando, mas o gato não estava mais lá.
Então decidiu seguir os veios do asfalto.
Avistou uma pequena casa velha. Decidiu se fazer presente e procurou um sinal de vida na casa.
Notou que uma luz fraca vinha do quarto dos fundos.
Tocou a campainha estridente e aguardou.
Logo a dona da casinha veio lhe receber.
Uma senhora negra com os cabelos de prata que lhe recebeu com o sorriso mais sincero que alguém já havia lhe dado.
Charlie então, entrou sem tirar os sapatos sujos de lama e mato.
A mulher então pegou as mãos de Charlie e sorriu. Lhe fez um chá bem quente e lhe contou sobre a oitava estrela e a Via Láctea.
Charlie não via sentido naquilo a princípio. Mas ela continuou. Lhe explicou que aquele lugar era exatamente o lugar onde ele devia estar naquele momento.
Algo o havia levado até ali. Ela lhe contou que não era nenhuma surpresa. Pois já sabia o que ia acontecer.
Charlie logo adormeceu com as mantas que a mulher lhe havia cedido.
Dormiu pesadamente a noite inteira. Não sonhou com nada. Simplesmente dormiu profundamente.
No dia seguinte, levantou-se e se serviu de outro chá que a mulher lhe preparou.
Sentou-se no sofá e olhou para as paredes manchadas e notou a forma de uma entidade estampada em uma delas.
Se despediu da mulher, afetuosamente e voltou.
Jamais alguém lhe tinha dito coisas semelhantes e Charlie se acalmou no caminho.
Com o dia claro, a mata já não era tão assustadora e havia um silêncio ensurdecedor.
Nunca mais tornou a ver o gato. Talvez o gato nunca existiu.
Charlie nunca soube o que a mulher havia feito, mas podia jurar que um novo espírito habitava sua armadura.
Os olhos de Charlie agora voltaram a brilhar e a segunda-feira se tornou mais suportável.

(Edu Neves)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Prelúdio de um Serial Killer

O homem vestido de negro se aproxima
Abre os portais com um grampo afiado
Invade seu paraíso particular
Com o exclusivo intuito de matar

Seu pagamento já foi extraído
Sua garantia antecipada
Rastros de sangue no chão
Se confundem com passos na escada

É alta madrugada e os animais dormem tranquilos
Nem no sonho mais lúcido imaginam
Que há uma treva à espreita
Louca para tornar o sono infinito

As luvas de couro protegem as digitais
Com os olhos de raio-x, avista Madame X em seu leito
Sua presa está pálida e nua
Faça bom proveito

O punhal de prata perfura o corpo da mulher
O sangue jorra em sua fronte
Ouve-se um trompete alucinado
Som que vem de onde?

Se vira e desce a escadaria da mansão
Despeja no cálice uma bebida azul
Antes de partir, um simbólico troféu
Tomou para si o Birth of The Cool

(Edu Neves)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Um Homem Sem Nome

Era conhecido como Bad.
Famoso, não pelo charme ou coisa que o valha, mas pelas canções que destilavam as dores do oeste selvagem. Colete de couro, badulaques, um crucifixo e seu chapéu desbotado.
Aconteceu de estar no lugar errado, mas na hora propícia. Desceu do cavalo, lhe afagou a fronte e lhe deu água.
Entrou no porão e sentou-se diante da jovem que segurava o pequeno gravador portátil, enquanto fazia algumas anotações num caderninho azul.
- Boa noite, Bad. Que bom que está aqui. Você relutou um pouco no início...
- Vamos logo com isso. Interrompeu Bad, abruptamente.
- Nunca soubemos o seu nome verdadeiro. Não acha que seus fãs mereciam saber?
- Sou Bad. Quando o bom Deus me levar, meu nome estará em minha lápide. Até lá, continuarei sendo Bad.
- De onde vem essas canções?
- Da vida, infelizmente. Quer um trago?
- Não, não bebo. Disse a jovem.
- É, vocês da cidade grande são estranhos.
- Não somos nós que estamos montados num cavalo em plena capital.
- Há pessoas demais passando fome para o velho Bad aqui comprar um Mercedes. E os cavalos te dão algo em troca.
- Entendo, Bad. Desculpe se fui grosseira.
- Não há do que se desculpar. Vocês jamais iriam entender. Disse Bad.
- Se fizesse um esforço para esclarescer...
- Se eu juntasse todo o meu tempo tempo perdido, não estaria aqui agora, moça. Estaria em casa, ouvindo Hank Williams e bebericando alguma coisa.
- E sozinho...
- Está indo longe demais, garota! Diabos!
- Você se casou cinco vezes...
- Quatro! Meu Deus!
- E desde o último casamento, tem andado por aí sozinho. Faz isso por opção?
- O que você acha?
- Vamos lá, Bad. Você é um astro. Uma espécie de herói pra essa gente.
- Eu poderia dizer exatamente o que você quer que eu diga. Dizer que foi apenas uma questão de entrar em cena. É muito estranho eleger um mártir. Não estamos a nos enganar. Na verdade, nos instantes que precedem o sono noturno, quando o temos, estamos todos no Sidecar cinzento do cidadão comum que come seu pedaço de pão em um vagão de trem qualquer.
- E com isso...
- Com isso não me iludo, garota.
- Com o que se ilude? Perguntou a jovem.
- Com qualquer coisa que não conheço. No entanto, por uma razão que não consigo explicar, me sinto na obrigação de me desculpar por esse maldito porão. Até cinco minutos atrás, não tinha percebido como você faz esse porão ficar horrível de verdade.
A jovem corou e sorriu.
Bad era assim. Não se sabia onde ele ia golpear. O que acontecia era que na maioria das vezes, o golpe era certeiro.
Os meses galoparam e Bad se casou novamente. Pela sexta vez (ou quinta?). A garota do gravador portátil acabou se revelando uma boa mãe e a estrela guia de Bad até ele morrer.
Hoje em dia ele se chama Ottis, mas não pode mais cantar.
Um homem sem nome que sempre terá seu nome lembrado.

(Edu Neves)

Lugar Nenhum

Hoje eu decidi assassinar a dor
Com um trago de Whísky
E com uma marca de batom

Não tem ninguém em casa
Então grito
Com a minha voz embargada

A sala de estar não está com uma boa cara
Então troco os móveis de lugar
Pra lugar nenhum, meu mal comum

Cresci com o tempo passado
E no presente, tenho pressa
Pra não chegar atrasado no futuro

O meu atraso é pensar em você, doçura
Que partiu
E deixou qualquer coisa partida aqui dentro

(Edu Neves)

sábado, 7 de janeiro de 2012

A Chuva Que Cai Agora

A chuva que cai agora, mais tarde será aurora
O vento que soprou ontem, hoje susurra o nome de Julia
As águas sob meus pés vão afundar esse pobre coração
Coração besta que coloca tudo a perder nos momentos cruciais

A chuva que cai agora, amanhã será uma flor brotando do asfalto
Os olhos que me fitaram ontem, hoje são lástimas
O cavalo que hoje flutua, amanhã não terá asas
E sem asas não se pode sobreviver na Terra

A chuva que cai agora, vai se estender por um ano inteiro
Os corpos estão sem os cobertores; vão morrendo lentamente
A cada minuto, uma molécula se transforma em Borboletas azuis
E a cada dia, estou menos satisfeito com toda forma de poder

A chuva que cai agora, amanhã será o açoite dos soberanos
As mãos estarão atadas, feito lábios costurados
A serpente irá se livrar das garras da águia
Vai caçá-lo e irá encontrá-lo, não importa quanto tempo levará

A chuva que cai agora, ontem era uma semente
Castiga o planeta horas à fio, e ninguém sente
Então me sento e olho para baixo
No chão que era limpo, fez-se lama

A chuva que cai agora são as minhas lágrimas
Gota d'água no deserto de cólera
Mate a minha sede, sede de qualquer coisa
Beberia o Rio de janeiro inteiro

A chuva que cai agora, vai cessar um dia
Nesse dia, serei cinzas lançadas ao mar
Cinzas jogadas na terra
Ajudarei a rosa branca crescer, e ninguém vai saber

(Edu Neves)


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Os Lunáticos Rejeitados

Mutantes

1966, São Paulo

Arnaldo, Sérgio e Rita decidem se unir musicalmente.
A fusão gerou um dos principais grupos de Rock brasileiro.
Foram inovadores ao usar o Feedback e a distorção nos estúdios coloridos.
Mesclavam a sonoridade crua do Rock and Roll com elementos temáticos brasileiros.
Outra característica da banda, era a irreverência.
Se antes dos Mutantes, o gênero no Brasil era basicamente imitativo, a partir do pioneirismo desses lunáticos, abriu-se o caminho do paraíso híbrido.
Em 1964, os irmãos Arnaldo e Cáudio César fundaram o grupo The Wooden Faces.
Um ano depois, conheceram uma garota braquela e ruiva com sotaque distinto e a intimaram a participar do bando.
Já em 1966, eles obtiveram certo sucesso, depois de gravarem um compacto simples pela Continental.
Em 1968, o trio assinou um contrato com a Polydor, graças a uma indicação do produtor Manoel Barenbein.
Assim, foi lançado de fato, o primeiro álbum da banda regado à viagens experimentais com sons pungentes das guitarras de Sérgio Dias.
Foi justamente nessa época que Caetano e Gil escreveram ''Panis et Circenses'' especialmente para os lunáticos.
Foi também nesse ano que a banda ficou mais próxima da Tropicália.
A fase progressiva veio em 1973, quando os Mutantes já sem a Rita Lee, gravaram ''O A e o Z''.
Todas as faixas desse disco foram compostas e executadas sob o efeito de ácido lisérgico, o que certamente desagradou a Polydor, que não aprovou o álbum, o considerou sem valor comercial e decidiu não lançá-lo.
Além de não comercializar o disco, a gravadora decidiu demitir a banda.
O álbum seria lançado somente em 1992 pela Polygram.
Os Mutantes continuaram ativos, porém Arnaldo, debilitado pelo uso contínuo de drogas (em especial LSD) e em depressão com o final de seu casamento, começa a apresentar comportamentos patológicos, colecionando sacos cheios de lixo.
Passou a se comunicar usando uma espécie de idioma inventado por ele e a fazer planos de construir uma nave espacial.
Arnaldo finalmente deixa a banda em 1974 obrigando Sérgio Dias a mudar toda a estrutura.
Em 1978, Arnaldo se reuniu com a banda como convidado especial em uma única apresentação, mas não aceitou o convite de Sérgio para voltar a fazer parte do grupo.
Com mais alguns desentendimentos, Sérgio decide terminar com o grupo.
O fim não poderia ser mais trágico: Apenas 200 pessoas compareceram ao último concerto do grupo em 6 de Junho em Ribeirão Preto.
Os Mutantes voltariam a ser notícia em 1992, quando os jornais divulgaram que o grupo iria retornar em sua formação clássica.
No entanto, era apenas alarde da mídia.
Em 2006, os Mutantes foram homenageados na mostra Tropicália – A Rrevolution in Brazilian Culture, no Barbican Hall, em Londres, o principal centro cultural da Europa. Alegando compromissos agendados na mesma data do convite, Rita Lee não aceitou o convite. Liminha também declinou. Sérgio Dias, Arnaldo Baptista e Dinho Leme (que não tocava profissionalmente há cerca de trinta anos) aceitaram. Ao grupo original, juntou-se a cantora Zélia Duncan no lugar de Rita Lee e músicos da banda de Sérgio. Todos os ingressos para o concerto foram vendidos antecipadamente, teve como banda de abertura o grupo pernambucano Nação Zumbi e do músico texano Devendra Banhart, fã incondicional dos Mutantes. A primeira apresentação dos novos Mutantes se realizou com grande êxito no dia 22 de maio em Londres e foi gravada para futuro lançamento em CD e DVD, pela gravadora Sony BMG. Depois do concerto em Londres, os Mutantes seguiram para temporada nos Estados Unidos. Eles se apresentaram no Webster Hall, em Nova York, no Hollywood Bowl, em Los Angeles, no The Fillmore, em San Francisco, no Moore Theatre, em Seattle e Cervantes Masterpiece Ballroom, em Denver – além de participarem do Pitchfork Music Festival, em Chicago. Ainda naquele ano, a gravadora Universal remasterizou todos os disco da banda dos anos de 1968 a 1972, fazendo uso das fitas originais.

(Edu Neves)



domingo, 1 de janeiro de 2012

Poema da Última Viagem

Andei por estradas mortas
Vi os animais em jejum fazendo amor
Vi tudo o que era horror
Cruzei as veredas tortas

Andei bebendo bastante
Porém, menos do que eu queria
Olhei nos olhos da cigana
E duvidei da dúvida que me assombrou um dia

Andei semeando alguns sentimentos
Uns bons, outros só lamentos
Colhi o algodão sulista
Norte adentro

Andei em alguns vagões cargueiros
Bebendo água da chuva
Protegendo-me do nevoeiro
E jogando Pôker com os viajantes

Andei procurando por Eva
Fui encontrá-la em um Bar de L.A.
Sua alma ainda morava no Leblon
Descartei seu corpo oco

Andei apredendo uns acordes diferentes
Acordes sinceros, mãos calejadas
Acordes infinitos
Notas indecifráveis

Andei encontrando com o meu guia em algumas esquinas
Esquinas solitárias e vazias
Seu conselho era sempre o mesmo
Mantenha seu mojo guardado no bolso

Andei tanto que já não posso mais voltar
Tudo o que me resta são os meus pés
Minha calça rasgada e meu blusão de couro gasto
Volto, para ver se me acho

Andei escrevendo alguns bilhetes azuis
Logo eu, que fui vítima de tal ato
Minha caneta, no entanto, está com a tinta por um triz
Talvez, esse ano os papéis também acabem

Andei, mas já não me sinto tão morto
Estou com as luzes atrás de mim
E os ventos do Norte no meu rosto
Vou é tratar de mover os moinhos


(Edu Neves)



A Cura

Os santos tem a cura
Cura para todos os males
Curam nossa alma
E puruficam os ares

Os chineses tem a cura
Cura a inteligência americana
Curam nossos átomos
E desvendam nossos mistérios sociais

Os indianos tem a cura
Cura para as angústias
Curam nossos desafetos
E iluminam nossa casa

Os britânicos tem a cura
Cura para todo fogo
Curam as chagas
E congelam nosso tato

Os judeus tem a cura
Cura para os corações nazistas
Curam nossas crianças
E dançam com os ciganos

Os budistas tem a cura
Cura para o Ocidente
Curam os descrentes
E sorriem sem motivo aparente

Eu não tenho a cura
Sou um indigente nesse Mundo febril
Procuro pela cura, ainda assim
Apesar de toda paúra


(Edu Neves)