sábado, 14 de janeiro de 2012

Black Magic Woman

Era uma tarde quente e Charlie havia se mandado.
Vagou pelas ruas por horas à fio e não lhe vinha ninguém a mente.
Tinha que se abrigar em algum recinto.
Na mochila, algumas roupas amarrotadas e no bolso, uns trocados.
O calor intenso logo deu lugar a noite escura e fria.
Então Charlie subiu a colina se esquivando dos obstáculos que a natureza lhe colocava à frente.
Olhou em volta e não viu nada. Algumas luzes, provavelmente vindas de casebres que se camuflavam dentro da mata.
Podia ouvir o barulho animalesco das criaturas noturnas, mas aquilo não o intimidava.
Pelo contrário, se sentia à vontade em tal circunstância.
Porém o medo de não mais conseguir encontrar o caminho de volta logo penetrou sua alma.
Sentou-se num tronco de árvore que havia sido derrubada e fumou seu cigarro, um tanto quanto inquieto.
Ouviu mais uma vez o som dos animais rastejantes e no entanto, continuou ali perdido em pensamentos inconstantes.
E então se lembrou dos tempos de menino. Tempo em que sofreu o mais exacerbado preconceito sem ao menos se dar conta disso na época.
Se lembrou da carteira da sala de aula. Se lembrou dos risos dos ratos ao lhe fitarem.
Se lembrou do soco que havia levado da Força Verde em sua infância.
À essa altura, com a fome e a sede, já raciocinava de maneira ilógica. A lua cheia iluminava a mata densa e misteriosa.
Sua vontade era simplesmente partir dali. Mas algo o segurava. Talvez sua própria mente. Jamais se soube.
Finalmente consegiu vencer a colina íngreme e chegou a uma plataforma pavimentada.
O vento frio lhe cortava os pensamentos agora. As luzes dos postes lhe davam náuseas.
Ouvia passos, mas não via ninguém.
Então, um gato se aproximou. Era exatamente uma miniatura de tigre glacial, pensou.
O felino o olhava como se pudesse ler seus pensamentos. E permanecia inerte.
Ouviu novamente os passos atrás de si e se virou, mas não havia ninguém. Olhou em frente, se voltando, mas o gato não estava mais lá.
Então decidiu seguir os veios do asfalto.
Avistou uma pequena casa velha. Decidiu se fazer presente e procurou um sinal de vida na casa.
Notou que uma luz fraca vinha do quarto dos fundos.
Tocou a campainha estridente e aguardou.
Logo a dona da casinha veio lhe receber.
Uma senhora negra com os cabelos de prata que lhe recebeu com o sorriso mais sincero que alguém já havia lhe dado.
Charlie então, entrou sem tirar os sapatos sujos de lama e mato.
A mulher então pegou as mãos de Charlie e sorriu. Lhe fez um chá bem quente e lhe contou sobre a oitava estrela e a Via Láctea.
Charlie não via sentido naquilo a princípio. Mas ela continuou. Lhe explicou que aquele lugar era exatamente o lugar onde ele devia estar naquele momento.
Algo o havia levado até ali. Ela lhe contou que não era nenhuma surpresa. Pois já sabia o que ia acontecer.
Charlie logo adormeceu com as mantas que a mulher lhe havia cedido.
Dormiu pesadamente a noite inteira. Não sonhou com nada. Simplesmente dormiu profundamente.
No dia seguinte, levantou-se e se serviu de outro chá que a mulher lhe preparou.
Sentou-se no sofá e olhou para as paredes manchadas e notou a forma de uma entidade estampada em uma delas.
Se despediu da mulher, afetuosamente e voltou.
Jamais alguém lhe tinha dito coisas semelhantes e Charlie se acalmou no caminho.
Com o dia claro, a mata já não era tão assustadora e havia um silêncio ensurdecedor.
Nunca mais tornou a ver o gato. Talvez o gato nunca existiu.
Charlie nunca soube o que a mulher havia feito, mas podia jurar que um novo espírito habitava sua armadura.
Os olhos de Charlie agora voltaram a brilhar e a segunda-feira se tornou mais suportável.

(Edu Neves)

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