domingo, 1 de janeiro de 2012

Poema da Última Viagem

Andei por estradas mortas
Vi os animais em jejum fazendo amor
Vi tudo o que era horror
Cruzei as veredas tortas

Andei bebendo bastante
Porém, menos do que eu queria
Olhei nos olhos da cigana
E duvidei da dúvida que me assombrou um dia

Andei semeando alguns sentimentos
Uns bons, outros só lamentos
Colhi o algodão sulista
Norte adentro

Andei em alguns vagões cargueiros
Bebendo água da chuva
Protegendo-me do nevoeiro
E jogando Pôker com os viajantes

Andei procurando por Eva
Fui encontrá-la em um Bar de L.A.
Sua alma ainda morava no Leblon
Descartei seu corpo oco

Andei apredendo uns acordes diferentes
Acordes sinceros, mãos calejadas
Acordes infinitos
Notas indecifráveis

Andei encontrando com o meu guia em algumas esquinas
Esquinas solitárias e vazias
Seu conselho era sempre o mesmo
Mantenha seu mojo guardado no bolso

Andei tanto que já não posso mais voltar
Tudo o que me resta são os meus pés
Minha calça rasgada e meu blusão de couro gasto
Volto, para ver se me acho

Andei escrevendo alguns bilhetes azuis
Logo eu, que fui vítima de tal ato
Minha caneta, no entanto, está com a tinta por um triz
Talvez, esse ano os papéis também acabem

Andei, mas já não me sinto tão morto
Estou com as luzes atrás de mim
E os ventos do Norte no meu rosto
Vou é tratar de mover os moinhos


(Edu Neves)



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