quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Um Homem Sem Nome

Era conhecido como Bad.
Famoso, não pelo charme ou coisa que o valha, mas pelas canções que destilavam as dores do oeste selvagem. Colete de couro, badulaques, um crucifixo e seu chapéu desbotado.
Aconteceu de estar no lugar errado, mas na hora propícia. Desceu do cavalo, lhe afagou a fronte e lhe deu água.
Entrou no porão e sentou-se diante da jovem que segurava o pequeno gravador portátil, enquanto fazia algumas anotações num caderninho azul.
- Boa noite, Bad. Que bom que está aqui. Você relutou um pouco no início...
- Vamos logo com isso. Interrompeu Bad, abruptamente.
- Nunca soubemos o seu nome verdadeiro. Não acha que seus fãs mereciam saber?
- Sou Bad. Quando o bom Deus me levar, meu nome estará em minha lápide. Até lá, continuarei sendo Bad.
- De onde vem essas canções?
- Da vida, infelizmente. Quer um trago?
- Não, não bebo. Disse a jovem.
- É, vocês da cidade grande são estranhos.
- Não somos nós que estamos montados num cavalo em plena capital.
- Há pessoas demais passando fome para o velho Bad aqui comprar um Mercedes. E os cavalos te dão algo em troca.
- Entendo, Bad. Desculpe se fui grosseira.
- Não há do que se desculpar. Vocês jamais iriam entender. Disse Bad.
- Se fizesse um esforço para esclarescer...
- Se eu juntasse todo o meu tempo tempo perdido, não estaria aqui agora, moça. Estaria em casa, ouvindo Hank Williams e bebericando alguma coisa.
- E sozinho...
- Está indo longe demais, garota! Diabos!
- Você se casou cinco vezes...
- Quatro! Meu Deus!
- E desde o último casamento, tem andado por aí sozinho. Faz isso por opção?
- O que você acha?
- Vamos lá, Bad. Você é um astro. Uma espécie de herói pra essa gente.
- Eu poderia dizer exatamente o que você quer que eu diga. Dizer que foi apenas uma questão de entrar em cena. É muito estranho eleger um mártir. Não estamos a nos enganar. Na verdade, nos instantes que precedem o sono noturno, quando o temos, estamos todos no Sidecar cinzento do cidadão comum que come seu pedaço de pão em um vagão de trem qualquer.
- E com isso...
- Com isso não me iludo, garota.
- Com o que se ilude? Perguntou a jovem.
- Com qualquer coisa que não conheço. No entanto, por uma razão que não consigo explicar, me sinto na obrigação de me desculpar por esse maldito porão. Até cinco minutos atrás, não tinha percebido como você faz esse porão ficar horrível de verdade.
A jovem corou e sorriu.
Bad era assim. Não se sabia onde ele ia golpear. O que acontecia era que na maioria das vezes, o golpe era certeiro.
Os meses galoparam e Bad se casou novamente. Pela sexta vez (ou quinta?). A garota do gravador portátil acabou se revelando uma boa mãe e a estrela guia de Bad até ele morrer.
Hoje em dia ele se chama Ottis, mas não pode mais cantar.
Um homem sem nome que sempre terá seu nome lembrado.

(Edu Neves)

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