sábado, 25 de fevereiro de 2012

João Alguém

Jota chegou de noite achando que era dia
Jota está com um sorriso na cara, quem diria?
Não mais se falou em tiros disparados
Por ele jamais fui maltratado

Jota vem caminhando com seus cordões reluzentes
Jogaram terra seca em sua bota com algumas sementes
Até hoje, Jota vive em uma teia de aranha
Porém, perdeu o charme, a manha

Jota criou barriga e deformou a silhueta
Deve ser resultado do pacto que fez com o capeta
Jota não se arrependeu no final
Preferiu manter a fama de mau

Jota foi alguém de respeito
Hoje só lhe resta dor no peito
Uma amargura que se nota a milhas de distância
Jota jamais foi criança

Jota está perdido em seus pensamentos
Não há mais ouvidos para os seus lamentos
É melhor ser ninguém do que ser alguém
Ser alguém limitou Jota e o prendeu na gaiola de gaviões que não voam além

Jota cospe fogo em quem não lhe estende a mão
Jota deveria comer mais ração
Não há nada de novo no front de Jota
Jota gastou sua cota

(Edu Neves)

sábado, 18 de fevereiro de 2012

O Sonho Lúcido da Marijuana

Estavam sentados, conversando sobre algo fora do contexto real. O sujeito do chapéu branco o chamou para uma caminhada na enorme usina. Passados 20 minutos de passos curtos, chegaram ao penúltimo galpão. Estava escuro e fazia frio. Era inútil qualquer brasa. O velho tirou seu chapéu da cabeça e de dentro dele havia uns lenços de papel e algo embrulhado cuidadosamente.
Johnny olhou para o outro lado e começou a ficar inquieto.
Quando voltou a olhar em direção ao velho, não havia mais ninguém lá. Olhou para os lados, mas o velho estava atrás dele soltando uma fumaça em forma de cavalo alado.
Johnny tragou aquilo como se fosse algo inútil. E voltou a se sentar. Depois disso, o plano de Johnny foi alterado.
O Velho dessa vez havia desaparecido. Os bancos foram transformados em lagartos azuis e brancos.
A usina era agora, um enorme castelo de areia. Os superiores estavam patinando no gelo e entoando cantigas de cabaré.
O guarda noturno estava usando um enorme vestido branco e seus cabelos haviam crescido em questão de segundos.
Os carros dourados se desmancharam como plástico derretido e se tornaram leite condensado.
Mas Johnny ainda estava ali. Parado, no mesmo lugar. Disso tinha certeza. Ou não.
Então se beliscou com um alicate negro para ver se o mundo voltaria a ficar cinza novamente.
Os ecos dos minutos anteriores agora se faziam presentes. Lembrou-se do velho. Lembrou do maldito chapéu. Bebeu algo. Não se lembra, mas era Coca-cola.
Então tirou um cigarro do bolso. Sentiu o gosto de areia salgada. Minutos depois, poderia comer um elefante sozinho. Então um elefante listrado surgiu na sua frente e lhe fez uma oração.
Amém. Descanse em paz, filho.

Nos veremos nos próximos 30 segundos, disse o elefante.
Nesse momento, a luz havia acabado. E ocorreu um furto no enorme galpão. Mas ninguém viu, então não havia prova nenhuma. Apenas suspeitas circunstanciais. Furto sólido, para matar a fome. Fome de elefante.

A luz voltou dentro de 2 horas ou 30 segundos.
Então Johnny acordou em uma cama flutuante, dentro de um hospital e voltou ao trabalho.

(Edu Neves)


sábado, 11 de fevereiro de 2012

The Burning Man

Me queimei no fim
Mas no início, eu era outro
Era uma chama cálida
Era uma idéia clara

Hoje estou no vale das sombras
Esperando por Peter
O bumbo e as cordas dissonantes
Ainda me levam adiante

Alguém me disse
Eu iria partir naquela noite
Shakey Jake roubou meu cigarro
E devolveu meu açoite

Não teria sido o Rock and Roll, meu assassino?
Fui incinerado por uma ilusão
Fui jogado na jaula da BBC
De lá, não mais saí

Li as notícias sem muito interesse
Noventa por cento era mentira
Queriam a minha ira
E conseguiram as minhas cinzas

Os senhores do crime
Ainda escutam a minha décima quinta voz
Seja em Londres ou no Texas
Estamos sempre esperando um Sol

(Edu Neves) *{Dedicado à Steve Marriott}


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Meu Dia Começa às 20:00

Levantei-me e alguém me serviu óleo diesel em um copo descartável
Inalei a fumaça do radiador e me contive
No recipiente hidráulico, dois dedos de Vodka
Café amargo nos pneus para dar brilho

No lugar da Cruz, os dez mandamentos
Abasteço as minhas ilusões com a Brigitte Bardot, que me olha do pôster na parede velha
O rosto imóvel nos aros brilhantes permanece límpido
Então minhas mãos se enchem de negro

O nível da lua começa a baixar
Logo se nota o sol na costa leste, manhã adentro
Mudança de turno
Os abutres já se despediram

Agora sim, bebo o conhaque matutino e aperto a mão do vigilante
Passos displiscentes pela portaria e logo estou na rua
Então pego meu itinerário com destino à cidade dos sonhos lúcidos
Chegando, deito. Minha cama é o Mar Morto.

(Edu Neves)