quinta-feira, 29 de março de 2012

O Camaleão Sulista

Chegou e parou na minha frente cruzando os braços
Chapéu branco com uma pena verde e badulaques
Disse-me algo inteligível, mas era amável
Apenas me acenou, mas a sensação foi agradável

Olhou para os meus sapatos e se espantou
Estavam sujos de lama
Deitei na cama flutuante que me arrumou
E adormeci sonhando com a fama

Teu coração cabia o mundo e ainda sobrava espaço
Espaço sideral com estrelas cadentes pedindo carona
Chorei, fiquei ''Down'' e abracei o abraço
Depois lhe fiz um poeminha cafona

Coloquei uma rosa azul no seu cabelo
E então o Sol bateu a rosa ficou vermelha
Me ocorreu passar pelo caminho do meio
Mas fui impedido pela sua centelha

Na sua terra faz frio, mas seu coração está em chamas
Qualquer dia desses, me empresta o seu cobertor
Quem sabe até dou sorte, e dirás que me ama
Nunca saberei em que diabos pensas quando pensas na minha dor

Tem umas coisinhas que eu sei
Seu cabelo é amarelo, teu braço é forte
Tuas mãos são bonitas; e nem citei o decote!
Case-se com o Jokerman, mas me deixe ser o mascote

(Edu Neves)

*Dedicado à guria mais cool do Planeta B-612

segunda-feira, 19 de março de 2012

O Herói da Classe Operária

Tonho chegou ao trabalho lá pelas seis e tantas.
Olhou para os dois lados e não viu ninguém no enorme galpão. Sentiu que havia algo diferente. A atmosfera hostil lhe despertou os instintos de defesa. Jamais havia se atrasado. Jamais ganhou um dia no banco de sangue.
Tirou o velho relógio do bolso e notou que na verdade, tinha chegado muito cedo.
Aos poucos o pessoal foi chegando e dizendo para Tonho os resultados dos jogos daquele dia. Tonho fez uma careta e seus companheiros riram e foram abraçá-lo.
Logo os motores começaram a roncar e Tonho se dirigiu para o seu local de costume. Notou que o nível do líquido púrpuro estava bem abaixo do que costumava ficar.
Duas horas depois (ou meia hora depois), o Cachorro Negro chegou ao recinto impondo ordens a todos e xingando Tonho aos quatro ventos.
Ninguém jamais havia entendido o motivo de o Patrão ter colocado o Cachorro Negro para nos morder o calcanhar por toda madrugada. No entanto, ninguém contestava. Talvez pelo medo de perder a vaga no céu ou no inferno, não importa.
A hora do almoço se fez presente e Tonho sentou-se na borda de concreto para colocar algo sólido no estômago. Comeu feito um porco e depois bebeu sua água. Ainda lhe restavam alguns minutos, então foi para a portaria afim de trocar um dedo de prosa com o guarda noturno, um índio que se comportava como se estivesse em Los Angeles. O Cachorro Negro o viu e o chamou. Tonho achou estranho, mas foi ao seu encontro.O Cão latiu alguns xingamentos e depois lhe deu um abraço. Tonho jamais entendeu o Cachorro Negro. Ele era assim. Uma mão que afaga a arma que atira.
No dia seguinte, Tonho ficou sabendo por intermédio de seus companheiros que cometeu uma falha. Uma falha devido ao nível de líquido púrpuro que deveria estar no lugar certo. Isso gerou uma série de ''grandes'' problemas para a empresa e diziam que o Cachorro Negro estava louco e que iria comer o fígado de Tonho.
Tonho não tentou se esquivar do animal faminto e continuou fazendo o seu trabalho. Os gritos do animal feroz eram tão insuportáveis que Tonho se enganou novamente, quando deixou que o carrinho amarelo ficasse sem o bendito díesel necessário.
O Cachorro Louco viu aquilo como um prato cheio e mordeu Tonho mais uma vez lhe jogando pragas e devorando seus pensamentos.
Aquela noite finalmente tinha chegado ao fim, pensou Tonho. Quando estava deixando o enorme Galpão, Tonho praguejou violentamente contra o Cachorro ditador. Fez o que ninguém jamais teve coragem de fazer. O Cachorro milagrosamente não rebateu, apenas riu. Uma risada estranha, mas riu alto.
Tonho foi afastado apenas para saber quem é o ''Chefe'', mas seus companheiros estavam com ele e lhe prestaram homenagens. Uns diziam que Tonho tinha um Feeling que ninguém mais tinha. Uma espécie de carisma. Outros diziam que era um garoto idiota e burro por encarar o Cachorro Louco.
Mas todos concordam em um ponto. Tonho foi a voz que eles queriam ter. Ao menos naquela madrugada.
O que aconteceu com Tonho depois daquela noite, ninguém jamais soube. No entanto, sempre que lembram de Tonho, a sombra de um sorriso aparece no rosto de cada um.

(Edu Neves)


sexta-feira, 2 de março de 2012

Outono

Céu cor de malte
Me matou com suas nuvens negras
Trabalhei até mais tarde
E renasci depois da bebedeira

Mar de gente caótico
Me apareceu como ilusão de óptica
Destilei todo meu ódio
Depois tranquei a porta

Escutei Lennon cantando
Tomorrow never knows
Estaria ele morrendo?
Ou continuaria com o show?

Depois disso, o amanhã se tornou distante
O clima se tornou um pouco tenso
Bob Dylan me olhava da estante
Então tive que usar o bom senso

Peguei a última garrafa de Jim Morrison
Traguei até a última gota
Adormeci e sonhei com Hendrix
Me dizendo para sair da bolha

Acordei e me levantei da cama dura
Janis sopraria em meus ouvidos mais tarde
Enquanto me confundia com a névoa púrpura
Tente, garoto. Just a little bit harder.

(Edu Neves)