sábado, 28 de abril de 2012

Ilusão protagonista, Morte coadjuvante

Olhei lá de cima
Estive por toda parte procurando as rimas
Olhei em volta e vi o inferno
Brasa quente do inverno

O assassino faz a sua última ronda
Enquanto os russos lançam a primeira bomba
A bomba explode no chão da realidade
E sangra o coração da santíssima trindade

Bebi o absinto amargurado da noite passada
E esqueci-me da ilusão, com a cara lavada
O sorriso da serpente ainda está presente
Presença ausente, jardim sem semente

Essa é a última valsa, o último sonho
Não sei dançar, mas abraço o infinito
O que ontem era bemol
Hoje é sustenido

Silêncio
Grito
Amor mal escrito

(Edu Neves)

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Era uma vez... (Eu, um caminho torto e você)

Quando a rosa branca desabrochou
Sua maçã corou
Evitei olhar, tentei fugir do assunto
Inevitável é não invadir seu mundo

Dispenso aquela entrada triunfal
Pode ser pela porta dos fundos
Talvez ela me deixe brincar no quintal
Talvez pendure meu coração no varal

Quero tragar sua dor
E provar seu néctar
Sentir teu corpo, sentir calor
Tocar suas pétalas

Pegar carona nas suas asas
Sentir o vento no rosto
Tornar qualquer caminho bom
Um caminho torto

Jogar os dados, ser a bola da vez
Ter sua pele alva, seus olhos e sua blusa xadrez
Comer chocolate
Ter uma overdose de vida (Antes que seja tarde)

A semente deixei no jardim
Irá crescer
Começo sem fim
Sem ilusão, com pedaços de mim

Prenda-me uma vez
Não importa onde
É capaz de me amar?
Just once...

(Edu Neves)

*Dedicado à Rosa Branca dos anos 80 (Um momento de glória é capaz de dar sentido a uma vida inteira)




domingo, 15 de abril de 2012

Delirantes Formas de Amar

Sem razão, te condeno à morte
Misturo os remédios com o ópio, sem ódio
Minha alquimia não presta
Nessa vida ninguém presta
Queria só o seu amor, me empresta?

Faça festa quando eu voltar da guerra
É bom te ver de novo
Tomar sorvete de côco
Beijar seus olhos castanhos
E te amar de um jeito estranho

Não diga palavras em vão
Confie no seu homem
Nunca diga não
Lhe estenda as mãos
Façam juntos uma nação

Olhe pra dentro, mas continue viva
Durma o sono dos injustos
Acorde e beba um trago
Faça o que for do seu agrado
Prometo não chegar atrasado

Fique comigo e durma um sono abafado
Veja se tem alguém do lado
Pode ser o diabo
Pode ser o seu gato
Nosso amor não tem contrato

(Edu Neves)

Alone (O Deserto das Rosas)

Pedro sonhou com a redenção de Gomorra
E acordou sozinho no cativeiro

Laura sonhou com o cavalo de Ogum
E acordou sozinha no terreiro

João sonhou com a mordida da serpente
Acordou sozinho e sem os dentes

Luíza sonhou com seu irmão
Acordou sozinha e chorando no porão

Léo sonhou que podia voar
Acordou sozinho e sem lar

Clara sonhou com o cometa Halley
Acordou sozinha e sem luz no vale

Beto sonhou com a garota dos seus sonhos
Acordou sozinho e sem nenhum bônus

Bella sonhou que era feia
Acordou sozinha e sem sangue nas veias

Eu sonhei que sabia de tudo
Acordei sozinho e largado no mundo

Eu sonhei que estava sozinho
Abri os olhos e tinha alguém sorrindo

Você sonhou que estava comigo
Acordou sozinha e sentindo frio

Você sonhou com o deserto das rosas
Nunca mais acordou, mas abriu a porta

(Edu Neves)

sábado, 14 de abril de 2012

That Something

She was a Queen in my Old Dream
Walkin' trough the Naked Island
Searchin' for a Lost Angel
She got to answer my little down scream

I got a key to the Door
Running over again
It's the same fuckin' situation
Nobody's can help the poor boy

The Devil's sitting on my gold chair
Watchin' my TV and Smokin'
I'm very stranger and Sad
I hope you save me from that Hell

So you're coming with that something
That something i don't know what it is
But i know there is
Lord, have mercy on me

Bring me my Wine
With that something on my glass
Bring me your heart
With that something in your Mind

(Edu Neves)


PS.: Poema dedicado à Lu. Valeu pela deixa, garota má.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Amadores

Os lábios de Fel voltaram a sorrir
As mãos macias voltaram a pintar o Danúbio Azul
Os pés descalços voltaram a caminhar sob a areia quente do Saara
O rosto pálido voltou a corar
O coração voltou a bater
Os olhos voltaram a brilhar
As flores voltaram a brotar
A engrenagem voltou a funcionar
A trilha voltou a ser composta
Os corpos voltaram a minar vinho tinto

Os lábios de Fel me mordem agora
As mãos se tornaram um açoite
Os pés calejados estão gostando de andar a noite
O rosto está desfeito
O coração agora está em choque
Os olhos não veem mais nada além do corpo
As flores estão morrendo aos poucos
A engrenagem perdeu a razão
A trilha foi apagada
Os corpos cessaram no fim da noite

Os corpos estão quentes agora
A trilha é o lamento da Lucille
A engrenagem está mais leve
As flores estão ficando azuis
Os olhos estão vendo através da parede
O coração bate no peito e grita
O rosto não é mais a máscara de prata
Os pés agora usam All Star
As mãos são de veludo
Os lábios estão cobertos de mel

Os corpos estão saciados
A trilha agora é um caminho
A engrenagem é a hemorragia cálida
As flores estão mais vivas que os cães
Os olhos não choram mais
O coração vai saltar da ponte
O rosto se ilumina com o Sol nascente
Os pés estão no chão de algodão
As mãos se estendem sob a neve vermelha
Os lábios disseram que o amor é coisa de amadores

(Edu Neves)


sábado, 7 de abril de 2012

Sob os Trilhos do Novo Aeon

Qual é a graça de estar no apogeu
Sem alguém com a mesma metafísica que eu?
Sem o olhar vago nas nuvens negras
Com o machado cravado na madeira

Quero sair daqui e ir pra qualquer canto
Talvez eu roube um banco
Ou talvez fique louco de amor
Somos coadjuvantes nesse longa de terror

Os pensamentos continuam tortos
O viajante de tanto haxixe, ficou louco
Continuo vivendo sem razão
Mas a nova era já apontou na próxima estação

No mundo novo os fantoches irão ganhar vida
A linha é fraca e vai ceder
Não se lembrarão do que comeram ontem
E pela manhã, terão as manchetes pra comer

Garoto, você tem que ser forte
Puxe o gatilho e use a sua camisa da sorte
Erga a sua espada e grite bem alto
Toque um Blues que possa derrubar o planalto

(Edu Neves)

De agora em Diante, é um Bilhete só de Ida

Chegou no lugar certo, mas na hora errada
O paraíso distante estava coberto de neve
Chorou as lágrimas da enseada
Depois vestiu sua segunda pele

Ganhou o prêmio de um milhão
Mas sua reputação não estava boa
É difícil acertar na loteria da ilusão
Mais fácil amar que trair a outra

Comeu a Santa Ceia e foi embora
Como Judas, foi a carta marcada do Senhor
Podia ter passado lá outra hora
Mas sua cara estava um horror

Voltou sem o coração
Com o peito vazio, voltou para a cela
Fecharam as cortinas do galpão
E apagaram as velas

Queria rever a garota bonita
A mesma que ficou com o seu coração
Mas só lhe restava um bilhete de ida
Então decidiu ficar no rancho com os anjos da evolução

(Edu Neves)


terça-feira, 3 de abril de 2012

Capitão América

Pensou consigo mesmo que talvez poderia sair dali. Reverter o quadro.
Seu amigo selvagem que sempre o acompanhava, concordou com certa animosidade misturada com uma euforia dilascerante.
Não estavam bem onde estavam, e decidiram rumar para a fronteira. Chegando lá, foram à procura do patrão. Avistaram um homem corado e de barba rente. Tirou o chapéu e os cumprimentou gentilmente, abrindo a pasta. O Capitão tirou um maço de dólares do bolso esquerdo e entregou ao mexicano. Depois foram para o carro alugado e conversaram por alguns instantes. O Selvagem sempre sorrindo e animado. Tinha planos de ficar rico, enquanto o Capitão pensava através de outra perspectiva. Bulinaram o conteúdo da pasta com misturas improváveis e transformaram em dinheiro. Com o dinheiro, compraram dois cavalos de aço e se mandaram para o coração dos EUA.
A cidade fantasma era uma colônia de hipocrisia. Caipiras bêbados para qualquer lado que se olhava. Uma gente realmente sem escrúpulos e com a ganância das grandes metrópoles, o que era de certa forma cômico ao primeiro olhar.
Estacionaram os cavalos sem asas e entraram num bar que de tão iluminado parecia uma UTI. Pediram cigarros e duas tequilas, enquanto os provincianos os fitavam de maneira hostil. Nada comentaram, beberam e seguiram viagem. O sol os estava castigando, então decidiram parar para descasarem em uma sombra. Notaram que ali perto, havia uma espécie de rancho. Logo o dono do terreno veio ao portão de madeira podre e os recebeu, dando as boas vindas e perguntado se queriam alguma coisa para beber. Eles estavam com fome até demais. O fazendeiro morava no rancho com sua esposa e duas filhas. Uma família notavelmente católica, que vivia do próprio cultivo. Os animais passeavam livremente pelo curral, que tinha ficado pronto dias antes. Sentaram na mesa com todos. O Selvagem não esperou as preces e logo tratou de comer a galinha cozida que a mulher do fazendeiro havia preparado. Conversaram sobre o governo e de quanto conseguem ganhar por dia naquelas bandas. Aquela refeição tinha sido um grande alívio para o Capitão e seu companheiro Selvagem. Mas a viagem teria que continuar. Pegaram novamente a estrada torta e quando ia anoitecendo, um homem com roupas rasgadas na beira da pista pedia carona. Perece que era o dia de sorte do pobre diabo. Como recompensa, os levou a comunidade da qual era membro. Um vilarejo simples com cabanas adptadas e cheio de gente. Havia famílias inteiras ali. Finalmente conseguiram dormir e acordaram com o coração saudosista no outro dia.
Por intermédio de Deus conseguiram chegar ao destino, onde logo foram detidos por participarem de uma passeata que estava acontecendo na hora errada. Ficaram um em cada cela, e em uma terceira cela, havia outro homem. Tipicamente americano e visivelmente embriagado. Começaram a falar sobre crimes passionais e descobriram que o sujeito era advogado e estava apenas tirando um cochilo na cela. Logo depois,  os três e saíram dalí o mais rápido possível. Iria anoitecer em breve e decidiram que era hora de uma parada. A terra era linda e vermelha como um canyon, só que havia vegetação. Se deitaram no chão fértil e tragaram a mais pura Marijuana que jamais existiu. Enquanto dormiam, os nativos assassinaram o advogado na calada da noite. Os dois viajantes gritaram por socorro e depois pensaram que aquilo era um aviso prévio. Capitão América não sabia o que dizer, sua mente estava em estado de caos contínuo. Saíram dali e foram para a cidade. Pararam em frente a um cabaré vermelho, onde havia um cego tocando Blues na calçada. Colocaram cinquenta dólares no chapéu do homem e entraram no recinto. A recepção foi pouco calorosa. Garotas jovens, bonitas e pálidas ofereciam seus dotes e suas bebidas aos dois viajantes. Entraram em uma sala e ficaram os quatro ali. Conversaram bastante tempo, mas o Capitão não conseguia tirar o advogado de sua cabeça. O dia estava caloroso, então saíram e foram tomar banho no riacho que ficava ali perto. O Selvagem estava realmente gostando daquilo. Era a primeira vez que Lucy in the Sky adentrava em seu sistema.
Voltaram para o quarto sem muitas pretenções e dormiram. Capitão notou que já passava da hora de deixarem aquele lugar, embora as garotas tenham adorado a companhia dos dois. Foram para a Costa Leste e conseguiram achar um terreno indígena, onde talvez poderiam dormir e descansar. O Selvagem estava contente com a situação, dizendo que estava rico e que agora era livre. O Capitão discordava e apenas achou que haviam estragado tudo.
O sol nasceu, apesar de tudo e os dois já estavam na estrada. Estrada sinuosa e triste. Solitária. Depararam com um caminhão pequeno em que um caipira fazia caretas e buzinava. O Selvagem fez um sinal obsceno para o caminhoneiro e seguiu sem dizer uma palavra. O caminhoneiro pegou sua braçadeira de fogo e disparou contra o Selvagem que caiu de sua moto e ficou estendido na beira da pista. O Capitão ouviu o disparo e mesmo estando bem a frente, retornou. Olhou nos olhos do companheiro e disse que voltaria com ajuda. Partiu em direção contrária, mas o caminhão havia manobrado e vinha em sua direção. Outro disparo. Última explosão...

All he wanted, was to be free... (Ballad of Easy Rider)

(Edu Neves)

domingo, 1 de abril de 2012

Exílio

Quem dera se Gil fosse o Tom que Chico experimentou
Bethânia iria caetanear o dia inteiro
Estava na Tonga da Mironga, mas Vininha me expulsou
As águas de março caíram em janeiro

Lembrei do Milton esquecendo
Esqueci do absinto que Ney me serviu
Entrei de fato no sonho que estava vivendo
E mandei Médici pra puta que pariu

Noel tossiu e riu
Bebeu de galope
Zé Geraldo nem viu
Que o cidadão teve sorte

Virei mutante pra ganhar a Rita
Ela não quis bailar comigo
Então lhe paguei uma birita
E fomos à procura de abrigo

Me escondi no bolso de Pixinguinha
Ninguém notou
Cartola tirou o espinho da rosa
E com muita galhardia, me espetou

Saí da birosca e fui pra casa
Cavaleiro andante em direção ao caos
A chuva caiu e eu sem capa
Caminhando numa viela atemporal

(Edu Neves)