terça-feira, 3 de abril de 2012

Capitão América

Pensou consigo mesmo que talvez poderia sair dali. Reverter o quadro.
Seu amigo selvagem que sempre o acompanhava, concordou com certa animosidade misturada com uma euforia dilascerante.
Não estavam bem onde estavam, e decidiram rumar para a fronteira. Chegando lá, foram à procura do patrão. Avistaram um homem corado e de barba rente. Tirou o chapéu e os cumprimentou gentilmente, abrindo a pasta. O Capitão tirou um maço de dólares do bolso esquerdo e entregou ao mexicano. Depois foram para o carro alugado e conversaram por alguns instantes. O Selvagem sempre sorrindo e animado. Tinha planos de ficar rico, enquanto o Capitão pensava através de outra perspectiva. Bulinaram o conteúdo da pasta com misturas improváveis e transformaram em dinheiro. Com o dinheiro, compraram dois cavalos de aço e se mandaram para o coração dos EUA.
A cidade fantasma era uma colônia de hipocrisia. Caipiras bêbados para qualquer lado que se olhava. Uma gente realmente sem escrúpulos e com a ganância das grandes metrópoles, o que era de certa forma cômico ao primeiro olhar.
Estacionaram os cavalos sem asas e entraram num bar que de tão iluminado parecia uma UTI. Pediram cigarros e duas tequilas, enquanto os provincianos os fitavam de maneira hostil. Nada comentaram, beberam e seguiram viagem. O sol os estava castigando, então decidiram parar para descasarem em uma sombra. Notaram que ali perto, havia uma espécie de rancho. Logo o dono do terreno veio ao portão de madeira podre e os recebeu, dando as boas vindas e perguntado se queriam alguma coisa para beber. Eles estavam com fome até demais. O fazendeiro morava no rancho com sua esposa e duas filhas. Uma família notavelmente católica, que vivia do próprio cultivo. Os animais passeavam livremente pelo curral, que tinha ficado pronto dias antes. Sentaram na mesa com todos. O Selvagem não esperou as preces e logo tratou de comer a galinha cozida que a mulher do fazendeiro havia preparado. Conversaram sobre o governo e de quanto conseguem ganhar por dia naquelas bandas. Aquela refeição tinha sido um grande alívio para o Capitão e seu companheiro Selvagem. Mas a viagem teria que continuar. Pegaram novamente a estrada torta e quando ia anoitecendo, um homem com roupas rasgadas na beira da pista pedia carona. Perece que era o dia de sorte do pobre diabo. Como recompensa, os levou a comunidade da qual era membro. Um vilarejo simples com cabanas adptadas e cheio de gente. Havia famílias inteiras ali. Finalmente conseguiram dormir e acordaram com o coração saudosista no outro dia.
Por intermédio de Deus conseguiram chegar ao destino, onde logo foram detidos por participarem de uma passeata que estava acontecendo na hora errada. Ficaram um em cada cela, e em uma terceira cela, havia outro homem. Tipicamente americano e visivelmente embriagado. Começaram a falar sobre crimes passionais e descobriram que o sujeito era advogado e estava apenas tirando um cochilo na cela. Logo depois,  os três e saíram dalí o mais rápido possível. Iria anoitecer em breve e decidiram que era hora de uma parada. A terra era linda e vermelha como um canyon, só que havia vegetação. Se deitaram no chão fértil e tragaram a mais pura Marijuana que jamais existiu. Enquanto dormiam, os nativos assassinaram o advogado na calada da noite. Os dois viajantes gritaram por socorro e depois pensaram que aquilo era um aviso prévio. Capitão América não sabia o que dizer, sua mente estava em estado de caos contínuo. Saíram dali e foram para a cidade. Pararam em frente a um cabaré vermelho, onde havia um cego tocando Blues na calçada. Colocaram cinquenta dólares no chapéu do homem e entraram no recinto. A recepção foi pouco calorosa. Garotas jovens, bonitas e pálidas ofereciam seus dotes e suas bebidas aos dois viajantes. Entraram em uma sala e ficaram os quatro ali. Conversaram bastante tempo, mas o Capitão não conseguia tirar o advogado de sua cabeça. O dia estava caloroso, então saíram e foram tomar banho no riacho que ficava ali perto. O Selvagem estava realmente gostando daquilo. Era a primeira vez que Lucy in the Sky adentrava em seu sistema.
Voltaram para o quarto sem muitas pretenções e dormiram. Capitão notou que já passava da hora de deixarem aquele lugar, embora as garotas tenham adorado a companhia dos dois. Foram para a Costa Leste e conseguiram achar um terreno indígena, onde talvez poderiam dormir e descansar. O Selvagem estava contente com a situação, dizendo que estava rico e que agora era livre. O Capitão discordava e apenas achou que haviam estragado tudo.
O sol nasceu, apesar de tudo e os dois já estavam na estrada. Estrada sinuosa e triste. Solitária. Depararam com um caminhão pequeno em que um caipira fazia caretas e buzinava. O Selvagem fez um sinal obsceno para o caminhoneiro e seguiu sem dizer uma palavra. O caminhoneiro pegou sua braçadeira de fogo e disparou contra o Selvagem que caiu de sua moto e ficou estendido na beira da pista. O Capitão ouviu o disparo e mesmo estando bem a frente, retornou. Olhou nos olhos do companheiro e disse que voltaria com ajuda. Partiu em direção contrária, mas o caminhão havia manobrado e vinha em sua direção. Outro disparo. Última explosão...

All he wanted, was to be free... (Ballad of Easy Rider)

(Edu Neves)

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