quarta-feira, 16 de maio de 2012

Izabella teve um sonho


Acordou no meio da noite com um suspiro ofegante.
Todo o seu desapontamento e desespero tinha passado por ela. Viajou pela sinuosa estrada de frenesi.
Procurou se lembrar do filme que assistiu enquanto dormia.
Aos poucos foi se lembrando do sonho de trás pra frente.
Havia encontrado seu homem. O bom ladrão que enfim lhe concedeu o poder da escolha. Coisa que na verdade, achava uma utopia desgraçada.
Já tinha visto esse homem pela avenida. Ele sempre trajava roupas vermelhas, o que tinha lhe chamado a atenção.
Tal homem também já tinha lhe visitado em sonhos. No entanto, nunca se lembrava do enredo.
Organizou os papéis e se pôs a escrever. Procurou se concetrar mais no cenário do que nos detalhes.
Noite fria com a lua vermelha. Nuvens espalhadas, e árvores que tomavam formas estranhas. Notou que não havia sombras, nem ruídos.
Caminhou pelo bosque com certo descompasso. Sentiu sede e bebeu a água do riacho enevoado.
Um tigre faminto se aproximou e ela sentiu a sua dor. Os olhos verdes e redondos lhe encaravam com dor. O pobre diabo não comia há dias.
Logo, o medo se fez presente e ela sentiu que sua vida dependia totalmente da boa vontade do enorme felino à sua frente.
Não havia ninguém por perto. Só a noite, a lua vermelha, o bicho feroz e ela.
Uma completa sensação de impotência a fez se manter inerte. Notou que a pata do tigre era do tamanho de seu braço e bastaria um ataque para que o sonho acabasse com uma dose de morfina.
O animal se aproximou, mas ela hesitou em correr. Talvez isso seria um convite para as garras do monstro.
Havia quase que perdido os sentidos, quando o animal finalmente parou a dois metros de distância.
Então ouviu passos. Passos humanos. Raramente outra pessoa invadia seus sonhos pela porta da frente.
Era o seu homem. Seu salvador de roupas vermelhas em cima de um cavalo branco com asas.
Ergueu sua lança e o tigre lhe fitou diretamente nos olhos. Rangeu os dentes e caminhou lentamente para a direção contrária.
O homem de vermelho ficou satisfeito por não ter que matar o tigre. Isso realmente lhe deixava feliz.
Desceu do cavalo alado e segurou as mãos dela. Mãos que tremiam de medo e surpresa.
Lhe disse para não temer. Tudo iria ficar bem novamente e voltariam pra casa. Ela sorriu sem sentir e abraçou seu homem.
No caminho de volta, encontraram um bruxo que usava um colar cheio de dentes. Ele disse que o bosque tinha vida e vontade próprias, e talvez não os deixariam partir sem uma barganha.
O homem de vermelho o questionou a respeito do dono daquilo tudo e o bruxo riu com seus dentes dourados. O bosque era selvagem e não tinha dono.
Então, sentiu medo outra vez e gritou. Gritou e despertou. Despertou com a sensação de que ficara aprisionada no bosque. Algo seu ainda estava lá. Mas dessa vez, achou a vida real um refúgio mais confortável.
Pensou no bruxo e achou que poderia ser fruto da ditadura pela qual foi submetida na infância. E o bosque talvez fosse o vale das sombras.
Quanto ao homem de vermelho, esse sempre reaparece em seus sonhos. Já não tem mais o cavalo alado, nem a lança. Tudo o que tem agora é a confusão causada pelo bosque noturno.
Talvez tenha ficado louco. Ela o abandonou. Desejou voltar atrás e ficar perdida no bosque com seu salvador para sempre.
Pois o poder do amor iria se sobrepor a escuridão do bosque.
Izabella hoje sofre de insônia e sente saudade do tempo em que sonhava.

(Edu Neves)


2 comentários:

  1. Lindo Jimizinho!!! Parabéns!!! Arrepiou-me quando Izabella passou a não sonhar mais....
    Beijos
    anjonegro

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  2. e o bosque talvez fosse o vale das sombras...
    Que conto legal!
    tem mais?

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