sábado, 30 de junho de 2012

Melodrama Particular

E assim aconteceu
De o vento chamá-la
Chamou-a com a graça dos palhaços brancos que me torturavam
Dias inacabados depois da grande festa
Sim, eu a vi, Melinda
Através da cortina de fumaça
Que pendia das bocas selvagens
Então o salão inteiro ficou mais denso
Mas os meus olhos, como o seu coração incauto, estavam abertos
Então eu parti
Não olhei para trás, mas via tudo
Tudo o que não via, eu vivia
E assim vivi, sem palavras
Sem a língua
Sem a garganta cruel de Melinda

(Edu Neves)


domingo, 24 de junho de 2012

O Trem da Ilusão

Sim, nós caminhamos pelas sinuosas falências triviais
Inundamos de ódio e desgosto o sonho do navegante
Poderíamos apagar a tatuagem em seu braço
Poderíamos não lembrar do rosto da amante

E os trilhos ganhariam vida própria
E jamais ficariam acorrentados no solo devastador
Voltaríamos para casa às três da manhã
Escutaríamos as máquinas roncando, sem nenhum pudor

Sim, você pegou a rota errada da última vez
Partiu desolada e sem itinerário
Arrastou consigo os presentes futuros
Colocou na bolsa de grife todas as mágoas do passado

Sim, eu andei com vagabundos no sub-solo da desolação
Estive com o chefe da corregedoria do paraíso
Participei das festas da alta classe
Enquanto, aos poucos, assassinava meu último sorriso

(Edu Neves)



segunda-feira, 18 de junho de 2012

Filosofia Barata

Boa noite, mundo cruel cheio de garras
Espero pela sua impiedade em meus pesadelos
Meu filme triste passa em sua tela atmosférica
Não tem final, só tem desejo

Rua agonizante e cheia de espinhos venenosos
Passa e corre entre meus dedos fartos
Recolho-me de vergonha e cansaço
Ao que vomito, quando sinto asco

Meu peito grita e descompassa
Minha voz silencia em meio a um fogo cruzado
Minhas mãos tocam o que não tem tato
Como um navio em desamparo

Medo sorrateiro arrombando a porta
Trancando a sobriedade no armário
Prendendo os detalhes na correnteza
E abandonando a perfeição da pureza

(Edu Neves)


Teorema

'' O bater das asas de uma borboleta pode gerar um tornado do outro lado mundo ''. (Teoria do Caos)

Quando se torna a comida de alguém
Na certa, esquecemos do gosto ácido do fel
Outra hora passa rápida e lancinante
Me emudeço com o gemido do alto-falante

Santos de causas possíveis
Desvendam mistérios insolúveis
Guardam os devaneios a sete chaves
E se tornam a razão de todos os males

Doze destinos diferentes em um copo de Gim
E a noite acaba, mesmo sem ter fim
O que faço comigo é problema do mundo
O que fazes comigo é um desgosto profundo

Na calada se toca um outro suspiro
Em seus gritos se ouve um lamento lívido
Somados um mais um
Resultam dois mil suplícios

(Edu Neves)


quarta-feira, 13 de junho de 2012

Garota de Júpiter

Sorriso malévolo no rosto
Anéis de Saturno nos dedos
Voz irritante
Que chega aos meus ouvidos primeiro

Peste bubônica da Via Láctea
Seu talento é dizer não
Tomou meu remédio por uma via ácida
E adormeceu no porão

Sobrevivente da Terra desalmada
Me acertou seus dardos venenosos
Bebeu minha Piña Colada
E acabou com meu ópio

Garota gelada e cheia de dramas
Faminta e sedenta
Faz um filme, tece a trama
E cria o clichê de 1950

(Edu Neves)


Baile de máscaras

Gostaria de dizer que o relato abaixo é fruto da minha mente lisérgica, mas não posso mentir...


No meio em que vivo os números sempre foram de suma importância. Seres nocivos que ignoram por completo a matemática, fazem uma questão absurda de contar as inúmeras vantagens bem vistas aos olhos do ímpio. ''Eles'' dizem que a família tem o dever de preparar o indivíduo para ser um cidadão de bem. Honestamente, considero tal afirmação uma baboseira hipócrita feita para manipular os fantoches desolados. E na verdade, eu já desconfiava disso aos dez anos de idade.
A minha aversão a qualquer tipo de autoridade se tornou evidente quando me dei conta de que estava a favor dos garotos famintos, em uma quarta-feira cinzenta com gosto amargo.
Dia que não esqueço. Me lembro do rosto da madre superior ao notar a presença das crianças fartas de léguas e sem nada no estômago. Talvez o Vaticano tenha ficado com medo de contrair lepra.
Não sei dizer o que houve com os garotos, pois nunca mais os vi. Não eram mesmo daqui. Sei que volta e meia, me pego pensando em onde estariam. Mas nunca é do jeito que deve ser. O contrário sempre ocorre.
No entanto, aposto a minha alma como o convento inteiro nem ao menos se lembra de tal fato. E se lembram, esquecem imediatamente ao sentirem o cheiro do vio metal da iniquidade que rompe e corrompe os fracos de alma.
Mas as festas continuam. Vícios e virtudes dançam valsa no salão da imoralidade encoberta pelo sorriso falso, mas convincente dos atores.

(Edu Neves)




sexta-feira, 8 de junho de 2012

38 Graus de Insanidade

Cinco horas da manhã, duas garrafas vazias
Ele acorda putrefato e atravessa a avenida
Bebe um café amargo como sua alma
Corre os dedos por sua pele queimada

Pele cheirando a absinto exalado
Corpo tremendo de calor enevoado
Onze horas da manhã, um tiro à queima roupa
Lavou os pratos e quebrou a louça

Sono instigante mal sonhado
Duas horas da tarde, uma fome inexistente
Uma boca que respira
Um coração que não mente

Água gelada nas calçadas sujas
Sol encoberto, penumbra
Cinco horas da tarde, vivendo como uma múmia
Hora de dizer para sempre, quase nunca

Sete horas da noite, um uivo ao longe
A metafísica do quando e onde
O logarítimo exato do abandono
Se deitou com sono

Beliscou o braço afim de acordar
Sem resposta, foi caminhar
Dez horas da noite, um desespero inebriante
Falou-lhe alto o silêncio gritante

Meia noite, uma febre lascívia
Amanhã é outro dia, outra vida
O segundo eterno passou por ele sem hesitar
É chegada a hora de calar

(Edu Neves)