domingo, 29 de julho de 2012

Aprendendo a amanhecer sem Tédio

Outro dia quando voltava de uma festa trágica (que não me lembro onde foi), me deparei com uma serpente na minha cozinha. Notei que ela não se importou muito com a minha presença à princípio, mas realmente senti a garganta congelar. Explorei ao máximo a beleza sombria daquela animal enquanto as emoções se embaralhavam feito cartas transcendentais de um Black Jack alucinado.
Olhei-a direto nos olhos. Talvez tenha sido meu erro. O bicho se contorceu recuando e em seguida, avançou em direção as minhas pernas trêmulas. Por pouco a vadia não fazia um estrago dos grandes.
Foi nesse momento que notei as suas presas. Lindas e fatais. Poderia imobilizar-me se quisesse. Mas se fosse o caso, talvez já o teria feito. Ou não. Vai saber... essas coisas surpreendem a gente da forma mais perigosa possível.
Deixei a porta aberta, para que o monstro rastejante se tocasse e desse o fora, mas nem ao menos se movia. Não vendo muita boa vontade no bicho, decidi pegar um cabo de aço e tentar fazer com que se afastasse. Por fim, esteva fora de perigo. Fora do alcance do veneno ácido que eu tornaria a rever em sonho um dia.
Olhei para o relógio fraco pendurado na parede e vi que eram cinco da manhã. Hora do mundo acordar e cumprir sua meta de assassinatos. Mas eu dormi. Dormi como nunca tinha feito em toda minha vida.
Quando acordei muitas horas mais tarde, percebi que o céu coagulava gotas de chuva. Chuva vermelha e azul. Até na natureza haveria diferença e separação de classes? Pensei...
Peguei um manuscrito e danei-me a escrever coisas sem sentido. Escrevi por umas quatro horas seguidas à base de cafeína e alguns cigarros baratos.
Quando a noite se apresentou, havia dado conta da minha ''meta'' sem padrões. E então, lembrei-me da cobra que havia me assustado pela manhã. Pensei que poderia ter sido um sonho ruim para me ensinar a acordar. Sabe, acordar com mais dignidade...
Se formos reparar, ninguém acorda com dignidade. Ou é rápido demais, ou lento. Mas nunca é como deveria ser.
Não sabemos amanhecer. Não sabemos amar. Não sabemos sentir.
Mas tem uma coisa que sabemos. Ferir. Ferir nós mesmos, ferir o próximo, ferir o raio que o parta...
Antes que isso se torne uma imersão na filosofia budista, tem uma coisa boa que a gente sabe fazer. Mas talvez por ser boa, façamos com pouca frequência. Sabemos dizer a verdade às vezes.
É o que aprendemos na infância. No entanto, se disser a verdade, certamente irá ferir alguém. Então acaba ferindo de forma inconsciente; o que não minimiza o ''erro''.  Então, sua primeira reação natural será se desculpar. Mas se o perdão for camuflado de interesses, estará mentindo e não amando. Não deveria haver mentiras no amor. Em nenhuma forma de amar. Toda forma de se amar algo ou alguém, precisa ser verdadeira, senão o verbo se torna inválido.
E quando o verbo se torna inválido, não há verba que conserte o estrago.

(Edu Neves)



Um comentário:

  1. Para um amor dar certo, fazer que não haja mágoas, importante é tentar acertos.
    Perfeição nunca haverá visto que igualmente somos assim...imperfeitos.
    Tentando-se os acertos talvez se consiga que o verbo amar seja sempre válido ou que, ao menos, tenha uma boa validade.

    Carnho

    Aline

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