quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O Verde e o Vermelho

Quando te vi, vi além do seu decote convidativo
Quando te vi, vi além dos seus olhos iluminados de medo
Te vi, te quis e sonhei
Depois de me olhar no espelho

Não a toquei, mas a senti no meu sofá
A senti em meus poros, a senti em meu espírito torto
Tocarei esse imaculado corpo?
Não antes de alimentar os corvos

Toco você em mim, no início, meio e fim
Espero mil anos para tê-la uma vez, duas vezes, dez vezes
Beijar seus dedos tortos
E admirar seu esmalte verde

Nada mais interfere no quadro que eu pinto
Pinto seu corpo de vermelho
Vermelho-Sangue de um coração aflito
Vermelho de lágrimas do Rio Místico

Te perdi uma vez, no deserto das almas pálidas
Te achei de novo no compasso de um Samba lento
Se perder de novo, acho-te no inferno de um Jazz sem nome
E achando-a novamente, dar-te-ei outro nome

Um nome que todos irão se lembrar
Irão notar que em todo amor, há uma pontinha de dor
Uma pontinha mal apagada que um índio descartou
Adivinha só... (Aquela ferida cicatrizou)

(Edu Neves)


quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Alma Inocente e Sem Precedentes

A sala está vazia
Com a cadeira de balanço sem o mensageiro de cabelos prateados
Uma ausência que se torna cada vez mais presente
Presente de uma alma inocente

O velho rádio ficou mudo e nunca mais mentiu
O camisa 10 nunca mais lançou a 30 metros
O café frio e sem as bolachas já está a sete palmos de terra
Terra fértil que fez uma rosa branca nascer

O velho que amei sem precedentes
O amor que me foi dado sem transgressões
Ainda guardo a terceira lâmina que lhe fustigou a pele
Usarei contra os ladrões que se colocarem em meu caminho

Ainda escuto os contos da velha escola com atenção
Ouço o seu suspiro abafado, como quem escuta uma canção
Sinto a ternura de sua mão amputada me tocando
E dando de comer aos homens sem chão

A chance do perdão foi embora em uma semana
Tudo foi embora, como a mente nebulosa de uma galáxia distante
Não me vire a face, cavaleiro andante
Estamos à frente, mas ainda sou errante

Escute o meu suplício desgarrado
Visite-me em sonhos trancados no armário
Mande-me um sinal que há vida em Saturno
Ninguém o esqueceu, velho noturno

*(Dedico o poema acima com todo o meu amor, para meu velho, que partiu com olhos fechados, mas com o coração aberto)

(Edu Neves)

*(Estará sempre em nossos corações - A volta do mundo é grande, mas o poder de Deus é maior)






segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Deixei meu coração no Arpoador

Sim, Mr. Bennet, São Francisco está a milhas de distância da minha alma
Guardei meu dinheiro no banco de favores de um gueto qualquer
Fiz minhas escolhas e agarrei a cauda do cometa
Amei o primeiro suspiro da última mulher

Peguei o metrô sem calote e desci em um beco escuro
Beco da minha vida escura e clorídrica
Cheguei nas areias de um oceano fantasma
E a água era mais viva que minha mente farta

Sonhei com aquelas pegadas na superfície
Entendi que as pedras me diziam para acender a ideia perdida
Acendi e me apaguei em cinco minutos eternos de glória
Vida bandida voltou antes da hora

Usei a máscara do príncipe negro
Voei com as asas de um cavalo alado
Ri com as lágrimas do horror
Deixei meu coração no Arpoador

(Edu Neves)


domingo, 16 de setembro de 2012

Você tem que perder pra ganhar

Diga adeus para suas botas velhas e vista uma nova roupa
Vista-se de nuvens
Vista-se da sua dor efêmera e orgulhosa
Coma a maçã mordida em seu escritório e use a sua capa poderosa

Confira os relatórios cheios de ocorrências miseráveis
Mande seu chefe beber mais
Precisando achar um caminho para a estrada da loucura transeunte?
Procure, pergunte

Some o seu alívio com a velha sensação de estar em casa
Desligue a TV e nunca mais a veja através de olhos virgens
Sejamos o pecado buscando a redenção
Perca a cabeça e encontre o coração

Exiba as suas cicatrizes como medalhas
Ouro resplandecente em suas costas largas
Ouro eterno de um jovem vagabundo
Mesclando todo amor do mundo

(Edu Neves)


domingo, 2 de setembro de 2012

O Sonho de Plástico

O disco é rígido demais
Meu coração palhaço não passou na inspeção
Minhas mãos falam o que minha voz escreve
Com a cabeça no travesseiro e o corpo no espaço sideral

Oh, Pai! Seu punho é rígido demais
Apaga as estrelas e afunda o cais
A fibra óptica é a veia
De um coração sem paz

Sonho que acaba no começo
Dá um passeio em Londres e não volta mais
Pressinto o fim do abandono
Mas era apenas um e-mail me desejando paz

Fim da semana santa
Festas cheias de pecado
Corre em meus olhos sangrentos
O amor off line e seu sabor amargo

(Edu Neves)