quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O Natal é um Câncer

1

Vem garoto, peça-me um presente.
Lhe darei o que quiser. (Contanto que tenha sido um bom menino esse ano)
Foi um bom menino?
Fez alguém sorrir esse ano?
Disse que amava alguém esse ano?
Obedeceu a mamãe?

2

Papai Noel, como pode me perguntar uma coisa dessas?
O senhor só dá presentes para os meninos ricos.

3

Me respeite, filho. Sou uma lenda.

4

Sim, uma lenda morta.

(Edu Neves)



domingo, 15 de dezembro de 2013

Sem Título

Eu toco
Toco guitarra
Toco o seu corpo


Toco o Blues (Como um anjo louco)


Tenho dois poemas no bolso


E mais vinte


Na cabeça coberta de Sol                              Tenho nove vidas, mas...    (Um só coração)

(Edu Neves)


Rima

Página branca
Grito branco




A página é branca
E o grito é franco





Um, dois, três
Três, dois


E um
(Outra vez)


NÃO REPRIMA A RIMA

(Edu Neves)










terça-feira, 16 de abril de 2013

Poe's Black Wings (Asa Negra)

Bem me lembro!
Bem me lembro da noite enevoada em que voei
Voei para dentro do quarto do pobre homem aflito
E nada mais fiz, dito isso: Nunca mais!

Atirei a frase em seu sangue já coagulado
E seu pensamento secou
Secou há muito
O tempo atrasado

Na inércia de meus movimentos, o homem se viu
Se viu e chorou as lágrimas de outrora
Depois de dito tal feito
Nunca mais agora!

Tal homem morreu para sempre
Nos braços da doce Lenora
Bicho da semente que sente
Nunca mais pra sempre!

(Edu Neves)


quarta-feira, 10 de abril de 2013

Cada qual no meu Lugar

Na minha cama, um oceano
Na minha mente, um devaneio qualquer que se desfaz com a sua luz
No meu corpo, o estado sádico do cansaço
Na mesa, a comida devorada

No céu, os abutres tem fome
Nas nuvens, as lágrimas de Deus que caem no solo
No sofá, um velho livro não lido
Na vida, uma descrença impiedosa

(Edu Neves)


quinta-feira, 4 de abril de 2013

Insônia

Então, o que tem aí dentro?
Nada não. Nada que faça calor.
A noite chegou fazendo frio
Frio que o vento soprou

Então, o que faz aí dentro?
Durmo sem sono e sonho com a utopia de mim mesmo
Sonha acordado, moço?
Durmo sonhando e nunca acordo.

E o silêncio da noite me traz de volta
Aquela volta em que estou perdido e sonhando.

(Edu Neves)


sábado, 23 de março de 2013

Down to México (Parte 2), Ou a Revolta dos Justos

Ela brilhava.
Brilhava com a luz do sol que cegava à quem pudesse fitar.
Todos se sentiam bem naquela manhã um tanto quanto inebriante e estranha. O sol teimava em arder cada pele que se aproximava dela.
No entanto ela permanecia ali, sem pecados e imóvel. Justa.
Garret já havia dito que ela estaria ali para sempre. Blanc já costumava dizer o contrário, mas relutava em dizer o motivo.
Quanto ''la bravata'', essa sim, sempre permanecera justa. Diziam que era a única coisa limpa da cidade.
Mas a chegada de um forasteiro começou a colocar o mito por terra. Barão das Almas era conhecido por sua impassividade e seu prazer infinito nas torturas. A cidade passava por um período econômico que poderíamos chamar de crítico, se não fosse ''la bravata''. Mas uma arma mística não foi capaz de colocar o dinheiro de volta nos cofres sujos do lugar.
O prefeito Cid já havia chamado o Barão (que era um homem de posses), para o ajudar a levantar fundos para um futuro evento que colocaria o nome da cidade no mapa novamente. Um lugar já sem nome.
Um evento que promoveria um campeonato (ou duelo), de tiros para tal feito foi a grande ideia do Barão das Almas. Promover a vida com a morte era seu passatempo favorito e conhecido pelo prefeito sem culpa.
Na verdade, o prefeito passou a lavar as mãos desde que sua filha Jane desapareceu misteriosamente há alguns meses. As pessoas do vilarejo diziam que ele havia ficado mais sério e mais parecido com o próprio Barão, o que assustava os moradores.
Chegado o dia do duelo, que consistia em dois homens na linha de frente, cada um com sua ''bravata'' em punho para atirar em seu oponente, recebendo assim o vencedor, o dinheiro de volta nos cofres e o beijo anestesiante de Jane (que não estava lá), Garret foi um dos primeiros escolhidos. Sua técnica com duelos devia-se em parte à Guerra Fria e as muitas mortes em suas mãos pela defesa e honra de sua própria vida.
Ficou conhecido também por salvar muitas vidas no campo de batalha e com isso, se tornou uma espécie de herói pobre do vilarejo.
Porém o Barão, decididamente tentado a tomar a direção oposta, se filiou à Blanc. O temível ladrão dos justos. Blanc cresceu junto com Garret num lugar não muito distante dali e foram obrigados a se mudarem devido ao holocausto que culminou com a morte de seus pais. Nunca se soube muito à respeito dos pais dos dois. Até a pouco tempo eles também eram considerados forasteiros. Mas o tempo é sempre justo e acaba revelando a verdadeira face de um ladrão.
Se Blanc ganhasse o duelo, além aniquilar o bom ladrão do recinto, tomaria para si a própria aposta e somaria com o prêmio, partindo dali com seu padrinho, o Barão, para jamais retornar, não antes de incendiar o pequeno lugar e se certificar de que nenhum pobre diabo contaria aquela história para seus vindouros.
Já Garret, iria ajudar o prefeito em sua busca implacável pela filha e montar seu próprio negócio, além de repor o dinheiro roubado dos cofres em seu devido lugar.
Seus planos chegaram aos ouvidos do Barão, que se colocou a pensar em uma forma de acabar com o verme maldito.
Muita gente já se preparava para ouvir os dois tiros (ou só um, mais provavelmente) das ''bravatas'' dos desafiantes e o calor em nada ajudava. A terra seca como o próprio clima hediondo, se fixava em uma estrela de fogo em volta dos dois.
Logo a pena de um abutre caiu no solo infértil e foi como se um apito de um juíz tivesse soado naquele instante, quando Garret atirou e acertou o ombro de Blanc, que caiu, mas não muito abalado. Olhou de relance para cima e só pôde ver o sol quase lhe cegando, quando sacou a arma e apontou para Garret, disparando dois tiros certeiros nas costas do bom ladrão. O prefeito desmoronou e o Barão das Almas vibrou e tomou posse dos justos, quando seus olhos por um instante, congelaram. A aparição que se seguiu surpreendeu a todos, mas foi decisiva para Blanc. Jane, com ''la bravata'' em punho lhe acertou a cabeça em cheio, fazendo saltar seus olhos em uma imagem surreal.
O prefeito tomou a filha em seus braços e chorou pela morte de Garret. Notou que a barriga de Jane tinha crescido bastante, mas não questionou.
Nem ao menos se surpreendeu quando Garret renasceu em um bebê saudável.
Hoje em dia, Jane cuida da cidade com mãos ferrenhas contra os ratos imundos. E o lugar se tornou mais limpo.
E ''la bravatta'' ainda brilha, mesmo sem sol.

(Edu Neves)



quarta-feira, 20 de março de 2013

Down to México

Ele chegou com as cartas na manga
Já sabendo-se imortal, virou os ases e ganhou o jogo
Os imorais o olharam com certo ódio e repulsa
No entanto, ele se virou e foi para a outra mesa

Já em outro mundo, não mais se perdeu pra ganhar depois
Bebeu seu copo de tequila já pela metade
Se inclinou para o homem com o chapéu enorme e sorriu
Um riso com quatro valetes e o coração de Eva

Outrora, podendo precisar, iria aproveitar-se daquele espírito
Já tinha vendido sua alma à um índio
Poderia vender algo mais, que não fosse a próxima mão sem sorte
Quando os portões se fecham, é melhor não contar com ela

Depois de esvaziar os bolsos, saiu como o bom ladrão justo e dourado
Calçou novamente os calos e as armaduras
Voltou para onde não há lugar para os velhos
Santo lugar com um nome santo, México

(Edu Neves)


terça-feira, 12 de março de 2013

Venice

Preciso de Venice
Um lugar onde o tempo parou e a vida reluz à ouro
Um lugar onde o sol tenha vez
Ao invés da lua montanhosa
Preciso de Venice

Por um minuto, preciso de Venice
O paraíso abstrato dos prazeres
Onde ninguém é triste
Onde todos enxergam o horizonte a frente
Preciso de Venice

Preciso de Venice, agora
O revés da lâmina afiada no coração dos injustos
Um lugar que me dê as boas vindas
Um lugar que nunca dorme
Onde as pessoas jamais bocejam

Preciso falar com Venice
Uma ligação de longa distância
Uma linguagem universal diante de Deus
Aos passos de um transeunte íntimo
Ao aperto de mão de um amigo seu

Preciso me ligar com Venice
Um laço inquebrável
Que nem um tiro desfaz
As asas de um cavalo
Sobrevoando o tão inútil ar

(Edu Neves)


domingo, 3 de março de 2013

Canção Para Salvar a Alma (Song for Son)

Então há aquele tipo de amor
Que me fez cometer a loucura de forjar um encontro às escuras
Aquele tipo de amor que é uma casa escura
Aquele tipo de amor sem candura
Onde você imagina que há cura

Então há um certo tipo de Blues que fica do lado esquerdo
Um Blues que te entorpece
E seca as suas lágrimas de medo
Um som seco e cortante que te acerta em cheio
Quando está cego em um devaneio

Então há uma carta sobre a mesa
Uns garranchos camuflados pelas gotas (lágrimas de sangue)
Um breve adeus em um pedaço de papel
So long, meus erros
Come down, meu céu

Então há aquela manhã sem sol
Quando você percebe que está sozinho em meio a multidão
Já não há mais sol
Já não há mais chão
Só eu, você e o barulho do trovão

Então há o fim de um dilema
O fim de toda uma promessa pequena
Um recomeço em novena
Há o que não havia
Nos braços da morena

(Edu Neves)





segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Rapina

Meu gavião de peito aberto, pegue a filha do seu servo
Coma as entranhas do injusto
Gavião desolado
Migre para o pacífico ( Nos confins do mundo )

Galo do sertão árido, beba da fonte da juventude
Que o mar vire sertão
E contemple
A sua plenitude

Meu carcará imaginário, deguste o vinho tinto
Com seu paladar indigesto
Volte para o seu inferno
Antes que eu mesmo me contesto

Tenha cuidado com a serpente que voa
Voa, voa para bem longe do meu coração
Se esgueira mata adentro
E me morde a mão

Peço-te o fim dos dias amenos
Que tenha compaixão de seu pobre amigo
E colha as flores no deserto
E faça-me um abrigo

(Edu Neves)


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Corpo Fechado

Quem dera eu, ser a primavera azul e fria nos olhos dela
Ou a estrela no céu de sua boca
Um pássaro a espera
Do som de sua voz rouca

Ter o corpo fechado para as amarras e correntes
Desafinando o coro docente
Até que a música se perca
No sol reluzente

Quem dera eu, ter o espírito são e livre
Livre dos temores de ti
Livre do inferno em ti
Livre do inverno em mim

Ter a espada de São Jorge nas mãos
Toda alquimia que mata o dragão
Ter o respeito do inimigo nas mãos
Ter a letra de uma nova canção

(Edu Neves)


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

O Sol se Desfez

O Sol se desfez quando o assassino lhe estendeu o cálice
Com cuidado, lhe tragou as escaras de uma vida passada
Então passou o chapéu e alguém depositou os créditos roubados
Rosas roubadas em um jardim caótico

O Sol se desfez quando a noite te invadiu sem pedir licença
Com as armas guardadas depois do genocídio
Alguém te roubou de si mesmo
E lhe tomou as crenças

O Sol se desfez quando o café ficou amargo
Com as promessas de amor não vividas
Com a lascívia das ondas no porto
Com a luz em cima do armário

O Sol se desfez quando amanheceu no seu quarto
Manhã fria e sem sono adentro
Mil pesadelos
Partidos em quatro

(Edu Neves)


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Pelas Coisas mais Lindas


De onde venho não tenho abrigo
Só tenho a morada do sol
Só tenho a cor do sol
Mas não tenho o seu calor
Posso jurar pelas coisas mais lindas
Que tenho andado na linha
Mas o caminho é torto

De onde venho só tenho o vinho
Só tenho a nuvem negra logo acima
Só tenho a cor da noite
Roubando as minhas rimas
Posso jurar pelas coisas mais lindas
Que tenho andado na linha
Mas o caminho é outro

De onde venho só tenho um retrato
Só tenho a imagem
Só tenho o farol da ilha
Só tenho o que não queria
Posso jurar pelas coisas mais lindas
Que saí um pouco da linha
Mas o caminho é novo

(Edu Neves)


Canções do Vento

Quando decidi me perder
Já sabia o que iria achar
O que iria encontrar
Nos seus braços, ao seu lado
À seu dispor
E esse vento que eu ouço agora
São palavras jogadas fora
São flores mortas
No caminho de uma vida torta

Quando decidi me encontrar
Já era dia em algum lugar
Com o sol a mostrar
Todo o brilho de cada olhar
E essa onda que me cobre agora
São só as lágrimas que eu joguei fora

(Edu Neves)


segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Janelas Abertas (Sob o Sol da Primavera Glacial)

No frio, relutes ao mar revoltoso
Invista seus bens com uma pitada de dor
Dar-te-ei o calor da Toscana
Ou a incerteza de um guru (Seja como for)

Me calo com palavras ao vento
Vento que leva algo meu embora, um rebento
Ou como sempre minha mente caminha
A passos lentos

Na Primavera, roube flores
Roube corações aflitos
Me toque depois do verbo não dito
O verbo é correr o risco

Risco é o rabisco do seu filho desenhando
Um mar de estrelas gritando
A dor que sente
Quando está amando

Nas horas incertas, abraça-te
Diga ao universo que o amor ainda reina aí dentro
Faça de conta que o que conta erra as contas
Sejas o quinto elemento

Ao nascer do Astro Rei, beba o seu calor
Beba enquanto me visto
Beba o conteúdo misto
À prova de horror

(Edu Neves)