sábado, 23 de março de 2013

Down to México (Parte 2), Ou a Revolta dos Justos

Ela brilhava.
Brilhava com a luz do sol que cegava à quem pudesse fitar.
Todos se sentiam bem naquela manhã um tanto quanto inebriante e estranha. O sol teimava em arder cada pele que se aproximava dela.
No entanto ela permanecia ali, sem pecados e imóvel. Justa.
Garret já havia dito que ela estaria ali para sempre. Blanc já costumava dizer o contrário, mas relutava em dizer o motivo.
Quanto ''la bravata'', essa sim, sempre permanecera justa. Diziam que era a única coisa limpa da cidade.
Mas a chegada de um forasteiro começou a colocar o mito por terra. Barão das Almas era conhecido por sua impassividade e seu prazer infinito nas torturas. A cidade passava por um período econômico que poderíamos chamar de crítico, se não fosse ''la bravata''. Mas uma arma mística não foi capaz de colocar o dinheiro de volta nos cofres sujos do lugar.
O prefeito Cid já havia chamado o Barão (que era um homem de posses), para o ajudar a levantar fundos para um futuro evento que colocaria o nome da cidade no mapa novamente. Um lugar já sem nome.
Um evento que promoveria um campeonato (ou duelo), de tiros para tal feito foi a grande ideia do Barão das Almas. Promover a vida com a morte era seu passatempo favorito e conhecido pelo prefeito sem culpa.
Na verdade, o prefeito passou a lavar as mãos desde que sua filha Jane desapareceu misteriosamente há alguns meses. As pessoas do vilarejo diziam que ele havia ficado mais sério e mais parecido com o próprio Barão, o que assustava os moradores.
Chegado o dia do duelo, que consistia em dois homens na linha de frente, cada um com sua ''bravata'' em punho para atirar em seu oponente, recebendo assim o vencedor, o dinheiro de volta nos cofres e o beijo anestesiante de Jane (que não estava lá), Garret foi um dos primeiros escolhidos. Sua técnica com duelos devia-se em parte à Guerra Fria e as muitas mortes em suas mãos pela defesa e honra de sua própria vida.
Ficou conhecido também por salvar muitas vidas no campo de batalha e com isso, se tornou uma espécie de herói pobre do vilarejo.
Porém o Barão, decididamente tentado a tomar a direção oposta, se filiou à Blanc. O temível ladrão dos justos. Blanc cresceu junto com Garret num lugar não muito distante dali e foram obrigados a se mudarem devido ao holocausto que culminou com a morte de seus pais. Nunca se soube muito à respeito dos pais dos dois. Até a pouco tempo eles também eram considerados forasteiros. Mas o tempo é sempre justo e acaba revelando a verdadeira face de um ladrão.
Se Blanc ganhasse o duelo, além aniquilar o bom ladrão do recinto, tomaria para si a própria aposta e somaria com o prêmio, partindo dali com seu padrinho, o Barão, para jamais retornar, não antes de incendiar o pequeno lugar e se certificar de que nenhum pobre diabo contaria aquela história para seus vindouros.
Já Garret, iria ajudar o prefeito em sua busca implacável pela filha e montar seu próprio negócio, além de repor o dinheiro roubado dos cofres em seu devido lugar.
Seus planos chegaram aos ouvidos do Barão, que se colocou a pensar em uma forma de acabar com o verme maldito.
Muita gente já se preparava para ouvir os dois tiros (ou só um, mais provavelmente) das ''bravatas'' dos desafiantes e o calor em nada ajudava. A terra seca como o próprio clima hediondo, se fixava em uma estrela de fogo em volta dos dois.
Logo a pena de um abutre caiu no solo infértil e foi como se um apito de um juíz tivesse soado naquele instante, quando Garret atirou e acertou o ombro de Blanc, que caiu, mas não muito abalado. Olhou de relance para cima e só pôde ver o sol quase lhe cegando, quando sacou a arma e apontou para Garret, disparando dois tiros certeiros nas costas do bom ladrão. O prefeito desmoronou e o Barão das Almas vibrou e tomou posse dos justos, quando seus olhos por um instante, congelaram. A aparição que se seguiu surpreendeu a todos, mas foi decisiva para Blanc. Jane, com ''la bravata'' em punho lhe acertou a cabeça em cheio, fazendo saltar seus olhos em uma imagem surreal.
O prefeito tomou a filha em seus braços e chorou pela morte de Garret. Notou que a barriga de Jane tinha crescido bastante, mas não questionou.
Nem ao menos se surpreendeu quando Garret renasceu em um bebê saudável.
Hoje em dia, Jane cuida da cidade com mãos ferrenhas contra os ratos imundos. E o lugar se tornou mais limpo.
E ''la bravatta'' ainda brilha, mesmo sem sol.

(Edu Neves)



quarta-feira, 20 de março de 2013

Down to México

Ele chegou com as cartas na manga
Já sabendo-se imortal, virou os ases e ganhou o jogo
Os imorais o olharam com certo ódio e repulsa
No entanto, ele se virou e foi para a outra mesa

Já em outro mundo, não mais se perdeu pra ganhar depois
Bebeu seu copo de tequila já pela metade
Se inclinou para o homem com o chapéu enorme e sorriu
Um riso com quatro valetes e o coração de Eva

Outrora, podendo precisar, iria aproveitar-se daquele espírito
Já tinha vendido sua alma à um índio
Poderia vender algo mais, que não fosse a próxima mão sem sorte
Quando os portões se fecham, é melhor não contar com ela

Depois de esvaziar os bolsos, saiu como o bom ladrão justo e dourado
Calçou novamente os calos e as armaduras
Voltou para onde não há lugar para os velhos
Santo lugar com um nome santo, México

(Edu Neves)


terça-feira, 12 de março de 2013

Venice

Preciso de Venice
Um lugar onde o tempo parou e a vida reluz à ouro
Um lugar onde o sol tenha vez
Ao invés da lua montanhosa
Preciso de Venice

Por um minuto, preciso de Venice
O paraíso abstrato dos prazeres
Onde ninguém é triste
Onde todos enxergam o horizonte a frente
Preciso de Venice

Preciso de Venice, agora
O revés da lâmina afiada no coração dos injustos
Um lugar que me dê as boas vindas
Um lugar que nunca dorme
Onde as pessoas jamais bocejam

Preciso falar com Venice
Uma ligação de longa distância
Uma linguagem universal diante de Deus
Aos passos de um transeunte íntimo
Ao aperto de mão de um amigo seu

Preciso me ligar com Venice
Um laço inquebrável
Que nem um tiro desfaz
As asas de um cavalo
Sobrevoando o tão inútil ar

(Edu Neves)


domingo, 3 de março de 2013

Canção Para Salvar a Alma (Song for Son)

Então há aquele tipo de amor
Que me fez cometer a loucura de forjar um encontro às escuras
Aquele tipo de amor que é uma casa escura
Aquele tipo de amor sem candura
Onde você imagina que há cura

Então há um certo tipo de Blues que fica do lado esquerdo
Um Blues que te entorpece
E seca as suas lágrimas de medo
Um som seco e cortante que te acerta em cheio
Quando está cego em um devaneio

Então há uma carta sobre a mesa
Uns garranchos camuflados pelas gotas (lágrimas de sangue)
Um breve adeus em um pedaço de papel
So long, meus erros
Come down, meu céu

Então há aquela manhã sem sol
Quando você percebe que está sozinho em meio a multidão
Já não há mais sol
Já não há mais chão
Só eu, você e o barulho do trovão

Então há o fim de um dilema
O fim de toda uma promessa pequena
Um recomeço em novena
Há o que não havia
Nos braços da morena

(Edu Neves)