segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Jokerman Em Marte

Viveu como um gato
Sempre se movendo nas direções contrárias
Partiu pra outro planeta
Com sua pupila dilatada

Nos deixou como um relâmpago vermelho
Nas colinas de sua infância
Construiu sua casa sem engenheiros
Com toda sua magia dinâmica

Nos provou que Marte é colorido
Assim como sua alma multi-facetada
Criança de simpático sorriso
Fez de Blackstar, sua última cartada

Nos mostrou que cinema e música andam juntos
Como o casal utópico que nunca se separa
O homem que vendeu o mundo
Agora está em casa

(Edu Neves)




sábado, 2 de janeiro de 2016

Carnaval De Flores

Sem a máscara digna de perfeição
Olhos abertos para a curva acentuada
Digo palavras e sigo a canção
Diante da criatura desfigurada

Sonho sonhos infernais com os anjos de Avalon
Jogo dardos no centro da gravidade
Ganho o jogo na tarde de baunilha
Depredando toda promiscuidade

Mas sua fantasia não me engana
Tenho memória fotográfica
Bebo cana que desencana
E me mando pra outra galáxia

Seu jardim de cores desabrochou
Em seu infinito entardecer
Ao amigo que lhe clamou
Deixo um belo anoitecer

(Edu Neves)



Espaço, Corpo E Tempo

Digo não para o tempo, mas ele é implacável
Me despe como se eu fosse a Madame da casa vermelha
Empresto meu luto por um fim agradável
Ainda que seja temível, sua teia

Serve-me o vinho tinto que lhe trouxe
Os segundos estão passando
Não há ninguém que ouse
Estar ali, fumando e clamando

Meio metro de terra matou um homem em Frisco
Foi pouco demais para pedir perdão
O tempo passou, mas ainda lembro disso
Disso que vai passar sem permissão

Me empresta a sua blusa, senhor da noite
O frio não me cativa
O calor me deu um coiçe
Bem na têmpora do tempo que esquiva

(Edu Neves)



Ilusões Perdidas (Parte 2)

Perco-me, anchando-me o tal sujeito
O tal sujeito que ficou em cima de um muro de espinhos
Por não saber o que quer, de qualquer jeito
Termino por encontrar-me sozinho

Free again, but lonely mind
Aposto qualquer dinheiro por um final de paz
Paz que a ilusão verdadeira deixou pra trás
Paz e sorte que preciso pra jogar o ás

Pés e mãos atadas ao passado recente
Porém, não presente, ao que me consta
Fingindo ser poeta
Sendo encoberto pela onda

Longa distância é meu escudo, por hora
Sem cartões, ou crédito de um vagabundo errante
Tomo a pílula da felicidade de outrora
Que não me fantasie, ou entro em transe

(Edu Neves)



Meu Grito

Se pudesses ouvir, viria à galope
Ainda vejo as montanhas altas de seu vilarejo
Ainda tenho cinco vidas de sorte
Para saborear o que almejo

O vento me soprou uma canção ao pé do ouvido
Duvido que tenhas ouvido o mar revoltoso
Melhor seria ouvir meu grito
Diante do todo poderoso

Seja bem vinda à minha vida nas estrelas
Quero-te um bem que nem posso segurá-lo nas mãos
O Universo inteiro deságua em Veneza
Ao toque do sino ancião

Tenho que partir sozinho, sozinho é minha solidão
Sozinho com alguém vendo tudo
Sozinho desato o nó da escuridão
Sozinho, sou um vulto

(Edu Neves)



Muito Jovem Pra Morrer E Velho Pro Rock & Roll

Quando me ouvir cantar, deixe-me com meu lamento
Preparo para subir ao altar
Preparo para morrer
Não quero seu unguento

As armas estão afinadas em si bemol
Tom cantado pelo melro preto
Tom com seu tom desafinado
Trouxe um Blues e um Bolero

Chuck Berry plantou as sementes em casa
Mas lhe roubaram seu tesouro
16 Anos jogados na cara
Agora procura por outro tom torto

Vivo hoje em Dixieland
Terra frutífera e sonora
Porém, velho e afim de afagos
Já passou da hora

(Edu Neves)



Não Estou Em Ninguém

Tempestade no telhado de vidro
Aqui, eu e mais ninguém
Provo do fruto proibido
Alcançando o além

Ouço o som da guitarra me punindo
Pelos erros que deixei de cometer
Correndo como um menino
Virando criança para crescer

Vejo os sinais da noite escura
Fria neblina do amanhecer
Mídia versus censura
Um osso duro de roer

Vejo a palidez de Melinda
Clara luz à longa distância
Cavalo branco sem crina
Caminha sob um rio de esperanças

(Edu Neves)



O Último Concerto

Viva Vivaldi e sua nebulosa
As ostras do oceano estão famintas
Assim como diante da moça formosa
Que revelou suas partículas íntimas

O último adeus de Deus
Acenando ao avião sem asas
Meu anjo é o ventre seu
Com a semente do azul plantada

Venha a mim o violino perverso
A tumba de Drácula ressoa
Não tenho tempo de escrever o último verso
Por falar em terceira pessoa

Viajando pelo espaço (Across The Universe)
Sem botas para sujar
Vendendo selos lacrados
Com a ternura que vai ficar

(Edu Neves)




Pobre Garoto Sentado Na Calçada

Aquele que te iludiu, marcou presença
Ausência de uma lembrança o fez feliz por um segundo
Pobre garoto sentado na calçada
Não tem mais crença, só pendências

Jogou fora as suas tralhas, ao vento
Castigo que fora eterno
Golpes de açoite lento
Ficaria bem vestido num terno

Carregava na mão, uma arma para se manter
Mas a inércia do gatilho seguiu e o venceu
Precisou se vender, pobre andarilho
Deitou na calçada e cedeu

Voltou para a cela, e foi à lona outra vez
Deitou e engoliu os pensamentos alheios
Dos sete pecados, cometeu seis
E o último o tornastes cheio

(Edu Neves)



Prisma

Outros cristais se quebram
Um coração pede ajuda
Janelas abertas se fecham
Se fecha a ferida sem cura

Outros carros voam pela avenida
Uma jovem quebra todas as barreiras
Um ancião agradece pela vida
O velho não diz coisas corriqueiras

Somos o sol e a lua que se amam platonicamente
Como um remédio para a juventude eterna
Uma mente que não mente
Se escondeu no planeta Terra

Caíram os anjos do edifício
Não tocaram o hino sagrado da graça eterna
Estão por sua conta e risco
Enquanto ainda está acesa, a vela

(Edu Neves)



Quarto 210

Tocou a última nota fazendo um sepultamento
Foi dissonante a vida inteira
Levou a surra sem alento
Levantando a bandeira

Seu corpo jazz em Los Angeles
Como uma vitória aos sepulcros
Nem notaram o quanto antes
Que não eram notas, mas uivos

Janela abaixo voou para a liberdade
Sem sorrisos ou acenos tímidos
A platéia abraçou a impunidade
Enquanto faziam festa, os mímicos

Seu espírito ainda vive no Jazz que morreu como corpo
Seu alívio fez da colher e agulha irmãos
Algum pássaro preto lhe rendeu um broto
Mas agora está falido, sem irmãos, sem mãos

(Edu Neves)



Silêncio No Recinto

Surrupio botas e olhares sem retina
O silêncio entrou e ficou
Sem pedir licença, veio a neblina
Essa, não vacilou

Tenho em minhas mãos as chaves que abrem o abismo de minha mente
Quero fechá-la, pois os piratas roubaram meu baú
Quero abri-la, pois o sol nasceu para os crentes
Temo me isolar em um campo nu

Abraço o braço que me deu de comer
Abraço com força as asas de gigantes de aço
Abraço o seu bem querer
Abraço tanto, que não tenho mais braço

Amargura no recinto, é o que sinto
Sinto não poder dizer tudo o que foi dito
Proposto e assumido
O plano se perdeu no vazio

(Edu Neves)